
As nuvens que se erguem, os raios que as costuram, anunciam o que vem do céu nascente – a linha entre dois mundos que convivem (o dos que olham para baixo e o dos que sonham voar).
A tempestade se anuncia. Não precisa ser discreta. Nunca se importou com isso. É tempestade. Mostra-se como é para os que dormem e para os que se desesperam. É tempestade alheia aos medos e desejos; é tempestade.
Os tons e o movimento, as luzes e os sons compondo-se em tormenta despertam no homem o temor do que não se pode controlar nem prever. E ante os olhos se agiganta, indiferente ao que rege cada sentença.
Indolente à abstração humana, a bátega se declara ao longe. Ergue-se como um véu intrépido a cobrir até onde os olhos chegam. Não necessita cautela. É tormenta que se vê, que vem tomar o céu e ocultar o sol dos olhos que ainda velam as próprias existências.
Fecham-se as vistas e todos os medos reservados em si passam a compor o que se aproxima. Transferência. Deixa de ser a agitação externa e passa a ser o que se ergue no íntimo com cores próprias e temores particulares. Uma saraivada de medos que passa a tecer a chuva forte que se aproxima.
Agora, diante do paredão tomando o mundo, são as ameaças devidas que nascem do âmago e contorcem-se enquanto o vivente tenta conter-se em si. O medo é meu, sou eu.
As nuvens tomam a alma, são mãos que se agigantam sobre todos com nervuras de raios e trovões esturram como feras raivosas. O frio brota de dentro abalando todo o corpo e tingindo as nuvens com medo sangue que enche a boca e impera nos sentidos.
Cerram-se os punhos, fecham-se os olhos, trava-se os dentes e se encolhe enquanto gotas caem sobre o corpo como flechas lançadas da muralha que estronda em violência. O corpo arde com a chuva o encobrindo. Não há forças para sair do lugar. Abraça-se aos joelhos, tenta encobrir os sentidos em presença do que se agigantou.
A chuva vai passando. Trovões rugem ainda, cada vez mais distantes. Não se veem mais os raios, mas não se abrem os olhos; não. Uma brisa vem e abraça o peito disparado. O corpo treme sem frio. A respiração finge normalidade enquanto assina que também somos feitos de medos.

P3N4 – Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. Em processo de organização do livro de contos “Trechos de livros que não escrevi”. Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.
Respostas de 6
A sensibilidade e a profundidade de Nairton são, demasiadamente, apaixonantes.❤️
Ótimo, muito coerente, naturalizado e esclarecedor.
Obrigado pelos olhos e pela alma.
Parabéns, meu amigo! Sua poesia reflete a fragilidade humana, você descreveu muito bem uma das características do ser humano que é justamente a capacidade de sentir medo, aquilo que é do nosso instinto mesmo aqueles que se acham fortes e guerreiros.
O conto que não só entendemos, mas sentimos. Excelente! 👏🏻👏🏻👏🏻
Uma trama se ramificando nas profundezas da terra, busca umidade, água implícita. Pisamos esse chão e sabemos da urdida tempestade porque temos corpos nascidos para sol e chuva. Enquanto isso, nossas raízes continuam na narrativa do subsolo. Sabermos que chovemos nos faz viver. Por entre nossas tempestades, inovamos as leituras de nós próprios. Necessitamos sermos apenas aproximados de nós mesmos. Como águas que voltam a escorrer..