O tempo desmanchou teus lindos desenhos

Vincent van Gogh. A ponte Trinquetaille em Arles. 1888.


Calçamentos de pedra, ladeira acentuada, minha mãe levando-me pela mão: é apenas o caminho de volta. Mas, aos seis anos, tudo é fascinante em qualquer caminho.
 
O papagaio habita a casa junto à quitanda: há uma argola de ferro para suas acrobacias e caixotes de maçã sobre os quais ele ama passear. Silencioso e pouco alegre, ele me atrai. Mamãe explica que é uma ave muito velha. Talvez viva assim infeliz por não poder morrer. Por não saber morrer quando deseja.
 
Em um dos filmes mágicos que me serviram à infância, um artista pintava paisagens no chão da praça. Pincéis amarrados a varetas, tinta ordinária e panos imundos, estendia um boné aos que passavam, e assim ganhava a vida. Essa praça era o caminho diário de uma garçonete a quem dedicava suas precárias maravilhas, sabendo que ela lhe admirava o talento, mantendo com ele um discreto envolvimento, entre breves e simpáticos diálogos. Certa vez, enquanto ele lhe mostrava algumas de suas novas criações, começou a chover, e todos assistiram desconsolados à dissolução das vivas paisagens, tornadas borrões de tinta sem sentido. As pessoas rapidamente se dispersaram, e a moça então lhe disse, solidária:
 
“Oh, Pierre… A chuva desmanchou teus lindos desenhos.”
 
Ele moveu os ombros, não sem alguma tristeza.
 
“Não tem importância. Faço outros.”
 
Nossos nomes eram parecidos, e isso me fazia menos sozinho: o que mais eu queria, como ele, era desenhar.
 
Rever o que já existe é um trabalho infinito. A lembrança do papagaio triste é de uma rara e profunda sinceridade. Em meu íntimo, ele passeia ainda sobre os engradados de maçãs sua humildade, seu silêncio.
 
Imaginei pintar o caminho de pedras, o papagaio solitário. Mas lembram-me a ladeira, o portão de casa? Reconheço as mãos de minha mãe ou o caminho de volta? Posso recordar com pincéis o que tanto foi meu, o que ainda me incomoda e encanta como aos seis anos de agora?
 
O que hoje se faz maior do que minha obstinada busca não são propriamente as lembranças. Não é o caso de se reviver o medo e a ternura de meu pequeno mundo ou pintar o mesmo quadro outra vez. Mas o que, aos poucos, pressinto e compreendo, o que me adianta o tempo com sua amostra de vinte anos, minha jovem mãe e a ladeira da infância, longamente perdida, tudo o que sempre passa por mim. E acreditar que o que sou ainda sou eu, e não outro.
 
Não há mérito artístico nas poucas telas que ainda guardo. Pareceu-me rever a jovem do filme, desta vez dirigindo-se a mim:
 
“Oh, Pierre… O tempo desmanchou teus lindos desenhos.”
 
E não a consolo. Nem lhe respondo.



Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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