Coluna Eneas Barros: Mamãe coragem (crônica)

  Ilustração: Aquarela de Torquato Neto, feita por IA

 

Em julho de 1968, a gravadora Philips Records lançava o disco “Tropicália ou Panis et circenses”, com 12 músicas que dariam vida ao tropicalismo. Uma dessas músicas, na verdade a quarta do Lado B, é “Mamãe, coragem”, com versos de Torquato Neto e melodia de Caetano Veloso. Um trecho diz:
 
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Leia Elzira, a morta virgem
O Grande Industrial.
 
Minha curiosidade despertou, para descobrir sobre esses romances que Torquato Neto indicava a Maria Salomé, sua mãe.

“Elzira, a morta virgem” é de autoria do carioca Pedro Ribeiro Vianna, e conta a história de uma menina de família rica, tísica, privada de viver o seu amor por Amâncio e obrigada a se casar com dr. Siqueira, um homem de grandes posses. Moradora do bairro Botafogo, ela preferiu a morte a ter que se entregar a um homem que não amava. Era um romance popular, que atingia em cheio a ansiedade social, por desafiar os seus modos paternalistas e alertar para que os filhos tivessem a oportunidade das próprias escolhas. Publicado em 1883, o sucesso do livro foi imediato. Vendeu milhares de exemplares, com reedições que perduraram até 1924.

O outro livro, também indicado por Torquato à mãe, foi “O grande industrial”. É um romance histórico, do final do século XIX, de autoria do romancista francês Jorge Ohnet. Segundo resenhas escritas, o livro conta a história de Clara, de apenas 22 anos, que tinha a vida toda planejada, mas de um dia para o outro descobre que o seu amor prometido tem outros interesses. Retrata a vida de uma mulher condenada ao seu próprio destino, mas que enfrenta as más decisões tomadas em função das aparências.

Confesso que não faço ideia da razão que levou Torquato Neto a essas indicações, mas já foram publicadas algumas biografias sobre ele, que talvez possam explicar, como: “Pra mim, chega: a biografia de Torquato Neto”, de Toninho Vaz; e “Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida”, de Kenard Kruel. Torquato se suicidou em 10 de novembro de 1972, em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Trancou-se no banheiro e abriu o gás.






Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

Respostas de 3

  1. Eu, que não li nenhuma destas duas obras, arrisco que, de acordo com o resgate de Eneas sobre esses títulos citados por Torquato Neto, arrisco que a voz do poema-canção reclama por uma liberdade não só além de vida organizada por instituições, no caso a família. Mas também uma própria prisão dos acasos, das imprevisibilidades que erguem desalinhada esta liberdade de dentro para dentro. Uma prisão de ser o que se é. Sim, uma prisão de não querer prisões. É quando escolher não supõe um claro planejamento, uma certeza à frente do que se quer. A mãe que pode chorar se repete em demasia nos versos e então podemos imaginar: como fugir inteiramente de dependências afetivas, de fragilidades disfarçadas de autossuficiência? A síndrome do ninho vazio da mãe (a fonte negada e penosa) e a necessidade de se falar em escolha própria podem soar como uma cumplicidade de que ninguém escapa diante da carência humana. Mesmo esta deliberação de “Mamãe coragem”, o arriscar-se pular no escuro. Quem mais poderia ler Elzira, a morta virgem e O Grande Industrial? Uma nova versão de filho pródigo continua ao lado da amorosa insegurança da família. O breve Torquato Neto, autor e obra, não teve medo de ter medo: sua dor estava mais livre para doer. É coragem, mas é também dor.

  2. Quando o Viriato Campelo chamou atenção para a questão, rapidamente respondi assim: Até hoje desconhceço qualquer situação ou circunstância que explique de alguma maneira a proposição do poeta. Ao mesmo tempo, desconheço quem quis enveredar por este caminho. O Enéas é o primeiro.
    O que se sabe é que Torquato fez o poema, chamou atenção para isso , como uma forma de homenagem à mãe, Salomé. Esta não quis saber e detestou a canção porque entendeu que ele estava dando bananas para ela, a família e o Piauí.
    Difícil avaliar a intenção correta do Torquato. Até porque ele não se deu ao trabalho de explicar intenções por traz da leitura literal expressa no texto.
    Acho que ele expressou a partir da sua situação ( particular) algo muito maior: o mito da mãe suserana, que sufocava o filho. Este é o caminho de entendimento de pessoas como Waly Salomão que dizia que Salomé metia medo em Torquato.
    Em resumo, penso que ninguém saberá ao certo. Começa pelo emprego da virgula: Mamãe, coragem. Não é como muitos querem fazer crer, que Salomé era a Mamãe Coragem.
    Outra: conheço de cor e salteado os dois livros citados pelo Enéas. O do Kennard é uma reunião de fatos compilados sem maiores objetivos. O do Sr. Vaz é um texto, mal apurado e apenas interpretado pelo jornalista. Uma fraude.Sem importância.Capaz de situar Torquato Neto como um esquizofrênico por ouvir dizer.

  3. Não conhecia os escritores, nem as obras. Curiosa, essa forma de interface entre música e a literatura. Tenho um amigo, o escritor português Alexandre Andrade, que “coleciona” músicas que falam de livros. Vou partilhar com ele, esta crónica.

    Bem hajam,

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