
Podia filmar, fotografar, ou mesmo pintar esta paisagem que daqui vejo, com o rio ao fundo. Mas escrevo. Talvez porque a escrita se incline mais para dentro, para esse lugar onde o mundo toca a consciência antes de ter nome. A paisagem não é apenas o que está ali fora. É o que em mim se acende quando a olho. Escrevê-la é segui-la no instante em que aparece, sem lhe pedir sentido, sem a corrigir. Nem toda a escrita é assim.
A escrita fenomenológica não suplica, não moraliza, não explica o mundo. Recebe-o. E, ao recebê-lo, prolonga-o através da mão que se move sobre o papel, no pulso que insiste, no sangue que atravessa o corpo, como o rio que, ao fundo, continua a passar.
Entre silhuetas anónimas dos telhados corre o rio Tejo. E Lisboa é o rio. O resto parece-me arrabalde conquistado ao mato e às encostas por quem ficou à espera de quem chegava ou partia rio abaixo, rio acima. Daqui de cima, o rio marcha. Afoga-se mar adentro, como um suicida budista, como flor de jacinto trazida pela maré.
A encosta conhece o rio como ninguém. Por isso me encostei nela para contemplar o fluxo distante das águas. Agora faço parte da encosta, ainda que de outra natureza, que não geológica. Sou a parte vigilante que leva e traz, a partir da encosta, o rio num bloco de notas.
Que bem me fazem os mortos, sobretudo os que jazem aqui ao lado no Cemitério da Ajuda. Ali ficaram avós, os tios-avós, os bisavós — troncos e ramos destas folhas mais ou menos verdes, destes rebentos recentes.
Essa é a questão vital: que parte da planta melhor representa o indivíduo? A raiz, o tronco, o ramo, a folha, a flor, o fruto, ou in extremis a semente? Todas elas, talvez. E ao mesmo tempo. Cada uma possibilidade de existência transformando, sem cessar, a semente original num ciclo aparentemente infinito.
Lisboa, 9 de maio de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.