Bom dia, ontem

Henri de Toulouse-Lautrec. A cama. 1898.


Quando se olha por uma janela e se observa o mesmo panorama, com os mesmos recortes de telhados, através dos mesmos vidros, por entre a mesma moldura, tanto no dia de ontem como no dia de hoje, o pensamento alonga-se como se espreguiçando, que as coisas todas parecem não passar nunca, e a nossa janela e os nossos dias estão sempre aí, ao alcance dos olhos. É um dia canadense, de nuvens. Um domingo de nuvens. Canadense, como digo a ela, brincando. Mas ela ainda não acordou. Só eu fui à janela. Sou só eu quem vem até a janela. Tudo acontece agora.

Mas o tempo passa, as coisas passam, e as pessoas deixam de existir. Muitas vezes, antes das coisas. A vida ocorre somente neste momento em que escrevo e conto. Não existe vida no passado, como sabemos. E não há nada real no futuro, pois o futuro só pode ser imaginado. A vida só se encontra no presente, como eu sempre soube, que é quando – e onde, por que não? – qualquer coisa em minha vida pode acontecer.

É inútil que eu tente encontrar aquele menino que eu fui um dia – outra imagem de fotografias domésticas, rosto contraído pela timidez ou por uma estranha ansiedade – porque aquele menino, naturalmente, não existe. Porque aquele menino sou eu, agora. Aquela timidez não existe mais, não aquela, hoje diluída no passado, junto com o menino e com seu rosto ansioso, quase em pânico. Nunca ninguém encontrará esse menino. Em parte alguma. Fico olhando quieto a manhã de nuvens. Isso não me entristece. Isso é justamente o que torna meu presente tão valioso e tenso. As nuvens, que nunca são as mesmas. Os mortos, que não existem. O menino que desapareceu para sempre.

Mas se não é o cartão-postal urbano o que vai sutilmente se alterando, somos nós e os nossos olhos o que vai se dispersando. Não tanto a maneira de ver, mas porque o tempo não pode ser detido. E nós o carregamos como um vírus, contra o qual não existem vacinas, e ainda bem. Eu e minha namorada somos jovens e nos procuramos como se fôssemos sempre depender do mesmo gênero de necessidades e carências, enquanto trocamos a nossa imagem e a oferecemos um ao outro, como num espelho recíproco de nós mesmos e de nossa nítida juventude, pois quase nunca nos lembramos, e ainda bem também, de que nenhum espelho nos repetirá em outro tempo.

Volto à cama, fico sentado por uns minutos. De lá, ainda observo o dia por entre os vidros, preguiçosamente. Torno a me deitar da mesma maneira como estava, agora meio erguido sobre um cotovelo. Mônica dorme de lado, voltada à parede, e sua respiração dá sinais de alguma alternância sutil, própria dos que quase despertam, quando lhe faço um carinho. Ela se vira lentamente, aconchega a cabeça em meu peito, dando os cabelos em desordem ao afago da mão que a mantém sob carícias e que dela absorve, por sua vez, o calmo prazer de acariciá-la. Sem abrir os olhos, pergunta-me, num murmúrio confuso, como está o tempo horas seriam ou eram lá fora frio pouco já muito tarde ou não…

“O dia abriu com uma chuva fina e muito mansa”, conto-lhe, bem perto de seu ouvido. “Como aquelas que nos molhavam na infância, quando atravessávamos trilhas no bosque de árvores claras. Lá onde as fontes entre os degraus de pedra, esverdeados pelo passado, nos faziam pensar em música. E nos moviam a repetir cantigas de memória e esquecimento. O ar agora está úmido, livre de impurezas, e nos convida a inspirá-lo profundamente. Depois veio um sol pálido mas agradável, como nos lembrando de que a vida nunca termina.”

A respiração dela, soprando sobre meu pescoço, volta ao ritmo anterior, perdendo-se no fundo de seu sonho. Mônica, outra vez adormecida. Nós dois suspensos entre o que possa estar acontecendo de bom ou de ruim por qualquer parte. Ruim, de ruínas. Por qualquer parte, apenas sendo. Entorpecidos por uma extrema calma, somente enriquecida pelos mais recentes sinais da natureza, no único tempo que existe: nossa manhã entre cartas de nuvens, que são, para nós, as primeiras notícias do dia.



Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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