
NOTURNO
consagro a ti esta palavra
desnuda de luz
faminta de som
ergo em teu altar esta palavra
vertida do éter
pescada no Cócito
é somente tua esta palavra
Vega invertebrada
aversa ao divã
gestada no breu
para que as sílabas
soem cruas
e cada letra vibre
uma nota inaugural
como o trinado do vento
na noite morna
que se dobra
à mão direita de Chopin
COLUMELA
ao som de Jobim
o branco das paredes
ondeia o agora
contra as falésias de toda certeza
toda nota é uma casa
cada casa é o mar
desaguam em sua soleira
todas as ruas
avenidas e estradas —
rios de rédeas soltas
o balanço da rede de sisal
faz jangada na maré alta
a palavrassal
maresia o entendimento
vagas envergadas na orla virgem
ecoam na espuma do silêncio
desenterro mil pés
de dunas andarilhas
soergo castelos
em beiras de abismos
acendo o candeeiro
antes de singrar o oceano
posso
enfim
submergir
UMA ODE A HORÁCIO
sei que tens
um calo
em todo canto
e mesmo que tua
boca
não abra
sei que abrigas
toneladas
de mar
em tuas odes
mudas
sei porém
— tu não sabes? —
que de ti
o tempo não foge
nem escapa
não se
despe
de
o tempo te abraça
e engendra
o poeta
que se assenhora de
relentos
ainda assim
não te esqueças
que tudo passa
té este poema vai passar
aproveita o dia
sofre
o que seja
canta
o que deixa
o tempo em ti
ANÁTEMA
da Nona ao nada
de um muzak zumbindo
sob salvas de bocejos
e silvos de salivas
pouco pode a sinfonia
contra a ode ao cansaço
das vênias sem resposta
na ressaca
das avenidas
nos elevadores
panorâmicos
nas clínicas
psiquiátricas
nos livros
de poesia
ROUFENHO
antes de Cartola
cantar Candeia
o fagote semeia
sua reza rouca
arrastando
em tom menor
a beleza humilde
de todas as coisas tristes
essa virtude fria
que não se anuncia
nem se entrega
sem a pedra
da poesia
LONGE DA ESCADARIA DA IGREJA DE SÃO BENEDITO
admiro os poetas
que anotam data e lugar
no rodapé do poema
feito pássaros que retornam
anos depois
à exata árvore
de seu nascimento
do outro lado do continente
na falta de uma árvore de caneleiro
escrevo este poema
sem onde
nem quando
VELA
I.
ecoa na concha
o assobio de Caymmi —
vento que me leva
II.
barco no horizonte
curimã ê, curimã…
horizonte no barco
III.
o sol vai baixando —
no ar resta a ponta lunar
do seu escafandro
IV.
nenhuma saudade
vive no peito onde o mar
não soube ficar
AVISO AOS NAVEGADOS
sugiro desconsiderar
o soslaio pingando
pelos poros das pestanas
as palavras preclusas
no peito das papilas
os avisos espalmados
no cenho das pilastras
o brilho sem recado
no átimo das pepitas
a dissonância ranhenta
dos rumos e das rimas
o jazz dentro da marcha
e a valsa sem torpor
as guerras da gramática
e as guelras do temor
os rins da matemática —
e o amor e o amor e o amor
o que a poesia é
não basta
nem arrasta
o que a poesia quer
é brincar de médico
com o leitor
Bruno Ítalo nasceu e reside em Teresina-PI. Fez pós-graduação em Direito e atua como servidor público. Publica poemas, vídeo-poemas, haicais, contos e crônicas nas redes sociais, no seu Instagram @bispoesias. Também pode ser encontrado em portais, revistas, jornais e antologias. Em 2022 venceu o 7º Prêmio Inglês de Sousa (Poesia Nacional); foi finalista do Prêmio Poeta Carvalho Júnior (Poesia) e da 3ª Edição do Prêmio Internacional Pena de Ouro na categoria “Conto”; premiado no 37º Concurso Literário Yoshio Takemoto, na categoria “Crônica”. Exsicata é seu primeiro livro, foi finalista do Prêmio Jabuti 2024 na categoria Poesia/Autor Estreante.
