Vida de Cão: Lewis Medeiros Custódio

Ilustração: Tommy Ingberg


Mais uma manhã, mais uma ida para o trabalho. Com os punhos fortemente enterrados no casaco, sigo pela Rua da Sofia em direcção ao Palácio da Justiça, mergulhando cada vez mais no deprimente nevoeiro.

Não vou depressa nem devagar. Caminho de modo a evitar tocar na multidão de caras vazias que nada me importa. Todos os dias são pessoas diferentes, mas a mesma multidão apática. Há o cheiro a castanhas vindo do Largo de Sansão, prova inequívoca de que é realmente Inverno, caso alguma dúvida restasse.  A calçada parece o reflexo do céu — cinzento e sem vida. Não há uma única gota de alegria no ar.

Do nada, um latido interrompe o habitual barulho-mudo urbano. Páro imediatamente e olho em volta como um batedor. A uns quinze metros de mim vejo um cachorro. Parece-se mesmo com o meu. Apresso o passo por entre as gabardinas, mesmo sabendo que o meu Rocky morreu. O cachorro pára e olha para trás. Está a olhar-me directamente nos olhos, chamando-me.
 
Apresso ainda mais o passo, mas algo agarra a minha perna. Mas…que…raio! Uma criança agarrou-se à minha perna e olha para mim a rir com irritantes olhos azuis — que raio de coisa; abano a perna para ver se me larga. Não larga, arre! Sacudo com força, redobrando os meus esforços, até que, por fim, a mãe pega na criatura ao colo, olhando-me com um ar repreendedor. Ela que não o largasse da mão; agora vou ter de acelerar mais.
 
Olho em frente. Ele já não está lá. Parecia mesmo o Rocky. Se o raio da criança não me tivesse agarrado a perna… outro latido. Ali está ele! Não pode ser o Rocky, mas tenho de ir ter com ele. Agora já não é passo apressado, é corrida no limite da minha raquítica condição física, resultado de demasiados anos de tabaco.
 
Ele vira para dentro de um dos dúbios e antigos becos e pára, olhando-me, esperando-me. Aproximo-me, mas agora devagar. Aquele sinal no focinho… É ele! Não sei como, mas é ele! É o Rocky! Não me interessa como. As lágrimas vêm-me aos olhos e, pela primeira vez em longas semanas, um sorriso rasga-me o rosto. Abraço-o e ele lambe-me as lágrimas. O meu fiel companheiro! Ele salta do meu colo, corre à minha volta umas três vezes, cheio de alegria, e segue para a minha frente uns três metros.

Olha de novo para mim, ladra e vai para o parque de estacionamento no Terreiro da Erva. Eu anuo ao convite e sigo-o tão depressa quanto posso. Os carros são muitos… não o vejo. Para onde foi? Entro por entre os carros, direita, esquerda, esquerda, direita. Acho que já passei por este carro – ele tem de estar por aqui.
 
No chão está um velho com um cesto de esmolas e um saxofone na mão. Ao seu lado repousa um cartaz: «Quem eu fui e quem eu sou – uma esmola por favor». Pergunto ao velho se ele viu um cachorro passar, mas ele não responde. Ao invés, agarra-me a perna e começa a rir. De repente, a cara parece-me familiar — aqueles macilentos olhos azuis, aquele riso. Solto-me com um violento sacão e volto à esquerda para a próxima fila de carros: nada.

Corro até ao fim e lá está o velho de novo…como? Eu não andei à roda…pois não? Olho para trás e vejo exactamente a mesma fila que estava à minha frente. Olho por cima dos carros e as filas de veículos estacionados parecem incomensuráveis.
 
Tenho de sair daqui!
 
Começo a ofegar. Sinto um doloroso martelo batendo apressada e veementemente dentro do peito. Desesperado, olho por debaixo do carro ao meu lado, mas não vejo os outros carros. Levanto-me. Só há uma fila de carros. Onde? Como?
 
Um latido atrás de mim. É o Rocky à minha espera no beco de onde tínhamos saído. Corro com todas as minhas forças atrás dele e percorro o beco todo, voltando a sair na Rua da Sofia.
 
NÃO! — uma gigante árvore seca  rompeu do nada o passeio em direcção dos céus. O Rocky está enforcado nela! Por que ninguém pára? Por que ninguém olha? Mas ninguém vê? Párem! Começo a tentar alcançá-lo, mas não consigo. Ajudem-me! Por Favor! Mas ninguém me ajuda, ninguém o socorre; rodeiam-me apenas, olhando-me de alto a baixo. Ajudem-me! Tirem-no dali! Ajudem-me! 



Lewis Medeiros Custódio nasceu na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, além de ser judoca e guitarrista. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King.

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