
A casa ficava em um conjunto habitacional, uma rua depois da minha. Havia alguns degraus, para que o terraço fosse alcançado. Para mim, que à época deveria ter uns prováveis oito anos, parecia se fincar no alto de um morro. Era uma casa movimentada, pelo menos era assim que eu a imaginava.
Eu tinha muita inveja dos irmãos dela, confesso. Posso chamar de inveja, sim, porque eles faziam com ela aquilo que para mim era impossível: estar ao seu lado, tomar café juntos, conviver no mesmo ambiente que eu sonhava me meter um dia. Mas era apenas um sonho, já que me faltava coragem – uma virtude que eu nunca soube cultivar.
Lúcia. Lembro-me bem do nome dela – disso eu não esqueço. Usava óculos e tinha os cabelos que caíam sobre os ombros, levemente ondulados. Não creio que ela soubesse da minha existência, embora sua imagem estivesse sempre nítida em meus pensamentos. Lembro que tudo aconteceu de repente: um dia, simplesmente percebi que ela existia — e que morava na rua de trás. Às vezes, eu inventava umas voltinhas por lá apenas para olhar para a casa e arriscar vê-la no terraço. Mas ela nunca aparecia. Era como se a casa estivesse abandonada, contrastando com a ideia que eu fazia de uma casa movimentada, deixando-me curioso para saber a razão de ela nunca se mostrar durante minhas passagens por sua rua.
Um dia, percebi seu irmão no terraço, como se estivesse decidindo para onde ir. Com certeza, ele nem percebeu que eu estava por ali. Eu o conhecia provavelmente do campo de futebol, que ficava após a última quadra do conjunto, em um lugar chamado Covão, que tinha esse nome porque ficava em um terreno acidentado e íngreme. Nos finais de semana, muita gente aparecia por lá, para jogar bola ou apenas para assistir aos jogos improvisados.
Eu não me importava com o fato de ele não falar comigo. Eu nem sabia o seu nome. Além de mim, ninguém mais tinha ideia da inveja que me consumia – do irmão, da irmã, do pai, da mãe, de qualquer um que habitasse aquela casa misteriosa. Nunca deixei que percebessem. Eu imaginava as cenas que ela estaria vivendo ao lado da família, e isso me enlouquecia.
Eu tinha uma bicicleta Monark azul-claro, com o selim coberto por uma capa acolchoada e bandeirinhas presas às laterais do guidão — quase sempre de algum time de futebol. No fim da tarde, minha diversão era percorrer a quadra: seguia pela calçada comprida, fazia a curva e alcançava a rua onde Lúcia morava. De longe, já se podia ver a casa elevada.
Naquele dia, percebi sua silhueta no terraço, iluminada pelo sol do entardecer. Parecia ter saído do banho, com os cabelos soltos e levemente molhados. Meu coração saltou em palpitações. Eu não sabia se prosseguia ou se retornava, mas criei coragem, aquela coragem que nunca tive. Será que ela me notaria?
Comecei a pedalar mais lentamente pela calçada que ficava do lado contrário à sua. Não percebi se ela havia me notado, porque eu não conseguia lançar olhares em sua direção. O que eu faria se seus olhos fitassem os meus? A bicicleta avançava, meu coração continuava saindo pela boca. Olhei de soslaio e percebi que ela ainda estava na mesma posição, descontraída, com o pensamento provavelmente bem longe dali. Continuei sem virar a vista em sua direção. Entreguei-me de corpo e alma àquele momento. Quando percebi que passava defronte à sua casa, ainda segurando o guidão da bicicleta, levantei o polegar da mão direita, tão discretamente e por um momento tão rápido que eu próprio não percebi o que havia acabado de fazer. Eu imaginava que, com aquela atitude, estaria enviando a ela um sinal da minha paixão.
Se ela viu aquela minha ousadia, não sei. Preferi ficar na dúvida. Na verdade, a dúvida me confortava muito mais do que a certeza de que ela nada viu. Voltei para casa com o coração mais calmo e certo ar de triunfo. Algum tempo depois, eu soube que eles se mudaram do bairro. Mas a lembrança dela vem me perseguindo há anos. Tanto que hoje, enfrentando a crueldade do tempo, ainda me lembro do seu jeito gracioso de não me ver.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).