
Imagem: Gustave Courbet. O mar agitado. 1870.
Há dois dias, nós dois a caminho: outro percurso de expectativa e ansiedade, desde que passamos o último pedágio do trecho de planalto e antes de propriamente iniciarmos a descida da serra. Agora habitantes temporários de outro espaço eterno, depois de passearmos um pouco pela orla, descíamos à praia e seguíamos descalços pela faixa molhada de areia enquanto anoitecia. Tinha sido uma tarde de tempo desagradável e úmido, os barcos amarrados balançavam no limite do mar cinzento. Ondas suaves e precisas. Podiam servir de relógio. Acompanhando nossos passos iguais. Ao longo da praia, uma barra movediça guiando nossos limites. Durante o dia anterior, por causa de uma chuva rápida mas de efeito residual, o mar parecia diluído, como se flutuasse pelo céu, sem linha de horizonte à vista, turvo e cor de oliva. As ondas se arrastavam baixas e pareciam não querer quebrar sobre si mesmas. Só perto das rochas limítrofes, um arranjo pesado fechando a praia, é que elas ainda rebentavam com força, mesmo assim com certo cansaço, deixando um rastro efervescente na volta. Fomos conhecer essas rochas no dia anterior: em uma delas, alcançando-nos com um charme específico, incrustava-se uma concha petrificada, contando do tempo.
Esse giro do planeta com seus mares se repete quase idêntico, mas cada dia, com sua espantosa singularidade, assim como mais este dia, que está definhando agora, nunca mais irá se repetir. Dá vertigem olhar para trás. Um peixe do Devoniano, meu ancestral. Cinco articulações nas guelras, cinco dedos em minha mão. E eu, com minhas preocupações. Não.
Na noite anterior fomos conhecer galerias de lojas, tomamos café por ali. A Marjorie admirou uns vestidos de verão e umas sandálias. Passeamos por um trecho onde se expunham telas de artistas locais – uma e outra marinha nas quais o mar se tornava gasoso e se diluía completamente no horizonte provocaram-me um breve arrepio de solidão. Depois, a avenida da praia até seu extremo, de onde ficamos observando umas traineiras manobrando e outras coisas meio escuras de mar. Mas o cais das balsas se mostrava cinza brilhante, por causa da chuva da tarde, e o cheiro da maresia penetrava todas as brechas possíveis do amplo ambiente que nos envolvia, aquela porção de mundo que me encantava de um jeito ou de outro, entre escuridões e pontos de luz. Apertei a mão dela enquanto caminhávamos, sem dizer nada sobre o que sentia. Tudo isso faz a gente pensar que ama.
Voltamos às coisas boas e às coisas entediantes da pousada. Eu escurecia de desânimo quando avistava, num recorte arquitetônico da recepção, aquelas estantes com livros antigos e partes de enciclopédias obsoletas que naturalmente ninguém pegava a ler. Acho que toda pousada ou colônia tem uma estante dessas, lembrando que tudo passa. Fina participação da maresia, fatores oxidantes: nada é mais parecido com o tempo. No dia seguinte, senti uma sutil alteração na personalidade do mar: parecia propenso a gerar ondas menos inocentes, num resmungo incessante. Mas esses dias terminavam, e o oceano entardecendo em oliva nos convidava a uma última visita, uma última vista, um último voo em terra. Ar fresco, de cheiros orgânicos.

Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” ( www.percepolegatto.com.br ) .
Uma resposta
Perce durante a leitura a identificação do leitor com alguns trechos é imensa! Sua escrita nos seduz e nos torna cativos ansiando por mais!