
Pão com manteiga, é isso — uma memória gustativa tornada afetiva. Depois, para empurrar, uns goles húmidos de uma meia de leite quente. E tudo se mistura no palato, no tempo animal da boca.
No prédio em que morava até me casar, não havia elevadores. Subia e descia várias vezes ao dia os lances de escadas e respetivos patamares até chegar ao terceiro esquerdo. À hora das refeições, ia adivinhando a comida dos vizinhos apenas pelo olfato: guisado de coelho, caldeirada, peixe frito, bifes, peixe cozido.
Era um tempo de proximidade. Era, por isso, o tempo do olfato — um sentido de presença.
Frequentemente visitava todos os andares do prédio. Era mais do que uma pequena aldeia: era quase uma família. Como não tínhamos telefone, usávamos o da vizinha de baixo. Posso ainda recordar a vizinha Mira gritando para a minha mãe: “Oh Paula, é o Zé!”, anunciando o telefonema, ao que a minha mãe respondia: “Ai o malandro, já sei que não vem jantar.”
Ou mesmo o alarme à janela das vizinhas por causa da roupa estendida: “Oh Paula, está a chover.” E logo a minha mãe corria a recolhê-la.
Ontem, um vizinho dizia-me que a sua aldeia estava deserta. Olhei para o prédio de 27 famílias onde moro há 33 anos e, apontando-o, disse-lhe: “Oh Pedro, esta é agora a nossa aldeia.”
Queluz, 11 de abril de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.