Sobre a crueldade – Marcelo Tápia


Vou me permitir uma digressão do campo em que esta coluna se situa – a comunicação poética e, de modo geral, a linguagem artística –, movido pela circunstância de um acontecimento que me parece digno de nota, dada sua avassaladora repercussão em nossa sociedade: o cruel espancamento do cachorro Orelha.

Eu mesmo, antes ainda de o fato ganhar a dimensão que tomou, senti a necessidade de me expressar pela via que me tem sido recorrente ao longo da vida – a poesia –, escrevendo um poema que publiquei no Facebook: busquei pelo caminho estético um registro de algum alcance, mesmo pequeno, que até mereceu um comentário generoso do poeta Julio Mendonça: “bonito poema extraído de tanta sordidez”. Pretendo reproduzir esse poema ao final deste texto, caro/a leitor/a, mas antes farei novo exercício a partir de um dos célebres Ensaios do filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592), intitulado “Da crueldade”.

Diante do episódio do cãozinho, veio-me a já longínqua memória do volume dedicado a Montaigne na coleção Os Pensadores, da Abril Cultural (1972), com tradução de Sérgio Milliet, lido em minha juventude. Voltei a ele e lá reencontrei o tal ensaio e sua eterna pertinência, que novamente me instiga; por isso, tratarei dele aqui, ainda que sucintamente.

O autor começa seu texto com o tema da virtude, procurando distingui-la das “inclinações para a bondade, que nascem em nós”: a virtude teria “não sei que de maior, mais ativo, do que deixar-se, sob a influência de uma feliz compleição, serenamente conduzir pela razão”. Uma bela ação cometida, sem esforço, por “doçura e inclinação natural” de alguém que pode “esquecer as ofensas recebidas”, seria louvável ato de bondade, mas não virtude: esta pressuporia dificuldade e oposição, não podendo existir sem luta “contra um terrível desejo de vingança”. Isso certamente nos diz muito como pensamento (embora vivamos num mundo em que pouco se considera ou pratica a noção de virtude) e, mesmo, quando a ideia se aplica ao cotidiano, ao circunstancial: no caso de algo que nos revolta, quantos manifestam sua inclinação por compreensão bondosa, quantos lutam por manter a razão ou senso de justiça diante do fato, e quantos cedem ao impulso de violência (física ou moral) por vontade de vingança? À parte essa reflexão, prossigamos.

Para Montaigne, se a virtude precisa de “lutas contra as paixões contrárias” para existir, ela não poderá prescindir “da colaboração do vício”, que a ela se antagoniza. E a partir deste ponto, leitor/a, da alusão ao vício, ousarei tomar frases do ensaio de Montaigne – em que ele também fala de si mesmo – como fonte para possíveis versos que, com ampla liberdade de alteração, as arranjem para além da prosa, como um exercício de síntese que possa pedir, quem sabe, memorização e repetição:

CRUELDADE
 
Entre os vícios, um há que mais detesto:
a crueldade, de todos o pior.
Cheguei mesmo a uma fraqueza como esta:
não posso nem ver matarem um frango
ou caçarem a lebre, sem um pranto.
 
As misérias alheias me entristecem,
comovo-me demais ao ver quem chora;
as torturas são o que mais me fere.
Mal podia conceber, sem o ver,
que haja os que matam só pelo prazer
 
de matar, os que inventam mais tormentos
sem que os motive o ódio ou a cobiça,
só para ouvirem gemidos, lamentos,
verem gestos, contorções de agonia:
grau maior que a crueldade atingiria.
 
Os que são sanguinários com os bichos
revelam sua índole cruel;
ver matar um animal não consigo
– ser sem defesa, nada a se recear –
sem pensar no abismo que nos separa.
 
Abdico da imaginária realeza
do homem, hei de ser menos presunçoso;
se ao ser humano justiça se deva,
a tudo o mais com vida e sentimento
devamos cuidado e benevolência.

E, para terminar, o breve poema a que me referi antes:
 
 
AO CÃO MORTO A PAULADAS
 
Teu corpo pequeno e frágil,
pobre cãozinho do mundo,
jamais poderá livrar-nos
de tanto pecado e ódio,
 
mas é em ti que recai
a ânsia de crueldade
criada em tanta soberba,
extremo reverso humano
 
de tua docilidade
humilde, teu uivo em vão,
tua dor sem ter por quê.
 
(26/01/2026)

 

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.

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