
Imagem: Amedeo Modigliani. Almaisa. 1917.
“Você vai escrever sobre nós?”
Homens e mulheres, meus colegas de escritório. Todos à minha frente, mais ou menos juntos. Mais ou menos quietos. Mais ou menos tristes.
“O quê? Escrever sobre vocês? Por que faria isso?”
“Pela eternidade.”
“Para nos eternizar.”
“Que bobos. Para que serve a eternidade? E daí, se formos todos esquecidos? Vivam as suas vidas, enquanto podem. Eu vou vivendo a minha, como posso.”
“Não fale assim”, adverte nosso supervisor. “Não fale assim, pense um pouco. Escreva algo sobre nós, deixe um sinal, um relevo. Uma mancha, que seja. Será mesmo que tudo isto aqui vai desaparecer? Que todos nós…?”
“Depois de tudo que fizemos?”, acrescenta o aprendiz, com menor tempo de casa.
“Faça isso por mim”, pede a mais elegante de minhas colegas, dando um passo à frente.
“E por quê? Por que eu faria isso por você? O que você ganha com isso?”
“Para que eu não morra.”
Fico olhando para ela. Por um tempo.
“Que bobagem. Para que não morra? Não se importe com isso. Eu também vou morrer. Não se importe de morrer.”
“Acha que não vale a pena escrever sobre mim? Não valeu a pena eu ter sido tão bela? Eu ter-me feito tão bela? Eu ter, ao menos, acreditado nisso?”
“Se valeu a pena? Talvez sim – enquanto valeu a pena, eu acho. Mas a sua beleza tem que passar. Porque todas as outras passaram.”
“E sobre mim?”, o mais velho entre nós, erguendo um dedo, como um aluno discreto que pede licença para participar. “Lembra do que eu lhe contei sobre tudo o que passei, lembra? Sobre todo o meu sofrimento? Lembra? E então? Não vale uma linha da sua escrita?”
Movo a cabeça em negativa, com os olhos fechados, quase sorrindo, como se com isso lhe passasse a ideia de que aquilo seria inútil, de que não teria propósito algum escrever sobre os sofrimentos dele, ou sobre os sofrimentos de outros, quaisquer que fossem.
“A minha escrita é que não vale o seu sofrimento. A minha escrita não serve para nada, além de ser a minha escrita. Somos todos muito exagerados, não vê? Não temos essa importância toda. É tudo muito rápido.”
“Lembra do que eu passei e do que eu sofri? Vai deixar que tudo isso seja esquecido? Todo esse sofrimento não merece um fio de história? Acha que tudo isso deve passar também?”
“É claro. Sim. Deve passar.”
Um colega de minha idade:
“Somos como irmãos. Vivemos um mesmo tempo. Vamos apodrecer ao mesmo tempo. Canções e imagens, o nosso país, nossa mesma língua. Escreva sobre mim. Diga que eu lhe disse isso.”
Penso um pouco. Enquanto reflito, todo gesto parece suspenso. Tudo ao redor parece quedar paralisado.
“Não, não vou escrever sobre nenhum de vocês. Só sei contar coisas sobre mim. Sou limitado. Sou preguiçoso. Não me interesso por muito mais do que isso. Não espero que me compreendam. Não me importo se me compreendem.”
Um de meus desafetos toma a frente, indicador em minha direção.
“Você vai pagar por isso!”
Vejo que eles estão agora muito ocupados, em suas funções. Tenho que voltar aqui amanhã. E no dia seguinte. Cumprir também minhas funções. E no outro dia, depois do dia seguinte. E no outro dia ainda. Talvez para sempre, nos outros dias todos.

Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” ( www.percepolegatto.com.br ) .
Respostas de 2
O conto abre reflexões e inflexões sobre os núcleos: o que seria eternidade, esquecimento, relevância, superego ou insegurança ante à finitude, enquanto vivida ou não. Ecos imaginados após a vida e seus eteceteras. A insistência no diálogo sobre “Por que a eternidade importa” vem como leques que beneficiam mais nos seus movimentos em si do que o ar de apaziguamento climático ou de sofisticação que o leque produz. Isto é, não há necessariamente uma apologética, posicionamentos teológicos ou espirituais Um antagonismo entre personagens não mais que o antagonismo que “Paradoxo do registro e do esquecimento” acolhe em si e a partir de como o humano deseja salvar sua pele. O profano e o sagrado parecem não entrar em disputa, porém, há uma cautela puramente insegura e egoísta de que crer numa própria e indiferente identidade que tanto traduz o comportamento humano e sua imediatez.
Um texto tão leve e próximo que nos cutuca a alma como se pudéssemos – e somos, então – ser personagens ou se referir a um momento da vida de qualquer um, de qualquer humano – é isso, humano.