Não somos personagens, ensaio de G.Monteiro

Ilustração de Tira Montrense


Nossa contemporaneidade pulula de poetas cultivadores de uma alienação erótica atraente à grande mídia. Essa realidade fabrica espectadores de deleite ingênuo e, comumente, solitário, melindroso. Nesse sentido, o objeto de desejo engendra versos comerciais dentro de noções de prazer através da beleza fadada a livros. Em contrapartida, fora dos “manuais poéticos de orientação”, das excitações fechadas em políticos e ideológicos capítulos, resta um vazio orgástico de quem precisa revisitar o “adorno das sensações”. É quando a poesia em si se torna unicamente cultura de consumo rápido em que “outros virão”.  Há, porém, que nos revermos na paisagem que se mantém enquanto não se atinge o objetivo. Para isso, o encanto em olhar a paisagem e sua riqueza de delícias distantes de alheias fantasias. Afinal, sem contar com poemas meramente contemplativos – de tensões biológicas a estímulos externos, há uma literatura sem domínio de corpos quando poetas propõem acessos e emancipações, e não imposições à libido.

Ulteriores e surpresos são os autores em que a dimensão erótica se consolida em fluidez tátil sem arquétipos em expressões do desejo. Há ética na simbiose entre hedonismo e vida real. Como resultado, vemos a recusa de fantasias reduzidas à mera apreciação estética. Esperamos portanto por coletâneas contrárias a estratégias exclusivamente verbais do amor. A investida está na interpretação da realidade social no que há de instintos da libido. Assim, isento de dominação e conformismo dos discursos eróticos, há os que assinalam um erotismo honesto e inevitável, tencionam a indiscriminada subjetividade do ser amoroso.

 Como dito, a sexualidade factual e ilimitada é a pulsão literária. As palavras driblam o voyeurismo virtual; a arte verbal se rende ao agridoce que constitui o jogo amoroso: os sonhos, as (de) ilusões, as realizações em nossas casas, em nossos quartos, em quartos nunca impostos. A vida é anterior a programações. A vida segue os versos, míticos ou não, e não os controlam, já que   a sensualidade nem sempre cabe em palavras, mas trama o encontro e de repente o ato amoroso. Vale o humano no homem e na mulher; eles com suas pulsões à Eros e à Thanatos, com seus corpos maquinando silêncios a enriquecer e a trair a própria poesia. Num universo de entusiasmos estrategicamente gratuitos, emergir se dá em não trazer soluções, nem assumir posturas negativas. Desta feita, a beleza se sobrepõe ao narcisismo, ao autoerotismo institucional. Volúvel, duradoura e altruísta, a beleza não conhece essências fora da condição humana, do que é possível ao humano. Em síntese, sem descompromisso com o componente linguístico, a felicidade não obrigatória.

Nessa perspectiva, o encanto se alicerçanas vulnerabilidades orgânicas do ser, no divino e no profano, na curiosidade cruel e sensível. O moto-contínuo segue o fluxo na arbitrariedade natural. Por isso, forja um universo de erotização diante das inclinações sensoriais. Importa acrescermos que, diante da “racionalidade de poder”, a promiscuidade e a perversão sexual, por exemplo, são associadas a classes desfavorecidas, a grupos reprováveis. Enquanto isso, os “moderados estatutos”, a ordem estabelecida anexam, via de regra, imagens virtuais e midiáticas a estratos dominantes da sociedade. Ressalvadas as proporções, os agrupamentos humanos vitorianamente exemplares. Por outro lado, isento de mecanismos opressores, o genuíno erotismo poético contemporâneofecha-se à socialização do sexo, aos “fetiches autoajuda”, sugere um curso livre da libido desconectada da sexualidade enquanto padrão de vida, enquanto sensualidade vigente.

O poeta pergunta e, sem respostas prontas, se aventura em versos que nascem do cotidiano chão onde brotam imagens, sensações do homem, e não do ator. Para além de preconceitos estruturais, podemos sentir e vivenciar o paradoxismo do amor nos versos passíveis de experiências singulares. Nesse percurso, as temáticas amorosas afeiçoam o contraste entre os sujeitos, a vulnerabilidade no plano do espectro sensual-humano. O expectável e o comezinho. A poesia erótica pode ousar o punho de linguagem não literal, não necessariamente pornográfica, egoísta porque meramente viril, genérica. Não sufoquemos o erotismo. Em consequência, nós leitores podemos explorar nossos próprios corpos, porque também não somos personagens.




G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2022. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), o de poesias Depois das horas (2021) e O exercício do nada (no prelo).

Respostas de 4

  1. PENSO com alguns teóricos do fenômeno literário que o ensaio não seria apenas a formulação de um texto racional ancorado em rigorosos dados factuais especulados, que dizer, estatístico-documentais, um texto escrito com grande peso de impessoalidade como que construído pela ausência da subjetividade, com um voz autoral e indefectível , texto no qual se apagaria quaisquer ranços subjetivos. Um texto , em geral, dependente, . em grande escala, das indefectíveis muletas autóctones ou, de preferência, alienígenas. enfim,. um texto álgido, insosso, sem a alma de um determinado autor. Eu me pergunto: seria esse o único caminho o ensaísmo moderno e transitivo? Claro que não Assim com existem textos em diversos gêneros, há a igualmente textos do mesmo gênero escrito de maneira diferente. ensaístico.
    O ensaio, sem tantas amarras estatístico-acadêmicas stricto sensu, pode muito bem conviver com o ensaio que alguns autores costumam nomear de “criativos. o que o aproximaria do que os ingleses chamam “essays.” Vejo o seu texto acima com um exemplo típico de ensaio, ou “essay,” na visão dos ingleses. Ao se voltar para discutir a questão do erotismo na poesia, que é o núcleo de seu ensaio, V. se coloca ao lado da poesia que possa produzir a partir da temática eróticas . eróticos , mas não malbaratados pela produção midiática que V. parece ter observado no domínio da poeticidade. Escrever poemas eróticos pode ser é válido, desde que não se perca o aspecto da linguagem literário-poética. Não pode haver poesia de boa qualidade quando ela ela serve apenas ao apelo servil indiscriminado dos desejos hedonistas da sociedade afluente e viciada em produtos falaciosamente considerados poéticos. ..

  2. Mais uma vez, admirável Cunha, acerta na sua elaboração de sentido ao que questiona e avalia. Não sou um crítico literário profissional como você, tanto pela pouca frequência de escrita quanto pela infinita inferioridade minha em relação a você e a outros que se disponhem a produzir textos verdadeiramente analíticos. E, pegando sua sensatez e ideias, quando escrevo o que chamo de ensaio, imagino um texto que, ao investigar, não se apropria tanto ou somente do pensamento de autores, nem estes autores precisam ser mencionados ( as citações podem ser em partes, senão todas, implícitas). Este não é o melhor “ensaio” que escrevi, mas já segue esta minha forma de conceber. Muito feliz fico pelo seu feedback em que aprendo sempre.

  3. Bem dito. A sugestão aguça sem explicitar e explícita subjetivamente. O poder de levar a percepções e (re)conhecimento é chama literária, aquilo de que o texto se encarrega e do qual o autor perde o domínio ao ser assenhorado pela interpretação do leitor.

    1. A sugestão sempre foi meu modo até mesmo em textos analíticos que tento escrever, como este “Não somos personagens”. Como seu comentário também poético. Obrigado pela leitura atenta, Nairton Pessoa!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *