
Existem obras de arte que exprimem um estado existencial tão negativo, tão depressivo que, assumindo sem ironia a sua própria mediocridade, acabam por se tornar geniais.
Tornam-se geniais porque, em certos momentos, também sentimo-nos assim: como o Creep dos Radiohead ou como o Álvaro de Campos da Tabacaria. Somos, por dentro, um comité de vozes, e há sempre uma delas que acredita termos falhado absolutamente.
Há por isso criadores que não tentam silenciar essa voz nem redimi-la: limitam-se a escutá-la até ao fim.
Fila de trânsito em Lisboa, 03 de janeiro de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.