
VIAS DO INFINITO SER
sem a ordem do dia
do sobrenatural
não haveria
a natural ordem
das coisas da noite…
da noite para o dia
silentes instantes
tornam-se eternos…
do dia para a noite
palavras saltam muralhas
e viram estrelas…
instantes e estrelas
conhecem os refúgios do tempo
mas desentendem
a quietude das pedras
e a saga dos pássaros
translúcidos
do sétimo céu…
por via das dúvidas
há vias de certezas
que nos desafiam a percorrer
in/conscientemente
e em perfeita claridade
a via láctea e o infinito
do nosso ser…
PRECE
que seja conferido
com fogo sagrado
o ferro que fere o sentido
do verso…
a poesia não malha em ferro morno
– é flama imutável
[somente por meio das suas artérias
emana hálito de jasmim
da garganta da palavra]
ah, Poesia,
que a tua nudez e o teu espírito
as nossas mãos
aqueçam…
ESTRELA AZUL
De repente aquele claro instante
ganhou luz… azul… semblante,
um prelúdio,
uma estrela,
um tom azul…
Nesta aura em leve pulsação
azul sonhei um coração…
azulejando a vida, o sonho
num risonho seduzir…
Contemplei o lume da harmonia,
me vesti de primazia
e no azul eu viajei…
Assim velejei tantos encantos,
afagando afinal
o real em sonhos azuis…
Ah, se aquela estrela
agora estivesse
no azul desta messe
escutando o meu blues…
ENTREGA
Poesia, Poesia…
em teu espírito
entrego as minhas mãos…
[em tréguas
minhas razões,
minhas ações e negações].
Poesia,
que unificados em teu abrigo
renasçam os grãos
caídos entre espinhos…
UM VULTO EM VOLTAS
da janela do quarto
tantas vezes ficou
[sem pestanejar
bebendo um vento gelado]
tecendo as plumagens do silêncio
em retinas de tigres
de insaciáveis rotinas…
assim
soletrava as senhas de pontes e tronos,
sondava o sono das montanhas esquecidas
em impérios sombrios
e intuía o imenso croqui
de um paraíso incerto,
além das ilhas sem horizontes…
não era prisioneiro
de suas indecisões,
mas só iluminou seus pensamentos
com disciplina
no dia em que aprendeu
a seguir procissões de formigas…
TOCANTINS
em toque tocante,
toquei-te,
Tocantins!
e assim
qual tocata tocável
em torvelins…
ficaste em mim!

RUBENIO MARCELO – é poeta escritor, compositor, ensaísta, revisor e advogado. Membro efetivo da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35), é autor de treze livros publicados, sendo que um dos seus livros mais recentes Vias do Infinito Ser ((poemas, 1ª ed. 2017: ed. Letra Livre; e 2ª ed. 2020/2021: ed. Life / Letra Livre) foi indicado pela Universidade Federal de MS (UFMS) como leitura obrigatória para os vestibulares no triênio 2021/22/23 e também foi indicado ao PASSE UFMS 2024/25. Foi Conselheiro Estadual de Cultura de MS. É um dos autores homenageados no livro ‘Vozes da Literatura’ (FCMS), que também enfoca sua obra e biografia. Reside em Campo Grande-MS. Acerca do livro Vias do Infinito Ser, o poeta e crítico, membro da ABL, Antonio Carlos Secchin, assim afirmou: “Na poesia de Rubenio Marcelo, em vez de o ser humano habitar o cosmo, é o universo que reside no homem. Tudo emana da força da poesia, e é com essa luz de dentro, deflagrada pelo poder do verbo, que subitamente as coisas ganham forma e novo sentido. Como se lê em um de seus poemas, “palavras saltam muralhas e viram estrelas”.