A primeira história mágica interrompida, conto de Perce Polegatto

  Imagem: Bernhard Oberdieck. A princesa perdida. 1864.




A primeira vez que me lembro de ter ouvido uma história deu-se, magicamente, em uma noite de chuva, e eu não estava em casa. Ao redor da cama, fazíamos um aglomerado de crianças curiosas enquanto uma mulher pegava a ler a impressionante história de Rapunzel, que lhe chegava às mãos por meio de um livreto infantil maravilhosamente ilustrado. Ia adiantada a festinha, e o aniversariante, um menino do quarteirão, participava tanto quanto nós daquele círculo de ouvintes, quase como se não fosse seu o presente. Éramos muito pequenos, e ele tinha razão: o que nasce das páginas de um universo assim não nos pertence senão a todos. Não estou seguro sobre que idade eu tinha. Porém, vejo, como se neste instante, os olhos atentos de meninos e meninas à minha volta, acomodados como podiam, em parte sobre a cama, em parte sobre um tapete, em banquinhos improvisados, e isso era o que menos importava. Minha memória apresenta brechas em alguns pontos, como a dúvida, já assumida, sobre o nome desse coleguinha da vizinhança, que me volta hoje com duas ou três variantes. E também ouço, quando quero, a voz dessa mulher contando o que lia: sem exageros, sem afetação, apenas serena e fazendo-se entender, na exata medida para que todos nós ali quedássemos encantados. Eu não saberia sequer voltar àquela casa, não tenho certeza de qual era – os bairros pobres têm fachadas muito parecidas. Mas não consigo esquecer o momento em que minha mãe, tanto quanto os pais de algumas outras crianças, entrou no quarto para levar-me dali, pois a chuva havia passado, e era tarde para que ainda nos demorássemos. Só em outra fase, conheci o fim da história. E antes não o soubesse, que a duração daquele enigma era outro motivo de eu estar vivo.
 
Fatalmente, são hoje tais recordações o que me constrange, o que me põe a lamentar algo que tenha perdido, sem tê-lo suspeitado senão quando tarde demais, o que surdamente ainda oprime e impede o seguir viagem. O que escrevo não pretende ser convertido na moeda dos que apenas negociam – isso podem fazer os escribas bem-sucedidos, como Cassiano C. Castilho, e os editores passam muito bem sem mim. Isso que relato não precisa correr mundo. Não precisa levar a público a minha imagem nem mesmo despertar qualquer curiosidade sobre minha vida pessoal – afinal de contas, imagem e vida de um homem tão comum. Mas é ainda, misteriosamente, uma das fortes razões de eu seguir apaixonado pela vida. Afinal, por mais absurda que seja nossa existência, quando encontramos uma boa história, queremos muito saber não apenas como ela termina, mas como ela continua.
 


 

Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” ( www.percepolegatto.com.br ) .

Uma resposta

  1. A prosa perceana é bem nivelada de ponta a ponta. Seu projeto literário não costuma oscilar; as felizes ousadias e alcances estão dentro daquilo que Borges expressou : “estamos sempre escrevendo o mesmo livro”. Prosa poética com o mérito de canonização. O que não faz o autor se furtar a vaidades nem a ambições. Parodiando uma certa canção, enquanto a vida passa na tv, o negócio de Perce é com a literatura. Assim ele não a sufoca, e escreve simplesmente porque sente necessidade de escrever. Percebo esse feito ao apreciar espontaneidade e certa autonomia a respeito de suas influências ( seus autores não são muletas, não lhe trazem alheamento de si mesmo) . Bom sinal é não raramente confundirmos autor e obra. Como aquela luz que baixa e confunde. Evoé!

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