4 poemas de “Eles andavam como árvores” de Rodrigo Madeira

Ilustração: Tahfeen Rizwan


Belém

As moscas voejavam ferozes
ao redor da fedentina.

José, finalmente, foi buscar
o incenso.

E Maria – ah, Maria! – 
sorriu pacificamente e abluiu

as pernocas gorduchinhas
de seu menino.


Betsaida

Eu vejo homens andando
como árvores.

Quem tem ouvidos que
veja, quem tem dois olhos
que ouça.

Vejo árvores nadando
como peixes,
vejo homens andando
como árvores.

Jesus era um homem muito
feio. Tinha um nariz adunco e
gigantesco. Seu cabelo era embaraçado 
como os pelos pubianos.

Quando pregava, ele cuspia
nas pessoas da frente.

Se você não empurrasse seu irmão,
pra chegar mais perto do homem, 
não se ouvia nada
do que estava pregando.

Ele me ama, ele te ama.

Há cerca de dois (mil) anos, desisti 
de não entregar 
minha vida nas mãos 
desse homem belíssimo.


Genesaré

[finzinho de mundo, a uma horinha
de Haifa]
                    
Monte Carmelo, ó Monte Carmelo,
o Evangelho segundo
um vira-lata caramelo.

É só isso, Senhor, que vos peço.
O Paraíso canino 
é a eterna mão humana.

Não sei orar, Deus, não sei rezar, Jesus,
mas sei amar, amar como 
se todas as coisas – mesmo
o carinho e o ódio, a entrega e o medo 
– se tocassem sagradas aqui dentro,
no interior ambíguo de minha
oração e suas palavras.

Eu corro e amo, me coço e amo, eu como
e amo, eu trepo e amo, eu sonho e amo,
eu amo e amo e amo e amo.

Em verdade vos digo: os cães 
são mais humanos do que o homem.
(Mas o homem, é claro, é 
muito mais cachorro…)
Já as pombas de igrejas, 
empertigadas e arrulhadoras,
imaginando-se a imagem 
do próprio Espírito Santo,
essas, cruz credo, são mais farisaicas 
que os juízes sentados do Sinédrio.

Havia um cachorrinho caramelo 
que, espezinhado, apanhava à beça 
pelas ruas do meu bairro.
Tinha uns trinta e três aninhos, um focinho 
meigo e molhado e levava porrada 
(cuspes, pontapés, pedradas)
dos doutores da lei, dos
homens de bem desta cidade.
Seu nome era Yeshua, e ele
tinha fome e sede,
tinha sono, desejo, 
mas amava 70 x 7, a 30, a 60 por 1, 
como absolutamente nenhum 
desses lamentáveis genesarenos.

Yeshua, Yeshua, [som de assobio]
ô Yeshua, vem cá, meu
bichinho lindo!

Jesus não era um pombo adventício.
Não era o leão implacável de Judá.
Tampouco o cordeiro de Deus,
imolado para lavar 
os pecados do mundo
(ou seja, sujar-nos 
com seu sangue de vinhos
baratos, de mirra e de nardo,
de azeites e groselhas).

Descendo a rua pela enésima 
vez, Jesus era 
um doce e dócil e algo
absurdo vira-latinha caramelo:
ele dormia enovelado nas almas exaustas,
ele latia e gania e abanava a cauda,
ele lambia, sem nojo, num gesto 
maluco e inteiramente desmesurado,
os pés imundos de Deus, a mão 
imunda da humanidade.


Sermãozinho do Largo

Você conhece Jesus?
Não o dos Evangelhos, repletos
de fariseus, saduceus e romanizados.
Um Jesus de toda parte, o nazareno 
de toda parte, filho de carpinteiro 
e pedreiros e carrinheiros e 
guardadores de carros.

Cê tá ligado?

Aquele que dorme na laje,
entre outros dormindo na laje 
(ou seja, com o perdão 
da palavra, uns fodidos),
na Rui Barbosa e na Rua XV,
nas cadeias e educandários,
nos mocós e nas quebradas,
nas marquises e buraqueiras
de toda e qualquer cidade.

Eloi, Eloi, lama sabactâni!

Aqui,
no Getsêmani,
um Jesus super manjado. Massageado,
eu diria, há cerca de dois mil anos, pela
Guarda Municipal de Curitiba.

Você conhece o homem, conhece o cara? 
O que fala aramaico e guarani e koiné e
latim e que de repente fuma um crack.
O que surta pelas ruas enquanto
lavamos as mãos feito Pôncios Pilatos.
E dorme o dia todo sobre um pedaço 
de papelão, estopa, saco plástico.
Que não entrou na catedral porque 
estava bêbado e drogado, 
fedendo, sangrando, mijado, 
mas que dorme fora das igrejas, 
ao lado de seus discípulos, ao lado 
de outros em total desabrigo,
todas as noites em
todas as cidades.
Porque “as raposas têm tocas,
e as aves do céu, ninhos;
mas o Filho do Homem não tem onde
reclinar sua cabeça.”

Sabe esse cara? Nosso Jejê, Jesusinho,
Jesuílson, Jesualdo, nunca duvide, ele 
te ama de verdade.

É ele que te espera, meu amigo,
doce e louco, ancestral mas novíssimo,
em Cristo, com Cristo, sem Cristo,
é ele que te espera, meu amigo,
cheio de amor (o único milagre de fato possível),
do outro lado de tua vida.



Rodrigo Madeira nasceu em 1979 em Foz do Iguaçu (PR). Autor, entre outros, de Pássaro ruim (Medusa, 2009), Baldio (Ateliê Editorial, 2018) e Num único dia (Primata, 2024).

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