
TERCEIRO POEMA DA FALTA
Uma vez acreditei que aquele feijão
cozinhando em fogo baixo era uma trégua:
podia rir do sofrimento e reverenciar a primavera.
Não deixei que o concreto da cidade grande
acabasse com as rachaduras da infância:
impossível roubar tangerinas sem deixar a marca do cheiro.
Se acumulei noites e amadureci definitiva
foi por culpa das asas antecipadas,
da mania de recontar histórias.
Minha mãe dizia:
atravesse uma dor de cabeça erguida. Eu atravessava.
Nunca corri da chuva.
Desconfio que as raízes da resistência materna
ainda me vigiam.
FEROCIDADE SÚBITA
Escancarados passos dou em nome da paixão.
Sem nenhum tato o fogo avança,
me devora cego,
depois me acorda estou só e degolada.
Entre pernas, dedos, segredos,
o espaço desgrenhado do quarto.
Não dá para confundir ais e bem-te-vis
nem a braguilha aberta da calça.
Com o beijo, com a faca,
quase a um palmo da paixão,
te corto às cegas, sem memória.
O que respinga do quarto não é sangue
é a minha boca molhada, acesa e sã.
CONJUGAÇÃO
Um quadro de Van Gogh ou um verso de Cecília
não tiram de mim a imperfeição.
Sei quando a noite é insulto
e que não terei à minha porta as quatro estações.
Nem os deuses, nem as salamandras com seus poderes
hão de me livrar do cansaço, dos punhais,
deste céu escuro, atormentado.
Aquilo que mais sei sempre me atravessa, não se eterniza.
Ainda que eu saiba a cor dos meus desejos,
continuo bebendo desta taça funda,
mas não darei nome a tanta sede.
ESTA MÚSICA SOB O OLHAR DO ANJO
Ele nunca deixou de tocar para mim.
Suas mãos duas estrelas baixas.
E quando entra no meu quarto
abre o piano com a mesma coragem cega
de um Borges.
Jamais esteve surdo para o silêncio que vem das palavras.
Beethoven só não dorme comigo todos os dias
porque não quer.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.