
Depois de percorrer imensas extensões de corredores, Malraux percebeu que algo havia mudado. Não sabia exatamente o quê. Depois de muito refletir, chegou à conclusão que, de fato, o que não conseguia localizar, era justamente aquilo que permanecia igual, portanto, a princípio, tudo havia se modificado. Sorriu, mas se nesse instante optasse pelo choro, nada mudaria. Depois discordou de si mesmo, havia permanências. Estava em um aeroporto, com passageiros, lojas, comissários de bordo e aviões taxiando na pista. Isto permanecia, o que parecia mudado eram os detalhes. Essa segunda constatação fez com que ele desconfiasse que, talvez os julgasse mais importantes do que o fundamental.
Havia nessa desconfiança um temor, a superficialidade é o pior dos males quando alguém ambiciona escavar profundezas não aparentes. Se a descoberta dos códigos secretos que mantém em pé as paredes da vida, era a carta na manga que guardava escondida para momentos de desânimo, o que aconteceria se, ao enfiar os dedos no suposto lugar onde deveria estar a carta, nada encontrasse. O que lhe sobraria? Longos corredores padronizados que deveria percorrer até quando não mais conseguisse caminhar. Malraux experimentou uma gelada sensação que começou sua caminhada pelo estômago e logo se espalhou pelo resto do corpo. Engoliu três pastilhas de menta e bebeu um longo gole no bebedouro.
Aquela era a hora das superficialidades, fez questão de se esquecer de que aviões e aeromoças o rodeavam, e notou a mudança nos padrões dos carpetes que cobriam o chão. A logomarca dos Aeroportos de Paris havia desaparecido e no lugar havia algo escrito em um idioma que desconhecia. Reparou que essa mesma mudança se espalhara também pela programação visual dos quiosques de venda, o desenho era outro, mais moderno, nada mais do aço escovado tentando falar de um futuro distante, agora as vozes eram de madeira, tingidas em cores quentes, o futuro acontecia a todo instante, era vibrante e colorido, e não apenas uma promessa.
Então Malraux percebeu algo realmente estranho, passeando por entre lojas e restaurantes, notou que o idioma francês havia ido embora. Vendedores se comunicavam em uma língua nórdica, talvez o dinamarquês. Antes que tentasse uma explicação outra revelação acachapante: todos os painéis indicadores de partidas e chegadas, todas as placas indicativas, tudo estava escrito nesse mesmo idioma e traduzido para o inglês. O idioma francês havia desaparecido.
O nova língua era falada por todos, passageiros, funcionários, vendedores e faxineiros. Malraux sentou-se, e fez aquilo que costuma fazer quando se sentia perdido, sorriu até que seus caninos ficassem aparentes, depois os encobriu com sua pele amarelada, então mergulhou dentro de um poço amarelo onde cozinhou a própria alma até que ela também ganhasse essa cor.
Quando conseguiu se levantar precisou caminhar, subiu ao primeiro andar onde se pode avistar os aviões decolando. Eles estavam lá, mas eram majoritariamente aviões da grande companhia nórdica. Novo sorriso que foi rapidamente desfeito assim que deu de cara com um espelho e reparou nas cores que seu rosto assumira. Descobriu um longo corredor no primeiro andar e decidiu seguir por ele. O idioma não era a única mudança, o tipo físico era outro. Mulheres e homens louros e altos, com sobrancelhas vastas e claras.
Seguiu caminhando e confirmando a nova realidade. Aquele era um enclave nórdico dentro do maior aeroporto francês. Qual a explicação? Talvez um novo terminal com ligação direta. Mas conhecia bem o aeroporto Charles de Gaulle, os grandes terminais costumavam agrupar vários países, e mesmo assim todos os funcionários e vendedores continuavam sendo franceses, e principalmente, jamais havia mudança de idioma nas placas indicativas e painéis de partidas e chegadas.
Localizou um balcão de informações, onde uma loira explicava em idioma nórdico a localização de algum portão de embarque. Esperou por instantes até que deixou-se ir, continuou caminhando, decidiu que, no final das contas, tudo passa a ser autoexplicativo. Sem sucesso tentou desvendar as longas palavras que se acumulavam em uma placa que parecia advertir para algum perigo.
Então percebeu que talvez, seu conhecimento a respeito do Aeroporto Charles de Gaulle fosse menor do que imaginava. Descobriu uma nova ala que desconhecia completamente. Um longo corredor repleto de pequenas lojas e restaurantes que conduzia a um enorme salão de embarque. Assim que começou a caminhada percebeu que a ilha nórdica deixara de existir. Mas o idioma francês não retomara seu domínio. Tudo estava escrito em inglês, sem tradução para outra língua. Os vendedores e funcionários pareciam todos indianos ou paquistaneses, e se comunicavam em um inglês que, apesar de fluente, não era sua língua materna. Conforme avançava Malraux percebeu que eles possuíam muitas outras nacionalidades, chineses, nepaleses, bengaleses, filipinos, tailandeses, vietnamitas, cambojanos, uma Ásia inteira movida a um inglês simples, mas suficiente para seus propósitos. Apesar de não haver cadeiras nesse longo corredor de lojas, Malraux tratou de observar com cuidado aquela nova população que acabara de descobrir. Para isso verificou produtos, perguntou preços, tomou sorvetes. Descobriu que quando conversavam entre eles utilizavam seus idiomas maternos. Longas conversas cheias de sons apimentados, que faziam nascer sorrisos sem freios. Mas no exato instante em que algum passageiro ocidental entrava em suas lojas, moldavam sua linguagem para o código composto por 200 palavras necessárias para que qualquer transação econômica fosse realizada.
As palavras encaixavam-se e logo escutava-se o som das máquinas de cartão imprimindo comprovantes. Mas como não percebia nenhuma satisfação maior no instante em que a venda era realizada, Malraux julgou que talvez aqueles asiáticos não fossem os donos de seus negócios, mas funcionários, talvez de outros asiáticos, que nesse instante, em seus países de origem, utilizavam-se do conforto e da amplitude de seus idiomas maternos.
Enquanto procurava escutar traços de conversas que jamais entenderia, Malraux foi surpreendido por um vendedor sorridente, sua primeira providência foi experimentar um boné. “Fica muito bem no senhor, veja no espelho.” Ele assustou-se com seu próprio rosto, invadido por um sorriso que não deveria estar ali. Então leu a inscrição no boné “I Love Luzon”. Constrangido com o sorriso do vendedor, que na verdade era muito parecido com o seu, comprou o boné, mesmo desconhecendo saber o quê, ou onde era Luzon. Assim que saiu da loja fez questão de consultar o celular, descobriu que Luzon era uma grande ilha nas Filipinas, a ilha onde estava localizada a capital Manila.
Guardou o boné em sua mochila e fez questão de retirar de seu rosto qualquer resquício do sorriso que enxergara no espelho. O longo corredor finalmente ficou para trás e ele agora chegara ao grande salão onde havia muitas cadeiras onde poderia descansar. Não sabia que horas eram, mas talvez estivesse no momento de comer alguma coisa. Apesar disso, não sentia qualquer fome.
Nesse grande salão notava-se um pouco menos a presença da Ásia, mas o mundo inteiro parecia ali representado, africanos, árabes, sul-americanos, e os funcionários e aeroportuários possuíam origens étnicas parecidas. Os passageiros, que se acumulavam em longas filas que se entrecruzavam e eram organizadas por cones e funcionários nervosos que carregavam rádios-comunicadores, também pareciam possuir todas as origens possíveis, e quando não se comunicavam entre si, utilizavam-se sempre do inglês como idioma universal.
Mesmo sem fome Malraux decidiu que era hora de comer algo. Localizou uma lanchonete de kebabs, o lugar era inteiro decorado com placas coloridas de acrílico iluminadas por cores fortes. A franquia procurava higienizar o popular sanduíche árabe, oferecido com múltiplas opções de sabores e encoberto por um envelope colorido que não deixava à vista seu ventre, repleto de carnes e temperos.
Os clientes, além das luzes fortes, tinham seus sentidos dominados por uma música constante, dois acordes repetidos simetricamente, que pareciam servir para criar um ritmo rápido para quem fosse mastigar os sanduíches. Os atendentes pareciam todos imigrantes do subcontinente asiático, que com um inglês padronizado, perguntavam e agradeciam como se fossem máquinas bancárias.
Quando percebeu que, se decidisse mergulhar nas opções oferecidas, precisaria responder a muito mais perguntas, ele optou pelo sanduíche tradicional, tamanho médio, acompanhado por um refrigerante, também de tamanho médio. Com apenas quatro respostas conseguiu apanhar sua bandeja e sentar-se longe dos aparelhos de televisão que transmitiam jogos de basebol. À sua frente um jovem casal de orientais mergulhados em seus celulares. Depois de algum tempo trocaram as primeiras palavras, e pelo som do idioma Malraux julgou que talvez fossem filipinos.
Malraux comeu seu sanduíche lentamente, desviando olhares, mas buscando prestar atenção no jovem casal. Levantou-se em busca dos molhos para o sanduíche, e ao passar ao lado deles, teve certeza daquilo que suspeitava. A vida que habitava aquela mesa, parecia ser apenas uma manifestação biológica, os órgãos jovens funcionavam com perfeição, os tecidos eram formados por células bem nutridas, as veias e artérias corriam como rios selvagens, os intestinos eram eficientes máquinas de processamento de calorias, grandes produtores de energia. Mas essa força transformada era toda usada com o funcionamento da máquina. Não havia sobras geradoras de faíscas inúteis, mas que iluminavam as noites.
Ele teve dificuldades para terminar seu sanduíche, abandonou os jovens orientais que haviam voltado para seus celulares, e seguiu adiante. Um longo corredor terminava em escadas rolantes que davam acesso aos janelões de onde poderia observar a partida e chegada de aviões. Esse também poderia ser um bom lugar para observar o despertar da noite, que a essa altura não demoraria. Sentado, misturou aviões com os jovens filipinos, ambos automáticos, obedecendo suas rotas e torres de controle. Ambos criados para um determinado propósito. Foi quando Malraux se levantou e começou a caminhar rapidamente, se não fosse por sua bagagem teria avançado e descoberto novos corredores cheios de surpresas.
Por um instante pensou em deixar tudo para trás. Então continuou caminhando em longos círculos, de maneira que conseguisse manter um olho em suas bagagens. Mas a cada passo que dava parecia que havia mais energia que sobrava, e que não poderia ser queimada apenas com esforço físico. As centelhas pediam por noites escuras, gritavam por música que pudesse ser dançada. Rompeu o círculo e avançou, a noite descia sobre o aeroporto, mas era combatida com todas as luzes coloridas que pudéssemos imaginar. Ele caminhou, quase correu, desviou de passageiros, escutou trechos de frases que demonstravam apreensão e expectativas, não deu importância a essas sensações. Caminhou tanto e tão rápido que mesmo se quisesse não conseguiria mais encontrar suas bagagens.
Conseguira se desfazer delas, e desde que chegara ao aeroporto esses eram seus instantes de maior felicidade. Uma nova noite espalhava os tentáculos pelos terminais, a rotina era sempre a mesma, movimento intenso durante as primeiras horas da noite, depois uma diminuição gradual até quase cessar por completo por volta da uma hora da manhã. Como já conhecia a rotina, não precisava nadar contra marés ou esperar por ondas que nunca viriam. Deixou com que as areias recebessem as ondas, sentado, contemplou sorrisos, para respondê-los quase sorriu, depois percebeu que essa também seria uma maneira disfarçada de nadar contra a maré. Quando tudo acalmou percebeu que não estava com sono, da mesma forma que comera sem estar com fome.
Decidiu manter a rotina e buscar abrigo para dormir. Os terminais todos possuem escadas rolante, e foi embaixo delas que se enfiou para dormir. Logo percebeu que sua mala e mochila, que haviam ficado para trás, fariam falta. Não tinha onde encostar a cabeça, e nada além do próprio casaco para se cobrir. Encontrou uma ponta solta no carpete que cobria o chão. Com alguns minutos de esforço conseguiu descolar e rasgar um pedaço que lhe serviu tanto de travesseiro quanto de cobertor.
Mesmo assim demorou para pegar no sono. De onde estava conseguia ver uma grande janela coberta de escuridão, uma gota dourada de luz parecia vir de muito longe e diante da imensa massa negra, parecia um esforço vão, inútil. Malraux sabia que aquela não era a hora indicada para comparações, especialmente aquelas que agora pediam para nascer. Mas elas foram inevitáveis, aquela luz tinha o mesmo título da obra mais conhecida do escritor favorito de seus pais: “A Condição Humana”. Isso mesmo, os símbolos gritavam como bebês chorões, precisavam se autodestruírem, se transformarem em afirmações publicitárias, em manchetes de jornais sensacionalistas: a luz tênue era o homem, a escuridão, a eternidade pronta para engoli-lo.
Mesmo que em poucas horas o jogo se invertesse, e a noite fosse engolida pela luz, mesmo assim, o homem continuaria sendo o infinitamente minoritário, ele se transforma imediatamente em sombra e só volta a ser luz quando ela não for páreo para a noite. A gota de consciência é um desafio ao eterno. É ele que, com seu peso sem fim, pressiona as paredes da individualidade para que aquele concentrado de experiências se dissolva nas águas escuras, para que tudo volte a ser unânime.
Malraux sabia que a essa altura o sono era um condenado à espera da cadeira elétrica. Sem perspectivas. Por isso avançou, a questão principal não era o reconhecimento da situação da condição humana, mas sim, a partir dessa constatação, qual seria, ou mesmo se haveria uma tomada de atitude. Se testemunhas existissem para aquela situação que se desenrolava embaixo das escadas rolantes, elas todas afirmariam haver visto um homem sobre cujo rosto dois mares sem fundo demonstravam que fúria e vida, em dicionários bem escritos, podem se transformar em sinônimos.
A essa altura não havia barco capaz de singrar aquelas águas. “Sim” ele disse em voz alta, e em voz ainda maior repetiu “Sim”. Depois veio o silêncio, que só foi rompido quando o motor da escada rolante entrou em funcionamento. Malraux acalmou-se quando percebeu que o faxineiro esvaziara alguns cinzeiros e ia embora balançando sua vassoura. Foi difícil retomar a concentração, remou contra a correnteza até se encontrar na borda do precipício em que se encontrava anteriormente. Então, sem temer consequências, atirou-se no penhasco, enquanto caía, gritou: “O homem ainda se transformará em eternidade, mas consumirá toda uma eternidade para isso.” Não satisfeito, e já em terra firme, ele apenas manteve um silêncio rígido, o mesmo observador que havia visto mares mostrando seus intestinos, agora localizaria em seu rosto apenas dois buracos escuros, portas de entrada para um crânio descoberto de suas carnes.
Sua alma agora era um cinzeiro cheio, apenas esperando pelo faxineiro da madrugada. O sono se transformara em um sonho adiado, talvez para sempre. Desistiu de manter os olhos fechados. Afastou-se de penhascos, mares e poças de água parada. O que sobrara era a espera, as luzes artificiais e os ruídos distantes, pontadas agudas de todos os tamanhos e vindas de todos os cantos. Conformou-se, esse era o sabor a que tinha direito.
Uma onda de frio avançou sobre seu refúgio, ele enrolou-se no tapete e foi então que percebeu a rigidez de seu cobertor, aquilo não havia sido fabricado para o propósito que estava utilizando. Grandes porções de seu corpo ficavam sem proteção, mesmo assim era somente com aquele retalho de carpete que conseguiria se proteger do frio. Posicionou a manta sobre as costas e encostou-se no fundo metálico daquilo que parecia ser sua toca.
Aos poucos os barulhos ganharam vigor, a vida parecia renascer. Desde que cruzara as portas do aeroporto com intenção de viajar para o Camboja, esses foram os momentos de maior agonia. Seu pescoço foi ocupado por um grande nó dolorido que transformava sangue e outros fluídos em lágrimas salgadas prontas para jorrar. Ele respirou fundo, desviou pensamentos e conseguiu mantê-las todas dentro dos olhos. Os pequenos acontecimentos advindos dos voos do início da manhã conseguiram, aos poucos, desfazer o grande nó.
O que restou foi uma fadiga moral que não se traduzia em sono. A ressaca, adivinhou ele, se transformaria em grandes dutos vermelhos envolvendo o azul de seus olhos. Precisou fechá-los para não encontrar cor de sangue quando lavou o rosto no banheiro. Com o rosto ainda molhado escolheu o movimento. Caminhou por um longo corredor que agora parecia pertencer a algum aeroporto oriental, quase todas as pessoas que via tinham olhos oblíquos e se comunicavam em uma língua que se parecia, e talvez realmente fosse, o tailandês.
Decidiu que não mais estranharia esses acontecimentos, aquilo havia se transformado em sua rotina e era preciso aceitar essa nova condição. Entretanto, havia uma tentação, a explicação completa poderá estar a apenas alguns metros de distância. Bastaria tomar à direita na direção das portas de saída. Se fizesse isso descobriria sua verdadeira localização, e o mistério secaria como uma planta sem raízes. Mas, temia, talvez o que encontrasse do lado de fora fossem novas perguntas, que o conduziriam a ainda menos certezas. Não que estivesse interessado nelas, mas precisava de pelo menos uma ou duas pedras onde pudesse pisar enquanto atravessava o rio.
Por isso se mantinha distante das portas de saída, e quando possível seguia adiante por andares superiores. Apreciava as salas onde poderia contemplar as pistas e ver os aviões aterrissando e decolando. Gostava de embarcar mentalmente em cada um deles. Uma nova identidade, sexo, idade, profissão, novos motivos para viajar, essa pessoas costumavam viver de três a quatro minutos, depois se desfaziam, e partes delas eram utilizadas para construir outras vidas imaginárias.
O novo dia já estava confortavelmente instalado dentro do aeroporto, os sorrisos, as lágrimas e o tédio, espalhavam seus tentáculos pelos salões de embarque e salas de espera. Malraux sentiu um cheiro de comida vindo de uma área destinada a restaurantes. Não sentia fome, mas sabia que ignorar por completo as necessidades de seu corpo, mesmo que ele permanecesse em silêncio, poderia de alguma maneira aproximá-lo das portas de saída do aeroporto.
O horário era compatível com uma refeição. Entrou no primeiro restaurante que encontrou. O ambiente estava quase lotado. Todos os presentes eram orientais e a grande maioria eram homens. Sentou-se na única mesa vaga e logo um garçom entregou-lhe o cardápio. Assim que o abriu percebeu que ele também era escrito naquela língua que decorava todo o terminal e que julgava se tratar de tailandês. Pediu ajuda em inglês para o mesmo garçom que lhe entregara o cardápio, que sem nada responder voltou alguns instantes depois com alguém que conseguia compreender e pronunciar algumas palavras em inglês.
Ele conseguiu fazer seu pedido e percebeu que de onde estava, conseguia observar bem o funcionamento da cozinha, cujas paredes eram de vidro. Havia um homem oriental beirando a velhice que parecia comandar o ambiente. No fogão industrial muitos woks recebiam cargas de vegetais coloridos picados, que depois eram misturados com vários tipos de carnes. A fumaça então subia e o chefe de cozinha parecia saber o exato instante em que deveria enfiar sua espátula na fritura para que o sabor e o cozimento se espalhassem por igual pelo prato. Malraux observou com atenção aquele homem de olhos oblíquos. Tentou vestir suas carnes, injetar as expectativas dele dentro de seu próprio coração. Quis experimentar a gordura, que ao longo de décadas cobrira sua pele, degustou pedaços das opiniões que nutria sobre si mesmo, o orgulho de saber-se um artista da cozinha, os sabores azedos de seus arrependimentos, o gosto do vazio quando o assunto era o futuro.
Teve de encerrar o raciocínio quando o fruto do trabalho daquele homem, em quem por alguns instantes se transformara, foi colocado fumegante à sua frente. O prato lembrava um quadro pintado com pinceladas rápidas, vermelho do pimentão misturado ao verde suave do repolho e ao marrom da carne frita, a primeira garfada revelou um sol poente simbolizado pela gema de um ovo mole. A mistura nadava em um mar escuro que parecia ser feito de molho de soja. Assim que devorou o sol, o resto do prato pareceu-se com uma praia à noite, levemente iluminada por uma lua minguante. Sem perceber, Malraux se transferiu para essa praia, contemplava a escuridão sem dela nada esperar, depois se perguntava se ele mesmo não faria parte daquela ausência de luzes. Como não obtinha respostas continuava distraído com o panorama, do qual não conseguia enxergar o fim.
De repente algo se move, o céu é rasgado por luzes efêmeras, que depois de mostrarem esplendores, desaparecem dentro das águas escuras. Fogos de artifício que não precisaram de ninguém para acender seus pavios. Então o fundo do prato começa a mostrar a logomarca do restaurante, algumas toras feitas de carne bovina ainda flutuam naquele resto de noite que não conhecerá manhã. Ele as abandona lá mesmo e deixa uma nota sobre a mesa. Antes de se levantar apanha no chão o resto de tapete que se transformou em sua única posse. Depois o deixa onde estava, um peso não esperado faz com que interrompa seus movimentos de partida. A carga vem em forma de pergunta: não seria a condição humana algo parecido àquilo que imaginara enquanto degustava seu prato, um flash de luzes brilhantes que aparentemente vai restaurar o dia, mas que após o entusiasmo inicial perde forças e se transforma em uma minúscula sombra mergulhando dentro da infinita ausência de tudo?
Depois de alguns minutos de imobilidade, ele se levanta sem respostas e sem sua única posse, que assim como as outras resolveu também abandonar. Após os primeiros passos volta a pensar na figura do cozinheiro, mas não consegue encaixá-lo em nenhum pensamento organizado, o homem desaparece e depois se mistura com o grande cartaz alaranjado que anuncia telefonia e internet de tão alta qualidade e a preços tão baixos, que só poderia resultar naquela expressão de felicidade que envolve por completo a família que participa da publicidade. Ele para por alguns instantes em frente ao painel iluminado, repara na beleza da mulher, que combina com a do homem, e na graça da criança sem os dois dentes da frente, segurando nos braços um cachorro, que se não estivesse latindo, também sorriria.
Ele caminha até se cansar, então senta-se em uma área destinada a observação das aeronaves que chegam e partem, dessa vez não havia uma companhia aérea majoritária e os aviões pertenciam a companhias europeias, americanas e asiáticas. Ele logo adormece e quando acorda percebe que mais um dia está indo embora. Depois sente dores nas costas por haver dormido de mal jeito. O mal humor aumenta quando uma numerosa família composta por muitas crianças senta-se nas cadeiras ao seu redor. As crianças espalham brinquedos e comida pelas cadeiras e pelo chão. Sente-se constrangido e com raiva. Não havia outras cadeiras livres por perto e ele não queria caminhar até outro terminal. Também não estava disposto a examiná-los e condená-los, nem chegar à conclusões e vereditos que conduziriam a outras ideias.
Simplesmente fechou os olhos procurando se abster de qualquer sinal do mundo externo. Suportaria esbarrões, gritos e até o choro de bebês, mas tentaria fazer tudo isso sem adormecer, e principalmente, sem deixar com que raciocínios florescessem. Uma ausência consciente que alguns poderiam chamar de meditação, mas que ele preferia nominar: nada. Um tira-gosto daquilo que experimentaria dentro de alguns anos, e que o ocuparia provavelmente por toda a eternidade. Então Malraux deixou-se banhar nas águas estáticas do não ser. Mas sua própria presença ali gerava marolas ao seu redor. O simples fato de estar tentando não ser, indicava que ele ainda era. E um ente em meio ao nada, acaba gerando consequências, o que costuma transformar aquilo que não era, em alguma coisa. Ou seja, o exato oposto de sua intenção inicial. Irritado, levantou-se e fez questão de não desviar o pé de um caminhãozinho de plástico que quebrou-se ao meio. Ele ainda ouviu uma voz feminina que o chamava irritada, mas apurou o passo e continuou sua caminhada.
O aeroporto estava lotado, muitos voos partindo e chegando, grandes malas sendo arrastadas, celulares sendo carregados em balcões feitos especialmente para isso, onde sobravam copos descartáveis de café, havia também outras manifestações de beleza e felicidade espalhadas pelos cartazes digitais projetados nas colunas de concreto. Cada centímetro quadrado parecia ter algo a dizer, mas os ouvidos de Malraux possuíam uma capacidade limitada, e os excessos sobrecarregavam sua alma. Se conseguisse fechar os ouvidos precisaria também deixar de enxergar, e aí novamente estaria encerrado dentro da prisão, daquele espaço reservado aos que não mais são, e que os outros, que ainda possuem vínculos, apenas conseguem fingir que participam.
Depois de respirar fundo, percebeu que o único caminho era prosseguir. Percebeu que estava em um grande entroncamento, como alguém que caminha em uma autoestrada com seis pistas, de um lado havia um imenso grupo de passageiros árabes carregando cada um muitas malas, as mulheres de burca abanavam-se sentadas nos carrinhos de bagagem enquanto os homens pareciam proteger o grupo formando um cordão de isolamento ao redor. Todos eles possuíam bigodes, celulares e joias. Não muito longe dos árabes havia um grupo grande de senhoras idosas que obedeciam a um guia que tentava ao mesmo tempo responder perguntas e agrupá-las para que pudessem seguir juntas para os balcões de check-in. Depois de muito tempo voltou a escutar seu idioma materno. Mas não teve tempo de usufruir da sonoridade do francês, pois um barulhento e imenso grupo de chineses avançou em sua direção. Seus carrinhos de carregar bagagem não respeitavam canelas ou tornozelos, e assim que foi acertado pela primeira vez sua vontade foi retribuir ao ataque com um chute certeiro na canela.
Na segunda vez em que foi atingido não conseguiu controlar seu impulso e chutou com toda sua força sem saber em quem acertaria, quem recebeu o golpe foi uma senhora que por pouco não teria idade para ser sua mãe. O ataque gerou comoção imediata entre os outros chineses que formavam um círculo em torno da senhora que havia caído no chão. Malraux abaixou a cabeça e fugiu correndo enquanto as vozes chinesas repetiam sons incompreensíveis e muitos dedos apontavam em sua direção.
Refugiou-se no banheiro masculino e lá esperou por quase uma hora até perceber que o grupo chinês não estava mais lá. Não se arrependera do que havia feito, entretanto, sem explicações, não conseguiu conter um choro que chamou a atenção de quem estava em volta. Só conseguiu conter as lágrimas quando percebeu que se continuasse, talvez alguém se aproximasse para perguntar o que estava acontecendo ou tentasse consolá-lo. Quando percebeu era noite, suas lágrimas secas foram lavadas em um bebedouro, sentiu que tirara um peso das costas. Era hora de se alimentar, mas a fome continuava ausente, mesmo assim fazia questão de não saltar refeições. Optou por um sanduíche de peito de peru acompanhado por um suco de laranja, uma refeição rápida degustada em pé, uma rede de lanchonetes cuja principal qualidade era a rapidez do serviço.
Então um sorriso, a princípio irônico, mas que depois se transformou em riso solto: por que alguém em sua situação precisava economizar tempo? Foi quando, após suas gengivas deixarem de ficar expostas, que ele se perguntou, qual era afinal, sua situação? Não conseguiu responder o que trouxe de volta apenas a parte irônica do sorriso. Então lembrou-se das pedras de Angkor Wat, a razão pela qual se dirigira ao aeroporto. Tudo aquilo parecia tão distante, um sonho nublado de infância, então ele acordou, tinha oito anos, foi para a escola e uma série quase incontável de acontecimentos se sucederam desde então, camadas de tinta aplicadas todos os dias sobre aquilo que havia anteriormente.
Angkor Wat era a sombra de um sonho, mas os dias continuaram acontecendo, e ele não sabia exatamente em que medida as últimas camadas eram de fato as mais importantes, ou tudo não passava de uma ilusão de ótica e cada uma delas, cada nova mão de tinta, mesmo longe da vista de quem passasse pela rua, continuaria existindo à sua maneira.
Quando acordou o sol ainda não nascera, mas havia algum movimento devido aos primeiros voos que partiam antes das seis da manhã. Trocou olhares com passageiros que em razão do horário não carregavam entusiasmos exuberantes. As sombras da noite que ainda vivia se acumulavam ao redor de olhos e serviam de combustível para longos bocejos. Malraux permaneceu sentado na poltrona onde passara a noite, vestiu os sapatos mas essa foi sua única atitude. Assistia ao movimento sem desejar participar dele, mas também desprovido de qualquer desejo de julgamento. Não queria concordar, discordar, ele estava ali e isso lhe parecia suficiente. Viveu meia hora mergulhado nessa piscina de águas mornas, sem se mover, apenas estando, o que não deixou de ser prazeroso.
Então quando percebeu que aquilo era bom, temeu que terminasse. Foi o suficiente para que a ansiedade, que ainda dormia, acordasse e utilizasse dos maiores agudos que conhecia para gritar ao mundo sua própria existência. Teve de ficar em pé e continuar andando, aos poucos o sol trouxe consigo a rotina do grande aeroporto. O movimento espalhou-se por onde conseguia enxergar, ele desviava, descobria novas línguas e alas, companhias aéreas de países que nunca tinha ouvido falar, pessoas sobre as quais jamais pensaria, vidas que, como a dele, também eram o centros de seus universos. Cada um orbitando e arrastando consigo seus satélites.
Agora o novo terminal em que entrara, possuía placas e indicações escritas em ideogramas acompanhados pelo inglês, parecia mais limpo e organizado que o terminal anterior e cem por cento dos trabalhadores eram orientais. No primeiro andar percebeu que quase todos os aviões que enxergou pertenciam a companhias aéreas japonesas. No banheiro, enquanto lavava o rosto, reparou na angústia de um passageiro idoso que não conseguia entrar no cercado sanitário com suas volumosas malas, e não parecia confortável em deixá-las desassistidas do lado de fora. O pequeno velho oriental suava e observava o espaço disponível ao lado da privada, depois retirou o chapéu e coçou a cabeça calva, aparentando um matemático debatendo-se contra um teorema que ninguém nunca resolveu.
Malraux fingiu não perceber o esforço do velho e assistiu a tudo de costas, olhando para o espelho. Depois de alguns minutos ele desistiu de usar o banheiro e com dificuldades arrastou suas malas para fora. Então, mesmo sem ter o que fazer ali, Malraux entrou no mesmo cercado sanitário que o velho japonês tentara usar, sentou-se no vaso e contemplou as portas brancas, livre de desenhos ou palavrões escritos. Escutou gente chegando e partindo, ouviu barulhos característicos de banheiros e outros que imaginaria serem típicos de bibliotecas. Assistiu a muitas mãos tentando girar a maçaneta de onde estava, depois sentiu-se acolhido pelo repetitivo ruído do secador de mãos, e pelo ritmado abrir e fechar das torneiras das pias.
Não teve certeza se adormeceu ou não, mas quando deu por si sentiu que precisaria sair dali. A dormência que sentia não era como a das pernas que ficam muito tempo sem se mexer, parecia que sua alma, ou então aquilo que entendia por Malraux, ou então a mistura das duas coisas, perdera momentaneamente a circulação do líquido, do sólido ou do gasoso que a mantinham existindo, e apenas o movimento faria com que tudo voltasse a ser como antes.
Assim que saiu do banheiro foi surpreendido por uma noite densa.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
