
O dia acordou triste. Já cansado, lúgubre, a pedir cama. Há uma tensão cinzenta sobre as pessoas que circulam lá fora. Tudo é triste. Talvez apenas porque me parece triste. E, ainda assim, não excluo que esta sensação seja partilhada pelos demais.
No céu, uma ameaça de chuva escondeu o sol. A Bélgica deve ser assim grande parte do ano, bem como as cidades próximas do Mar Negro. Palavras, palavras: é tudo o que nos resta para continuar. E nada ficará para trás, se as escreveres, porque só elas são capazes de arrebanhar tudo: o real e o seu contrário. Sobretudo estes pensamentos matinais que se esfumam depressa demais.
Ouço o crepitar das unhas da gata a avançar no escuro. Vem sempre assim: anónima e prudente. Mas as pequenas navalhas que lhe pontuam os dedos denunciam-na — um tambor a rufar baixinho no final de uma marcha militar. A invasão está prestes a acontecer. Salta para a cama e vai aconchegar-se no vale quente do edredom.
Amadora, 14 de Dezembro de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.