Inventário de brilhos breves e sonhos extintos: Perce Polegatto

Imagem: Objetos pessoais. 2026 (foto do autor)

Nossa rotina e os compromissos e os afazeres vão se dispersando de um dia para outro. E todos esses dias, a cada viagem da lua, vão desaparecendo para nós. Depois, desaparecendo de vez. Objetivamente. Sem nós aqui a passar por eles, tentando retê-los, e à sua inutilidade, na memória fraca e fantasiosa. Um dia, perderemos todos os dias. Sorrindo em paz ou em sobressalto. Com um tiro, sem se dar conta – ou acertadas todas as contas. O fluir da música predileta ou o furioso ataque do vulcão. Hora de se entregar, sem mais. Sem mas. Mas você, mas você que não compreende, que se supõe uma pessoa e tanto, tenta resistir, resistir assim mesmo, sem o menor traço de sabedoria, guerreiro cósmico, bancando o herói: que mérito há nisso? Então o quê? E daí? Daí que deveríamos pensar em coisas maiores do que nós, como os sucessivos legados da arte e da ciência, então alguma coisa faria melhor sentido se todos nós… Ah, mas não é nada disso. Ah, mas nós quem, nós o quê?
 
O que me oprimia no momento, entre obscuros impulsos de não querer, era minha antiga e nunca definida relação com os objetos. Mirando sem rumo um ou outro item por ali, senti mais uma vez aquele leve mas recorrente incômodo da posse e da perda. Pensava nas tribos, no que carregavam. Não haver muito a que se apegar, poucos haveres. Um lugar específico, uma casa, um terreno demarcado. Coisas grandes. Coisas pequenas. Objetos que amei e perdi. Pessoas que passaram por minha gratidão tardia. Os gibis que se extraviaram depois de brilharem vivos sob meu triste fascínio. Meu relógio e umas moedas. A noite passa por todos.
 
E minhas ilusões de menino caídas por terra, hoje menos que cinzas, e minhas crenças adolescentes queimadas até o chão, incineradas até o pó, processadas por alguma alquimia invisível, fervendo lenta por trás de meus olhos, e minhas jovens ambições imberbes carregadas água abaixo, arrastadas pelas primeiras chuvas torrenciais, antes que minhas últimas proposições adultas se evaporassem no ar, raptadas por ventos invencíveis. Destruídas por todas as forças da natureza. Acabou como era de ser. Como tinha de acabar. Reciclagem necessária. Tempo e química. Todos nós, em processo: continuidade e cansaço. Minhas palavras, uma vez claras, também condenadas. Olhei o espaço aberto ao redor. Pensei no menino acariciando pequenos animais, cuidando de seu bem para sempre. Um dia seco, de baixa umidade. Caminhar me pareceu difícil.
 
Toquei uma caneta verde. Depois, um peso de acrílico. Um estilete. Estou sujo de sangue, mas não o bastante. São crises breves, creio. Forças fracas. Sempre me defendi, de uma forma ou de outra, eu me recordo muito bem. Recordo tudo muito bem. Colecionador involuntário. Como se catalogasse o que foi meu: amuleto da sorte, bússola de bolso, lupa de aro negro, miniglobo medieval, figurinhas de astronautas… – itens que moravam em meu quarto, pontuados em fases distintas, trincados por microtraumas. Associações inevitáveis.
 
No fim, só a minha história é uma história. Porque foi real. Porque eu sei do que foi. Outras são imaginadas, contadas. A outra é imaginada. Nomes-números para não esquecer. Ninguém sabe como foi. Como era a voz de alguém, o que foi dito de fato, que cheiro tinha seu suor, seu hálito. Trajetórias absurdas, individuais ou coletivas, fracassadas ou triunfantes, quase sempre orientadas por horrores. Só a minha história vale a pena, nenhuma outra. As outras nos chegam em código. Tradução da narrativa. Interpretação do registro. E a história-pesadelo da qual o professor Stephen pretendia libertar-se não é senão mais uma memória tenebrosa de armadas vencidas e mínimos momentos de ilusão. Patriotismo e cinzas molhadas.
 
Em minha pequena vida, meus crimes de criança todos prescreveram. Jamais confessados ao padre rouco, em seu nicho escuro. O tempo os cobriu de areia e pedras. Eu não fiz nada.






Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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