
Sempre que posso, venho embuscar-me num estacionamento junto à estrada. Escrevo dentro do carro. O sol espreita por detrás do monte e reajusta a minha bússola interior. Refaço na alma os pontos cardeais.
O monte está igual há décadas — é a fotografia dos avós pousada numa cómoda ao sábado à tarde. A nostalgia da natureza invade-me: ferida que não sara.
Preciso do campo mais do que nunca. O inverno ensaia a sua dança entre o frio e o sol — como nenhuma estação sabe fazê-lo. A pele oscila entre o arrepio e o raro calor de uma manhã iluminada.
As ervas, as canas, os arbustos silvestres — tudo aqui ainda mexe. Jóias que subsistem apesar do nosso desejo de conquistar, controlar, pôr a render.
Atrás de mim, carros passam. Ninguém parece perguntar pelo sentido da vida; seguem com a vontade animal da sobrevivência. Pode ser que seja melhor assim, aceitar sem questionar, como dizem os pseudoestóicos. Não sei. Talvez fosse melhor lutar — ainda que parando.
Amadora, 31 de janeiro de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.
Uma resposta
Uma rica reflexão sobre o o ser e o estar num mundo imperialista, indiferente, mas possível de perícopes enquanto a maquina do mundo (lembrando aqui Drummond) acontece com força, sucesso, sustentáculos sempre seguros e encaminhados. Somos a natureza que ainda sempre resta nesta “Bússola”.