
A Dinamarca é a terra dos imortais contos de fadas de Hans Christian Andersen. É a terra do universo grandioso do astrônomo Tycho Brahe. Da angústia, da fé genuína e do profundo existencialismo do filósofo Soren Kierkegaard. E da épica sinfonia “Inextinguível” do compositor Carl Nielsen.
Em 1928 foi produzido A Paixão de Joana d’Arc, um dos maiores filmes de todos os tempos, renomado por sua fotografia e uso de closes. Ele aparece frequentemente nas listas da revista Sight & Sound dos melhores filmes já feitos e, na votação de 2012 , foi eleito o nono melhor filme pela crítica e o 37º pelos diretores. Além da atuação antológica da atriz francesa Maria Falconetti coma a Santa francesa, A Paixão de Joana D’Arc foi dirigido por outra grande personalidade dinamarquesa, Carl Theodor Dreyer (1889 – 1968) que também dirigiu filmes aclamados como Michael (1924), Vampyr (1932), Dias de Ira (1943), A Palavra (1955) e Gertrud (1964).
Em 1943, a Dinamarca estava sob ocupação nazista, e o filme de Dreyer, Dias de Ira, tematizava a paranoia em torno da caça às bruxas no século XVII, em uma cultura teocrática . Com essa obra, Dreyer estabeleceu um estilo próprio que marcaria seus filmes sonoros: cuidado nas composições, cinematografia monocromática austera e planos-sequência estendidos.
Dreyer realizou dois documentários na década anterior ao seu longa-metragem de 1954, Ordet ( A Palavra ), sua grande obra-prima baseado na peça homônima de Kaj Munk. O filme, que combina uma história de amor com conflito de fé, ganhou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em 1955.
Considerado um dos grandes artistas da história, seus filmes são notáveis pela austeridade emocional e ritmo natural imbuído de solenidade, com temas frequentes de intolerância social, espiritualidade transcendente, que enfatiza os temas fortes da morte, do destino e do bem e do mal na vida terrena que por vezes são transfigurados por um tipo de fé muito particular, com ressonâncias Kirkegaardianas.
Dreyer deixou inacabado um grande projeto. Queria fazer um filme sobre Jesus. Embora um manuscrito tenha sido escrito (publicado em 1968), a instabilidade econômica e o próprio perfeccionismo de Dreyer deixaram o projeto não finalizado, algo que nos faz lembrar das obras inacabadas de Leonardo da Vinci, o gênio do Renascimento italiano, que tinha em comum com Dreyer a busca da espiritualidade em fusão com um instinto que apreende uma ilimitada beleza.
Seus filmes ganharam a admiração de um público amante das artes, de artistas e diretores de cinema e teatro ao longo dos tempos, como atestam seus profundos admiradores, os cineastas Ingmar Bergman e Lars von Trier, seu conterrâneo mais jovem.
Dreyer fez do cinema uma ode e um chamado à fonte da alma humana, tão profunda e insondável, tão repleta de luzes e sombras e de memórias mortais, que paradoxalmente se eternizam no sopro belamente transitório da arte.
Andrey Luna Giron é poeta, músico, maestro, artista plástico, fotógrafo e budista. Tem 5 livros publicados de poesia – Cósmicas pela editora Protexto, Claritas, Mistério Aceso, Do Fundo Da Palavra e Terra Celeste pela editora Insight. Participou das Coletâneas 100 Anos da Semana de Arte Moderna e Amazônia em Prosa e Verso da AIAP Brasil. Gravou CD de música clássica contemporânea com composições próprias com o grupo Ethos Fractallis realizando concerto de lançamento no Museu Guido Viaro e distribuído nas mediatecas de Paris. Fez trilha sonora para cinema e tem várias composições orquestrais e para piano. Trabalha no Museu Guido Viaro onde faz recepção, monitorias e palestras semanais sobre cinema no Cineclube Espoletta deste Museu.
