
Créditos: Julgamento de Galileu Galilei.
Desenho feito por IA, sob prompt do autor
Com um olhar cirúrgico sobre a Inquisição portuguesa, Geraldo Pieroni faz um relato assustador sobre esse período negro da história do mundo, com a autoridade que lhe conferem os títulos de Doutor em História pela Université Paris-Sorbonne e Professor do Departamento de História da Universidade de Brasília. Quando eu pesquisava para o meu livro “Tragam-me um espadachim!” (Nova Aliança, 2018), utilizei como uma de minhas fontes o livro “Banidos – a Inquisição e a lista dos cristãos-novos condenados a viver no Brasil”, que Pieroni publicou pela Bertrand Brasil, em 2003.
Pesquisando para outro livro, intitulado “Órfãos do Império” (Nova Aliança, 2021), encontrei um PDF de 16 páginas, assinado por ele, intitulado: “O ar de Portugal faz os judeus?”. São relatos parecidos, mas chama a atenção a crueldade com que a Igreja tratou os Cristãos-Novos no século XVII, ou até mesmo a partir de 23 de maio de 1536, quando o papa Paulo III instalou em Portugal o Tribunal do Santo Ofício, sob o reinado de D. João III, a partir da cidade de Évora. Não precisava muito para que uma acusação qualquer chegasse aos inquisidores, para submeter os acusados aos Autos de Fé que serviam de espetáculo público. “O degredo foi um dos castigos preferidos pelo Santo Ofício”, diz Pieroni. E a colônia preferida de Portugal, o Brasil, foi um dos destinos mais procurados. As penas variavam de 3 a 5, 7 ou 10 anos ou até o degredo perpétuo, quando a vítima jamais voltaria à sua terra natal, privando-se de rever os seus familiares e amigos.
As acusações de judaísmo e heresia beiravam o absurdo. No caso dos Cristãos-Novos, que eram judeus obrigados à conversão ao catolicismo, as perseguições os levavam a esconder suas virtudes judaicas e a assumir a cristandade para sobreviver. Muitos, no calor das acusações, denunciavam filhos, pais, mães ou qualquer um que aparecesse à frente e que servisse para atenuar suas penas e salvar a pele. As penas eram duras: uso de hábito penitencial (sambenito), degredo, galés, fogueira, instrumentos diversos de tortura, confisco de bens, abjuração pública (arrependimento), prisão…
Maria Dias, de 64 anos, teve sua vida destroçada pelo Santo Ofício. Condenada à morte por judaísmo, no Tribunal de Évora, em 9 de outubro de 1695, denunciou o irmão e uma tia, e ela própria havia sido denunciada nos processos de duas irmãs, uma filha, um irmão e uma sobrinha. Foram 40 mil vítimas mortas pelas mãos dos inquisidores portugueses, sendo a metade queimada na fogueira. Na Espanha, por onde a Inquisição começou, 300 mil pessoas foram condenadas e pelo menos 30 mil foram executadas, até 1834, quando esse período nefasto foi abolido da história. Estima-se que no Brasil pelo menos 300 pessoas morreram nas mãos da Inquisição. Imagine quantos mundo afora…
Foi o papa Gregório IX o responsável por criar a Inquisição, em 1233, com a finalidade de combater a heresia entre aqueles que negavam a verdade da fé católica. O julgamento maios famoso foi o de Galileu Galilei, condenado por suspeita de heresia, ao considerar que a Terra girava ao redor do Sol. Hoje, em pleno século XXI, os tribunais continuam julgando pessoas pelo que pensam.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).