Coluna Depois das horas: A madame mocinha, conto de G. Monteiro



  Crédito: Salvador Dalí (1904–1989) Portrait de Madame Ducas 1935



Com uma sacola escondendo o avental e a roupa surrada da última faxina, pôs-se a fixar o nada. Mas o coletivo afinal chegou. Dentro do vago espanto, a pouca estatura se enfrentou na multidão, deixando-a distraída do sobressalto. Acreditava agora que, caso houvesse atraso, seria um atraso pontual. Entre um empurrão e o momento de não ser empurrada, a mulher examinou o motorista, como se fosse negado a ela um direito. Ali dentro, em secreto, estava cheia de direitos e a defesa, não reivindicá-los. Ei-la na sua reserva: o ar obstinado de conduzir-se costumeira, livre na sua contenção.

A canseira se confundia com uma leve tristeza até conservá-la. Com o olhar investigativo e imediato, havia o motorista e a bravura da mulher, embora faltasse verdadeiramente a  mulher. Alguns passos triunfantes e ela ressurgia na roleta. Parecia ser julgada, e a inocência não a livrava de sofrer a acusação. Conferia o dinheiro antes do cobrador. Contar as moedas prendia mais que entregá-las.

— O troco, moça — acudia o rapaz suspenso na paisagem rápida da janela.

A jovem pronunciava um agradecimento diário. Fingia não perceber o cobrador nunca ouvir sua voz. Balbuciava um obrigado completado na imaginação, e o moço já não havia. A distância aos poucos reinaugurava o contentamento do regresso. Em casa, ela se abrigava em algum canto da alma, ganhava confiança ao não estar mais séria. O regresso se resumia à entrega do coração. A fim de aceitar bem os acontecimentos, acostumava-se com os instantes. Se lhe dissessem palavras sem entusiasmo ou além de seu entendimento, consentia e eis sua independência. Os olhos rebrilhavam na falta de curiosidade. Caso algo faltasse a seus pequenos hábitos caseiros, lucrava ainda mais individualidade: Em casa, sua liberdade estava em nada exigir nem ofertar. Aprendera a assumir o “estado de casa”, e o aprendizado era de uma mulher autodidata por não precisar do mundo dos outros.

Os dias calmos se davam sem alegria nem dor. A morna sobrevivência a resumia a uma luta calada. Aprendera dos pais a sujeição e a vida de trabalho; com o corpo delgado e entanguido, sabia esperar a vez de valer-se dos ensinamentos de berço destinados às prendas da cidade. Caso mentisse com o intuito de proteger-se das escassezes, não via pecado e então ganhava certo orgulho ao conseguir fugir de situações embaraçosas. Desde a infância, aprendera a esconder as fantasias do espírito, se não estivessem de acordo com as perspectivas dos pais. Afinal, já adulta, mesmo em cidade grande e largada da família, as incompreensões a faziam confiar no passado. Assim se comprimia dentro de um ônibus, o coração, com dor ou não, desprezava a falta de correspondência com o que aprendera.

Começou a imaginar-se uma abastada perdida por entre as sombras dos edifícios. Um dia, alguém iria pô-la num carro, beijar-lhe a testa e levá-la até um prédio, onde ela se assenhorearia de tudo e, sem nenhuma maldade, seria a “patroa.” Enrodilhada de nobres panos, recordaria — com bondade meditativa — um dia, eriçada e com as grossas mãos, a procura pelo avental na última escuridão da noite, a gente anônima do interior, as despedidas dos irmãos rumo aos cortes de cana, os pais na lavoura e o vagar misterioso das amigas chamando a tudo de juventude, para acolher bem as próprias incompreensões. Iria até a lareira com um copo de vinho. Habituada, sem precisar mais da bondade desnecessária nos tempos de transporte público, tomaria o vinho em goles grandes, sem pressa, planejaria visitar a terra natal. Já sem necessidade de fantasiar, conferiria na sua gente, junta da porta, esperança na imagem consoladora da nova mulher . A emergente seria chamada de doutora, mas mostrar-se-ia forte: a seu acesso ninguém se esbarraria em vaidade, em aflição do espírito…

Passado o instante de esplendor, já não sabia mais o que fazer consigo. Em verdade, nunca soubera; aprendera a lidar com suas estranhezas, a fim de aceitá-las fria e diligentemente. Se tivesse a palavra e não apenas a vida, diria decisiva: “Meu medo não é falta de fé. Ele faz parte de minhas mais misteriosas certezas.”

Finalmente encarou a porta de saída do ônibus. O próximo passo ressurgia em grande surpresa diária. A chegada era sempre — feliz ou infeliz — de “peito aberto.” Nesse momento, os punhos fechados, leves de vaidade, seu espanto livre, sua expressão protegida por não haver mais vigília. Transpôs os degraus da porta de saída num suspiro de risco favorável. Arrastava o corpo numa intimidade cega, sem romantismo. Na primeira rua, na segunda e em outras tantas seguia, e a intuição fazia de sua pouca inteligência a preparação para a vida. A ordem e a superioridade humana ela atenuava com uma força que não havia propriamente, mas iludia a feminilidade. Ao avançar, a natureza surgia tão enorme que não dava para vê-la. Repentina e profetizada, pôs-se a caminho, acostumada e inconsequente, e então as ruas no lugar de endereços.

— Sou uma tola,… uma doida eu… , distraía-se festiva e ofegante.

O olhar de alívio dava ao rosto um gesto mais claro; a mocinha avançava ao encontro do bairro, onde morava com os tios. Uma parte do dinheiro das diárias amenizava as despesas com ela. Havia uma avenida além do alcance da vista e o além batia no peito da moça. Ela se guiava com fácil profundeza longe da memória.
 




G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2022. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), o de poesias Depois das horas (2021) e O exercício do nada (no prelo).

Respostas de 2

  1. Com olhos sob os acontecimentos, o leitor se percebe oráculo de um cotidiano desnudado embora a voz na cabeça de quem lê e as imagens que colorem a leitura estejam além de seu domínio. O leitor percebe, então, que esteve ao lado da personagem e ouvia seus pensamentos como, ainda, ouvia uma voz que lhe trazia às doces inquietações por trás daquele acontecimento.

  2. Nairton, fico feliz com suas impressões, com o envolvimento com a linguagem literária. A literatura é mesmo parideira (riso). Minha personagem deste conto, por exemplo, me veio como um abraço que o Monteiro (personagem de outro conto meu) não me deu. Veja, eu também vivendo os labirintos das metáforas. Para o bem e/ou para o mal, eu me estilhaço e cada pedaço é novo espelho.

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