
Talho
salamandras no cio
arranham
as ancas de minha esquizoidia
línguas negras de argila
os hematomas são drusas
ultrametistas
verso violáceo metamorfoseado
na carne da Carmen de Godard
sal, suor, sangue, gritos
agora eu cheiro a feromônio de raflésia
eis o início de um grande amor:
carniça
Grimório
o amor cai dos livros
búzio sanguinolento
das páginas, despenca
cabalístico
causticando olhos
coiceando lábios
aranha-oráculo
cavouca a carne do Impossível
Lince
amor sulcado de cólera
energia escura das pedras
anjo e víscera
avança, destroça
a língua aguça
o corpo epilético
da selva
caninos celebram
áurea miséria da carne
buquê de carcaças
Vênus Vulcânica
medusa enforcada
o espelho estilhaçado pelo eterno retorno de Saturno
Atena e Aracne rasgam
abismos sanguíneos em meus abismos
afiam demônios
meu batom vermelho batizado com belladonna
pulsos seios púbis perfume de endorfinas ofídicas
pupilas dilatadas por metanfetaminas hálito de tequila e haxixe
nefelibata, calço os coturnos de Hilda visto seu casaco rosso
e macero cicutas com meu amante
frente ao fantasma asfixiado de Sylvia Plath
Poemas do livro ZARABATANA ( Editora Patuá, 2016)
O livro foi publicado pela Editora Patuá, com prefácio de Aline Cardoso e posfácio de Expedito Ferraz Júnior, a edição está esgotada. A obra recebeu resenhas e foi objeto de estudo em universidades e grupos de pesquisa.

Anna Apolinário é poeta, escritora e produtora cultural paraibana, natural de João Pessoa (PB). Mestra em Letras e Pedagoga formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), constrói uma trajetória em que palavra, corpo e subjetividade se entrelaçam como prática artística e política. Autora de livros de poesia como Solfejo de Eros, Mistrais, Zarabatana e Beijos de Abracadabra, sua escrita investiga o desejo, o erotismo e a experiência feminina, expandindo-se para a performance e a cena. É fundadora da Cia Quimera – Teatro Poesia e idealizadora do Sarau Selváticas, espaços de criação coletiva e circulação da poesia, com atuação contínua na cidade de João Pessoa.