As aves marinhas sempre sabem quando devem partir, conto de Perce Polegatto

   Imagem: Claude Monet. Marinha (Pourville). Sem data.




Muro baixo, de pedras claras, servindo de proteção, a meio caminho do topo da montanha, frente ao oceano. Som de aves marinhas. Encostas de uma elevação verde, de arbustos, algumas árvores e forragens. Para chegar até ali, uma estradinha de areia dura. Encontro-me junto a essa mureta pela cintura, ante o espaço aberto de céu e mar, no intervalo desse declive que lá embaixo se torna, gradualmente, a praia. A claridade estreita meus olhos. Som intermitente de aves marinhas. Vento em meus cabelos, em meu rosto, mas não muito agradável. Apenas não é muito agradável. Não compreendo por quê.

Então surge, bem perto de mim e sem que eu a tenha visto chegar, uma jovem que conheci há algum tempo, entre caprichos e arranjos do que chamamos acaso. Som distante e próximo de aves marinhas. Cabelos negros e lisos, pouco agitados pelo vento, esse mesmo vento que me parece tão forte e desconfortável.
 
“Você se lembra de mim?”, ela inclina um pouco a cabeça, procurando meu rosto, que continua voltado para o mar.
 
“Claro. Eu me lembro.”
 
“De meu nome?”
 
“Claro que sim. Por que está dizendo isso?”
 
Tento ser agradável, quase lhe sorrio. Mas não consigo sorrir. Som quase constante de aves marinhas, um som antigo e intermitente. Meu rosto continua voltado para o horizonte do mar. Penso estar sorrindo, assim mesmo. Mas não estou. Espero que ela me compreenda. Que me perdoe. Não gosto de ser desagradável.
 
“Obrigada por ter vindo”, ela diz, tranquila.
 
Isso me soa estranho. Estranho porque foi ela quem veio. No instante seguinte, percebo que estamos ali porque combinamos um encontro. Sim, é isso. E eu fui. Eu vim. Isso explica que ela agradeça por eu ter vindo. Certamente temos uma memória forte um do outro. Por tudo, tão breve e tão intenso, que vivemos juntos. Som de aves marinhas. Apenas tenho a sensação incômoda de que minha ingenuidade nunca passa.
 
“Mas você não disse mais nada”, declaro em tom interrogativo, confuso. “Por que queria que eu viesse?”
 
Ela toca suavemente meu antebraço com os dedos. Um mínimo contato, mas sempre significativo vindo dela. Seguimos por essa trilha de areia, margeando a mureta e os arbustos logo acima. Faço o possível para não tocar nela.
 
“Você ainda está lá, na faculdade?”
 
“Fui demitido no ano seguinte, quer dizer, seguinte ao ano em que nos conhecemos.”
“Que pena. Você era um professor muito querido.”
 
“Isso não importa muito para eles. E não importa nada agora. Você ia me dizer alguma coisa…”
Ela estreita os olhos contra a luz, move com um gesto simples a mecha de cabelos que o vento lhe devolve à frente do rosto periodicamente.
 
“Sim. Que nesse tempo todo, não sei como, tenho pensado muito em você. Não sei por quê. Não sei como. Não tento explicar isso a mim mesma.”
 
Isso me surpreende, porque, nesse tempo todo, também pensei muito nela. E também não sei explicar isso a mim mesmo. Seguimos com calma, quase nos tocando lateralmente. As aves marinhas, passeando no céu sobre nossas cabeças, desaparecendo e retornando, inspiram-me alguma inocência natural, permanente.
 
“Queria que você soubesse que eu não costumo ter casos com meus professores. Nunca havia acontecido antes. Com ninguém. Você acredita em mim?”
 
“Acredito. Mas não faz diferença se tivesse, não tenho nenhum direito sobre você.”
 
Ela sorri de minha falta de jeito.
 
“Claro que não, eu sei. Mas acho que faz diferença sim. Você foi especial para mim. Ainda é. Você compreende que, quando duas pessoas se tornam especiais, elas se tornam únicas, e ficam acima de todas as outras?”
 
“Como é?”
 
“Quando uma pessoa é especial para a outra, quando duas pessoas são assim, uma para a outra, todas as outras pessoas caem para um plano inferior em relação a elas. Até meu filho pequeno, compreende? Tudo fica em segundo plano. São coisas diferentes. Nesses anos todos, eu sempre voltava a pensar em você. Sonhava com você.”
 
“Também sonhei com você”, confesso relutante, influenciado por suas palavras.
 
Som de aves marinhas. Elas desenham círculos, depois seguem em linha reta para algum outro espaço, fora de nosso campo de visão.
 
“Somos humanos”, ela diz, sem muita convicção. “Acontece. Aconteceu com a gente. Você não diz nada, e isso me diz muito. Mas não precisa se preocupar. Foi bom ver você, ouvir sua voz. Não precisamos estender isso, não é? As coisas já estão claras para mim. Não estão para você?”
 
Não sei o que dizer. Não digo nada. Ela percebe minha insegurança, meu silêncio.
“Precisamos nos despedir”, ela conclui.
 
O vento cresce e volta a ser leve, agitando nossos cabelos.
 
“Queria que você soubesse do que estou fazendo”, ela ainda, antes que eu responda.
“Como? Seu trabalho?”
 
“Não. Na minha rotina, nos meus dias, eu queria que você visse o que estou fazendo. Queria ouvir sua voz. Queria saber o que pensa de uma coisa e outra. Penso em você dia e noite. Não sei o que aconteceu. Isso cresceu sem você saber. Eu não deveria ter vindo. Melhor que você nem soubesse.”
 
“Não pense assim. Foi bom você ter vindo. Claro que sim.”
 
“Vou guardar por toda a vida o que vivi magicamente com você.”
Estamos sozinhos em meio à estradinha de areia. A amplidão que inspiram o céu e o mar àquela altura da encosta contrasta com a margem quase escurecida da mata espessa que se ergue ao nosso lado.
 
“Precisamos nos despedir”, ela repete.
 
Observo que, nesse tempo recente de nossa conversa, quase não nos olhamos nos olhos. Ela se põe um passo à minha frente, de costas para mim, pega minhas mãos.
 
“Me abrace assim. Como você gostava de fazer.”
 
Seu corpo esguio se cola ao meu. Sinto o tecido leve de sua blusa. Sinto seus seios. Sua respiração. Som de aves marinhas.
 
 
 


Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” ( www.percepolegatto.com.br ) .

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