Coluna Guido Viaro: Aeroporto/Capítulo 7

Ilustração: Jesse Lindsay


A noite bem dormida trouxera consequências, sentia o corpo leve e descansado. Atravessou um longo terminal onde o idioma que se falava era latino, talvez o romeno. Não conseguiu identificar ao certo, mas essa deixara de ser uma de suas preocupações. A curiosidade que o dominara no início de sua jornada, agora derretera, e parte dela fora substituída por uma aceitação passiva. Assim que percebeu isso Malraux sorriu, depois sentou-se, e com meia hora contemplando o pouso e a decolagem de aviões, verbalizou uma frase: “Ninguém estranha existir.”        
 
Ele havia prometido para si mesmo evitar reflexões aprofundadas, elas lhe pareciam a porta de entrada para estados de espírito melancólicos, mas dessa vez não teve como escapar, uma correnteza maior que suas forças o empurrava na direção do raciocínio:                                     
 
Há apenas duas possibilidades: existir ou não existir. A existência é uma manifestação física de parte daquilo que não existe. Provavelmente uma parte ínfima. Dentro dessa minúscula fatia, há outra, infinitamente menor, que é representada por aquilo que existe e está ciente disso. Somos os únicos eleitos entre trilhões de trilhões de postulantes. Esse peso e essa honra trazem algumas responsabilidades, a primeira e mais importante delas é refletir sobre essa condição, vasculhar possibilidades, estranhar, escavar túneis de curiosidade e depois concluir tudo com sorrisos construídos com tijolos de sarcasmo sobre pilares de poesia.              
 
Malraux encerrou o raciocínio e saiu em busca de um sorvete, demorou a encontrar, depois de atravessar um longo corredor e duas esteiras rolantes que pareciam não possuir fim, finalmente deu de cara com uma confeitaria onde pediu uma taça com duas bolas cobertas por chantilly e confetes de chocolate. O lugar era ocupado exclusivamente por famílias com crianças, e havia vários aparelhos de televisão mostrando desenhos animados de todas as épocas. Sentou-se em frente a um televisor em que estava passando o filme de animação “Fantasia”, a versão original de 1940, de Walt Disney. O filme bastante inovador para a época é uma mistura de música clássica com imagens, que ora são mais realistas e em outros momentos se aproximam da abstração. No trecho que assistia, a suíte quebra-nozes, de Tchaikovsky, era ilustrada por brinquedos que dançavam e se moviam a uma velocidade que distorcia suas imagens, tudo em cores muito vivas, que pareciam se fundir com as notas musicais. Finalmente, música, movimento e cores, uniam-se, construindo uma realidade independente.
                                                                      
Malraux assistiu ao filme inteiro, que depois de terminado, reiniciava-se automaticamente  . Quando olhou para seu sorvete ele estava inteiro no prato, mas agora sob a forma líquida. Com o auxílio de um canudo, conseguiu bebê-lo sob os olhares de estranhamento dos casais que rodeavam sua mesa. Então permaneceu sentado no mesmo lugar, assistiu novamente ao filme inteiro, conseguindo com que novos pares de olhos o mirassem, e outras bocas cochichassem a seu respeito. Assim que terminou a segunda projeção ele abaixou a cabeça.                                                   
 
Assim como no filme, realidade, perguntas e respostas, também poderiam estar misturadas, e muitos outros ingredientes desconhecidos comporem o cozido que começava a degustar assim que abria os olhos pela manhã. E mesmo quando estava dormindo, o que sorvia, era essa mesma refeição, talvez requentada. Dessa vez ele não sorriu, porque o que encontrara não era o nome da rua que estava procurando, mas uma imensa floresta feita de árvores altas e compactas, que não permitia a entrada de luz, e de onde brotavam gritos primordiais que conseguiam arrepiar os pelos de seus braços. Ao invés do sorriso, um suspiro, depois passo lentos que o afastaram da confeitaria, para alívio dos funcionários que estavam incomodados com sua estranha presença por mais de quatro horas. 
                                                                                                                                             
Arrastou-se até um grupo de bancos que davam de frente para uma farmácia. Passeou os olhos pela vitrine, que era bastante colorida, verdes e alaranjados, vermelhos-brilhante, cores que flutuavam ali, sem se integrar com mais nada e cuja função era apenas chamar a atenção para facilitar as vendas. Aquilo o irritou e ele virou-se de costas para a vitrine. Sentiu que estava muito longe de seus alvos, e também, e isso talvez fosse pior, não havia conseguido desistir de acertá-los. Essa soma tinha resultado previsível: desilusão. A palavra, em si, não o assustava, mas sabia que ela era como o sorvete que acabara de tomar, derretia, e depois, ao contrário do sorvete, se decompunha, cheirava mal e era infecciosa, distruía a alma e depois o corpo.  
                                                           
Arrependeu-se de não haver embarcado para a Mongólia, Angkor Wat ou qualquer outro lugar. Já gastara boa parte de seu dinheiro, mas talvez ainda possuísse o suficiente para um destino europeu, Bulgária, Romênia, um mergulho do lado de fora do lago do cotidiano, outras águas poderiam ser úteis para que lavasse os próprios olhos e descobrisse que boa parte do que acreditava ser realidade, não passava de sujeira. Dessa vez conseguiu sorrir, sorriso pálido, tímido, insuficiente para que criasse coragem e invadisse a floresta escura. Uma ideia brilhou, como o frasco alaranjado de vitaminas que estava à venda, entrou na farmácia, talvez existisse algum tipo de medicamento que facilitasse sua tarefa. Passeou pelos corredores desviando dos solícitos atendentes, não saberia o que pedir. Todos os remédios que poderiam de alguma maneira interferir em seu raciocínio, necessitavam de prescrição médica. A ideia deixou de brilhar e ele encerrou o caso comprando pastilhas de menta.                                            
 
Não havia saídas mágicas. Talvez nem ao menos saídas existissem, e os caminhos se emendassem uns nos outros, conduzindo cada um a outros corredores, que poderiam ser chamados de desafios, o que fazia com que, no fundo, só o que importasse fosse o movimento. Isso enquanto ele ainda existisse. Depois caberia a outro ator encenar a peça do movimento. Ele olhou para o lado e assistiu ao grande movimento que acontecia naquele horário, então verbalizou: “A máquina está funcionando.”                                                                                                                             
Ela pulsava a todo vapor e ele se sentiu como uma engrenagem, isso já havia acontecido outras vezes, mas em nenhuma ocasião essa sensação havia siso tão mal interpretada por si mesmo. Experimentou uma repulsa por seus corpo, seu rosto, seus olhos, e principalmente por aquilo que havia atrás deles. Detestou ser Malraux e tudo o que aquilo representara e continuava representando. Se naquele instante pudesse apertar um botão que o transformaria em outra pessoa, não hesitaria. Então as pontas incandescentes de suas dores receberam um alívio, uma ideia emendou-se a seu último pensamento e enquanto recebia atenção diminuía suas penas: Se a mesma ideia ocorresse a todos os suicidas, em vez de deixarem de existir com a morte, se transformarem em outras pessoas, mesmo que essas pessoas fossem inventadas por eles. Uma espécie de reinício de vida utilizando-se do mesmo corpo. Muitas vidas seriam poupadas, e depois, mesmo que essa vida de papel fosse rapidamente derretida pelos dias, o movimento das marés se encarregaria de levar para longe o desejo do fim.
                                                                                  
A ideia foi arrancada do chão com raízes e não deixou possibilidades abertas, era trapo esperando a dissolução. As dores voltaram e Malraux se transformou em um grande dente inflamado que latejava. Caminhou, pois ainda se lembrava que o movimento era a mais robusta das forças, mãe de todo o resto. Foi quando avistou as portas de saída do aeroporto, em outra ocasião havia sido tentado por elas, mas agora elas pareciam um buraco no gelo para o mergulhador que se perdeu na noite escura e subaquática do Polo Norte. Do lado de fora raios de sol pareciam no auge de suas forças, alguns deles se espalhavam pelo carpete que marcava a transição entre o aeroporto e o mundo exterior.                                                           
 
Ao se aproximar da porta sua velocidade diminuiu, ele desconfiou que a transição não seria tão fácil quando parecia. Então parou de andar e tentou enxergar o máximo que conseguia daquilo que havia do lado de fora. Foi quando percebeu que do lado de fora das portas ainda havia uma grande zona de influência do aeroporto, na verdade tudo funcionava cem por cento em função daquilo que havia do lado de dentro das portas. Enxergou algumas árvores, um ponto de táxi, e um enorme depósito de carrinhos para bagagem. Viu algumas pessoas caminhando, mas elas se pareciam exatamente com aquelas que estavam do lado de dentro do terminal. Depois de alguns minutos de observação percebeu que muitas delas entraram e agora passavam ao seu lado.                                                                
 
Para que entrasse dentro do mundo que deixara para trás, precisaria caminhar bastante ou então entrar dentro de um daqueles táxis e pedir para que fossem até algum lugar. Mas qual seria esse lugar? Tinha dúvidas, e se não estivesse mais em Paris? Esse era seu receio, mas dentre todos era o que possuía menor tamanho. Se estivesse em outra cidade sempre havia uma referência “O melhor hotel”, “O centro da cidade”, “A cidade velha”. O que temia de fato, mesmo sabendo ser pouco lógico e verossímil, era ser informado pelo motorista, que não poderia obedecer a seu pedido e ir até aquele determinado lugar, isso porque aquele lugar, como qualquer outro que viesse a propor, não existiam. Então perceberia que era uma consciência envolta pelo nada. O movimento, a partir desse instante, ocorreria apenas dentro de si mesmo, nada jamais se moveria do lado de fora de sua consciência. E essa era a maior das condenações a qual um homem pode estar sujeito.  
                                                                                                    
Cansado de ficar em pé, sentou-se em uma das cadeiras que ladeava as portas de saída. No princípio achou que havia sido uma boa ideia, pois se ficasse por muitas horas ali, acabaria encontrando diferenças entre o que havia dos lados de dentro e de fora. Sentiu pesar sobre seus pulmões uma pressão que não permitia mais que ficasse ali por mais um segundo, ou mergulhava de vez nesse novo ambiente, ou voltava para aquele com o qual havia se acostumado. Ele foi conservador, levantou-se e continuou caminhando. 
                                                                                                        
Aos poucos seu peito foi sendo aliviado daquilo que carregava, junto com a carga também foi embora a angústia que lhe feria a alma. Sobraram feridas que começavam a cicatrizar. Ele orgulhou-se de sua escolha. Cada novo passo o afastava da porta de saída, e eles foram certeiros e rápidos, optou pela proteção do primeiro andar. Mergulhou no universo colorido das lojas de lembranças, havia de tudo “Eu amo NY”, “Estive em Bali”, “Deixei meu coração em Dubai”, comprou um moleton escrito “Eu estive na Disney de Hong Kong” e uma bolsa com a insígnia da universidade da Califórnia UCLA. Então percebeu que não fazia sentido carregar uma bolsa vazia, encheu-a com algumas camisetas, uma bermuda estampada com uma palmeira e duas pequenas torres Eiffel. Depois instalou-se em uma lanchonete de fast food acompanhado por uma bandeja cheia com todas as formas possíveis de gordura. Depois da refeição passou na farmácia para comprar uma pastilha de menta e foi nesse instante que percebeu como o volume de notas que carregava em seu cinto havia novamente emagrecido. Antes robusto e vivo, agora se apertasse o maço entre o polegar e o indicador, sentiria as pontas de suas unhas se tocando.    
                                                                                                                
Essa magreza fez com que se lembrasse que ainda tinha algum dinheiro no banco. Assim que encontrou um terminal de banco eletrônico enfiou seu cartão no orifício devido, e leu na tela uma mensagem que dizia que seu cartão seria retido pela máquina por problemas relativos à segurança. Ele poderia regularizar sua situação em qualquer agência física de seu banco, ou então telefonar para um número que era indicado, depois de haver preenchido um cadastro online, e então receberia o novo cartão no endereço que havia cadastrado. Malraux vasculhou sua memória tentando se lembrar se, desde que havia entrado no aeroporto, havia visto uma agência de seu banco. Não se lembrava, mas se ela existisse deveria estar no primeiro de todos os terminais, depois disso era pouco provável.    
                                                                                                                   
Aquilo era um problema, mas decidiu que não deixaria com que seu humor, que vinha melhorando desde que se afastara das portas de saída, voltasse a perder cores. Manteve um sorriso no rosto e até verificou em um espelho se ele estava mesmo lá. Confirmada a presença, percebeu a fragilidade do objeto em questão, um sorriso protocolar, amarelado, estava ali contra suas vontades, cumpria papel destinado a saciar desejos diferentes dos seus. Mesmo assim não deu importância a essa constatação. Se analisasse à fundo todos os sorrisos que aconteciam ao seu redor, os resultados não seriam muito diferentes.                                               
 
Entretanto, mesmo sem mexer na dosagem de seu humor, tomou uma decisão: economizaria seu dinheiro, duas refeições por dia seriam mais do que suficientes. Nada mais de hotéis, restaurantes caros e compras desnecessárias. Então examinou o conteúdo de sua sacola. Enfiou uma das camisetas no bolso da calça e todo o resto, incluindo a sacola, enfiou em uma lixeira. Continuou caminhando e após alguns passos percebeu que o volume da camiseta o atrapalhava. Tirou a camisa e também a jogou no lixo, vestiu a camiseta, estampada com a foto de alguma banda de rock alemã, verificou se as poucas notas que possuía ainda estavam em seu devido lugar, e prosseguiu com a leveza daqueles que chegam ao aeroporto para uma longa viagem de férias.                                           
 
A luz que vinha de fora possuía uma leveza de outono e um novo terminal acabava de abrir suas portas. Era amplo e muito bem organizado, a decoração parecia um pouco excessiva e todos os funcionários tinham traços árabes e falavam um inglês que, apesar de eficiente, servia apenas para conversas simples e práticas. Havia muitos carrinhos elétricos dirigidos por funcionários que conduziam idosos e pessoas com dificuldades de locomoção, eles trafegavam sobre pequenas estradas pintadas no chão em vermelho, ele precisou se acostumar com buzinadas indicando que atrapalhava o tráfego, até perceber que havia um caminho livre dos carrinhos e utilizado apenas por pedestres. Caminhou por ali, os pedestres contavam até mesmo com um caminho de paralelepípedos artificiais, projetados no chão e que serviam para humanizar o longo trajeto construído em chapas brancas de granito.                                                              
 
Havia também algumas projeções laterais que transformavam paredes vazias em ruas arborizadas, montanhas e castelos. Malraux deixou-se conduzir pelo mundo virtual até que, quando menos percebeu estava diante de uma aglomeração de pessoas em frente a algo sólido. Custou a entender do que aquilo se tratava, uma placa informativa contava a história daquela reprodução feita em chocolate da Catedral de Colônia, na Alemanha. O artista belga havia usado sete toneladas de chocolate para construir a réplica em uma escala de 1 pra 10. Centenas de aparelhos de celulares rodeavam a escultura tentando aprisioná-la, juntamente com a imagem do proprietário do telefone, dentro de sua pequena tela de cristal líquido.  
                                                                                                     
Malraux rodeou o grupo, procurando observá-lo de todos os ângulos possíveis. A estátua, apesar de imponente, era de uma banalidade atroz, e talvez a única razão pela qual atraía interessados era o fato de ser feita em chocolate. Mas ele não queria saber dela, muito mais interessante eram os sorrisos que a circundavam. Todos invariavelmente amarelados e rasos. Então foi fisgado por uma pergunta: “Haveria sorrisos diferentes?” Talvez avermelhados, cheios de veias e sumos, prontos para escorrer um vigor que a terra pesada do tempo não tira o brilho. Não soube responder, espalhou os lábios e permitiu que dentes amarelados ganhassem a luz do dia, mas não quis descobrir formas e tonalidades no espelho que havia próximo.
                                                                                                     
Sentado em uma cadeira vizinha à catedral assistiu à várias gerações de celulares fotografarem a reprodução. A noite ganhou corpo e o movimento diminuiu, quando os voos rarearam, um guarda se instalou ao pé da catedral para vigiá-la durante a madrugada. Malraux pode notar que o homem, um obeso de mais de sessenta anos, não demoraria a pegar no sono. Ele então fingiu-se de adormecido, e pelo vão de seus cílios percebeu o exato instante em que o vigia dormiu. Esperou alguns minutos até ter certeza de que o vigia estava mergulhado em sono profundo. Então aproximou-se, na placa informativa leu que a catedral original era local de descanso das ossadas dos Três Reis Magos. Essa informação despertou-lhe uma curiosidade grande que foi saciada instantes depois quando percebeu que a reprodução era apenas da parte externa da catedral, o interior deveria ser composto de um imenso bloco de chocolate maciço. 
                              
Caminhou ao redor da igreja, reparando nos detalhes, o rosto assustador das gárgulas, a imponência das duas torres, os santos esculpidos na fachada. Quando criança ele havia visitado a catedral em uma excursão da escola, lembrava-se vagamente da grandiosidade do lugar e das cores, os tons de escuro se misturando com dourados, não tinha nenhuma recordação dessa história de ossos dos Reis Magos, mas se recordava de uma mulher muito velha com a cabeça coberta por um lenço colorido que rezava olhando para o altar principal e tinha os olhos molhados de lágrimas. Lembrava-se como, de maneira disfarçada, a observou, até que as lágrimas finalmente rolassem, e ele, do auge de seus dez anos, se perguntasse que espécie de tristeza as havia originado. Naqueles dias, a maioria das razões que conhecia eram causadas por dores físicas. Então acabou deduzindo que era isso que acontecia com aquela mulher, talvez estivesse lá pedindo para que Deus acabasse com a dor de dente que sentia. 
                                                                                                                   
Essa recordação trouxe-lhe algo estranho. Por um instante sentiu-se como a velha mulher que havia visto chorar enquanto rezava, mas depois as coisas pioraram. A presença daquela desconhecida ocupou todos os cantos de seu ser, ela, e todas as suas dores, se transformaram nele, então ele compreendeu que não era uma dor física o que dilacerava o espírito daquela mulher. Escutou sua história e depois a viveu, encontrou-se com todas as perdas acontecidas durante a vida daquela mulher, depois ouviu as perguntas gritadas contra um céu escuro, pintado de estrelas e insolente de tão belo, perguntas que só eram respondidas pelo eco da própria voz, e que por isso, faziam com que seus órgãos internos vibrassem como um sino espalhando música. Mas essa era uma pesada canção fúnebre, repleta de desalento, que descrevia inflamações da alma, tromboses em veias de esperança e úlceras em lagos de alegrias.                            
 
Malraux percebeu que precisaria agir rápido, caso contrário a velha chorona assumiria de vez seu lugar. Tentou afundá-la dentro de sua memória mas ela ressurgia como um corpo amarrado a uma pedra, mas que insiste em vir à tona. Ela voltava com olhos ainda mais chorosos, gritando seu nome e o acusando de tentar matá-la. Ele não podia mais perder tempo, a dor física, ao contrário do que poderia parecer, poderia ser a solução. Sem fazer muito barulho, chutou com toda força uma coluna de concreto. Sentiu a unha do dedão se quebrando e ondas de dor se espalhando por todo o pé. Então, em um impulso sem explicação, aproveitou-se da proximidade com a catedral e arrancou de uma só vez, uma das gárgulas de chocolate que prometia afastar dali os maus espíritos. Arrancou-a e enfiou uma grande parte dela imediatamente na boca. O gosto do chocolate serviu como anestésico parcial das dores que sentia no pé.
                                                                                                                           
A maior parte da gárgula sobrevivera intacta, e o mirava com olhos ameaçadores. Pensou em recolocá-la em seu lugar ou jogá-la no lixo, acabou escondendo-a dentro da camiseta, sobre o ombro, que imediatamente ficou manchado com cor de chocolate. Nenhuma de suas ações tivera testemunha, mas ele sabia que precisava sair dali o mais rápido que pudesse. Logo no primeiro passo percebeu os efeitos devastadores do chute. A dor havia escalado até a altura de seu joelho e de agora em diante sua mobilidade seria diminuída. 
                                                        
Entrou no banheiro e examinou a extensão dos danos em seu pé. A meia estava ensopada de sangue e o pé levemente inchado. Com cuidado e dores conseguiu retirar a meia e lavar o sangue. A unha do dedão estava rachada ao meio e parecia haver penetrado na pele com o impacto do chute. Ele lavou a região, depois fechou os olhos e arrancou os dois grandes pedaços de unha deixando o dedo em carne viva. Um urro de dor se espalhou pelo banheiro e espantou dois passageiros que haviam acabado de entrar. Deitado no chão sentiu seu pé latejando, os primeiros minutos foram acompanhados por gemidos, meia hora depois conseguiu ficar em pé e entrou na farmácia carregando os sapatos na mão, e marcando o chão com uma linha vermelha que saía do banheiro e explicava para quem desejasse, qual havia sido o caminho percorrido até chegar a farmácia.  
                                                                                                             
O farmacêutico desinfetou o dedo, o que o obrigou a assustar clientes com um grito dolorido, depois fez um curativo que deveria ser trocado diariamente, e então prescreveu um anti-inflamatório e uma caixa de analgésicos. Ele também comprou material para refazer o curativo por alguns dias. Não poderia mais usar os sapatos nem andar descalço, então assim que saiu da farmácia foi obrigado a comprar chinelos confortáveis.   
           
O pior parecia haver ficado para trás, o dedo ainda latejava um pouco, principalmente quando andava, mas a dor era discreta. Sentiu um sono que não costumava vir nesse horário, e que provavelmente era efeito dos remédios que havia tomado. Procurou resistir, lembrou-se da gárgula de chocolate que sobrevivera a todos os percalços e que derretera apenas parcialmente escondida em seu ombro. Retirou-a de lá e devorou sua cabeça. Minutos depois o açúcar havia cumprido sua tarefa e passou a se sentir mais desperto.   
                                                                                                              
O curativo, feito de gaze e esparadrapo brancos, começava a ganhar tons avermelhados. Mesmo assim ele considerou virada a página daquele episódio. Lembrou-se de Andrè Malraux, e de todas as tragédias que insistiam em o perseguir ao longo de sua vida, e de sua energia pessoal, apesar de tudo sempre conseguira virar as páginas, fabricadas em papel muito mais denso do que aquela que virava nesse instante. Mas, por outro lado, a situação estava clara, cada página virada o aproximava mais daquele instante em que não haverá mais páginas a serem lidas, e o livro termina de contar sua história, para, aos poucos, começar a ser esquecido. Assim foi com André, e assim acontecerá com ele. E também com a bela aeromoça que nesse instante passava à sua frente, todos invariavelmente sorvidos pelo buraco negro do esquecimento.                                                            
 
No banheiro refez seu curativo procurando olhar o menos possível para o espaço vago deixado pela unha do dedão. Depois, mesmo sem fome, decidiu que uma refeição lhe faria bem. Lembrou-se das notas de seu cinto de dinheiro, se ainda não eram um animal extinto, havia uma ameaça pairando no ar. Passeou pelo imenso lobby repleto de opções gastronômicas, como precisava economizar passos ainda mais do que dinheiro, escolheu os primeiros restaurantes que viu, todos eles tinham cardápios afixados na entrada onde constavam os preços. Nada era barato, pelo contrário, uma refeição ali, colocaria definitivamente as poucas notas que ainda possuía, na lista daqueles em perigo de extinção. Enquanto passeava os olhos pelo cardápio do terceiro restaurante, um recepcionista vestido com roupas típicas árabes o abordou e começou a explicar-lhe em um inglês bastante razoável, a origem e os ingredientes de cada prato. Malraux olhou para o rapaz, que tinha boa aparência, mas começava a perdê-la, reparou em suas sobrancelhas milimetricamente aparadas e em seu vigoroso bigode, ao qual deveria dedicar uma boa meia hora diária para que os fios fossem tão obedientes e unanimemente escuros, então rapidamente imaginou sua história: sonhos, paciência, desilusões, antes que avançasse em seu raciocínio e sua garganta fosse bloqueada por algum nó, aceitou o convite para entrar no restaurante.             
 
O funcionário então mostrou que embaixo do bigode se escondiam dentes mais brancos do que a natureza permitia. Pela alegria demonstrada, Malraux teve certeza de que alguma espécie de comissão o recepcionista deveria receber. Então o homem sussurrou algo próximo de seu ouvido que ele custou a entender, só após a terceira repetição ele compreendeu que ele iria arrumar uma mesa próxima do palco das dançarinas do ventre. No cardápio não havia nenhuma menção à dançarinas, aquilo soava como uma clássica armadilha para turistas, pensou em voltar atrás e inventar alguma desculpa, mas o bigode continuava lá, incólume à alta temperatura, imóvel e harmônico, em homenagem a ele, permaneceu no restaurante.                                                                
 
Os preços eram altos, mas para um restaurante temático de aeroporto, não chegavam a ser exorbitantes. Escolheu um combinado de pastas árabes acompanhado por tabule e pão. O prato não demorou a chegar e estava delicioso. Seu pé parara de latejar e o sono artificial havia desistido de o incomodar. Sentiu-se bem, e se perguntou com um sorriso no rosto, onde estava com a cabeça quando decidira chutar uma coluna de concreto. A resposta demorou a chegar, mas quando veio, foi mais curta e porosa do que esperava: “Tudo é tão frágil.”                                                     
 
Quando se preparava para pedir a conta, as luzes do restaurante se apagaram e as de um pequeno palco próximo à sua mesa se acenderam. Uma projeção em letras vermelhas manchou a parede do fundo com uma única palavra: “Sherazade”. Música árabe em volume um pouco acima do indicado começou a soar, e uma moça vestida com uma calça bufante coberta por lantejoulas e onde havia grandes fendas laterais que permitiam ver suas coxas musculosas e brancas, entrou dançando. Além da calça ela vestia somente uma espécie de grande sutiã coberto pelas mesmas lantejoulas da calça, e um véu, que lhe cobria parcialmente o rosto. Seus dedos eram envolvidos por anéis e entre os polegares e indicadores ela tinha pequenos pratos de metal que batia para acompanhar o ritmo da música.                                                                                           
 
Sherazade parecia alta e possuía um vente levemente protuberante. Seus traços eram os de um bela europeia do norte. Seus movimentos ágeis denotavam, mais do que sensualidade, uma sensação de que por ali escorria tanta saúde que a fazia completamente imunizada contra a morte. Sua idade era de difícil definição, mas parecia mais do que suficiente para que ela já tivesse conhecido um número razoável de desilusões. Em respeito à elas, Malraux assistiu ao espetáculo com ares de um crítico teatral ansioso por um espetáculo que todos comentam. Depois percebeu que, em menos de uma hora, era a segunda vez que homenageava algo. Talvez fosse um desejo escondido de que outros descobrissem um talento que, ele mesmo desconhecia.                                                  
 
Depois de um intervalo de dez minutos, Sherazade voltou vestida com uma roupa igual à primeira, mas de outra cor. Dessa vez era o negro que emoldurava seus movimentos, que eram idênticos aos da primeira parte do espetáculo, mas tiveram sobre Malraux um efeito distinto. Ele mergulhou em seus grande olhos verdes, olhos que pareciam não possuir raízes, flutuavam em superfície escura como faziam os personagens do filme de animação Fantasia. Ela deveria possuir uma nacionalidade e uma história, deveria ter um nome, que certamente não era Sherazade, deveria  ter documentos e muitos outros vínculos, burocráticos e emocionais, que a amarravam a ancoradouros e faziam com que conseguisse emendar seus dias sem que se sentisse uma náufraga em alto mar. Com a nau bem atada ao cais, ela se construiu, nasceram as certezas, depois a terra molhada começou a ser incomodada por algo que vinha de suas entranhas, e logo foi atravessada por um broto chamado personalidade, ele amarrava-se às raízes que sustentavam a planta, e que eram responsáveis pela consciência de se existir. Depois, tudo precisou ser catalogado, uma denominação dada por outros, que não se ajustou bem ao destino que a própria planta julgava possuir. Até que um dia ela mesma muda seu nome para Sherazade.   
                                                                                                                   
Assim que colocou no pires as notas correspondentes à conta, Malraux percebeu que só lhe sobrara uma, e das pequenas. Assim que saiu do restaurante enfiou o seu cinto de guardar dinheiro em uma lixeira. Antes de guardar a nota remanescente no bolso, decidiu que iria gastá-la. Saiu da farmácia com os bolsos cheios de pastilhas de menta e mais nenhum dinheiro. Enquanto sentia sua garganta sendo gelada pelas três pastilhas que enfiara na boca ao mesmo tempo, experimentou uma mistura de temor com alívio. Os minutos derreteram como pastilhas mergulhadas na saliva, e junto com eles quem diminuiu foi o medo, que apesar de continuar existindo, já era bem menor do que o alívio de nada possuir. 
                                                                                                                                    
Urgiam tomadas de decisão: O que comeria, como sobreviveria? Mas, elas, as decisões, eram gritos cada vez mais distantes, e uma paz com o sabor de menta, se transformara em uma piscina, que anestesiava dores e distendia nervos. Então tudo se transformou em um sorriso tão vasto que não conseguiu reter grossas gotas de saliva que se acumulavam nas esquinas de sua boca. Seus pensamentos vadiaram e voltaram à Sherazade, primeiro à dançarina, depois à outra, a suíte sinfônica escrita por Rimsky-Korsakov em 1888. A voluptuosa música misturava o espírito russo a influências do Oriente, algo parecido com o que havia visto no espetáculo de dança.   
                                                                                                                
Então algo estranho aconteceu, sua boca se abriu, derramando outras gotas, mas junto com elas vieram os restos desgastados das três pastilhas de menta. Desabaram sobre suas pernas sem que nem ao menos ele percebesse o que havia acontecido. A boca permanecia aberta e os olhos vivos estavam fixos em um ponto. Se todas as estrelas se apagassem, e a escuridão se instalasse no universo, eles seriam a única fonte de luz que passaria a existir.  


Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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