
Minha viagem de dezessete horas foi extremamente cansativa. Quando finalmente cheguei na casa do meu amigo, onde eu ficaria hospedado, não tinha ânimo pra fazer nada que desse muito trabalho.
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Logo, pediríamos um delivery.
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Pato Manso me disse que isso não era problema, mesmo que fosse meia noite e pouco.
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— Essa é a cidade que não dorme bicho! Tem uma gama de opções de comida que você quiser. Curte cachorro quente?
— Hum! Gosto sim — eu disse.
— Os cachorros quentes daqui são sensacionais. Vem mais de uma salsicha, frango, milho, batata palha, purê de batata, queijo, uva passa e ovo de codorna.
— Não gosto de uva passa… nem de ovo de codorna.
— Curte comida japonesa?
— Comi uma vez e curti pra caralho — me apressei a dizer. Realmente tinha gostado muito, mas por achar que talvez eu tenha tido a impressão de que tudo estava bom naquela noite porque eu estava acompanhado da Grazy, minha crush, e por julgar não ser a melhor das ideias pedir delivery de comida crua, optei por dispensar. — Ah, acho melhor não, cara.
— Porra, Sushipeia é sensacional! Pedimos lá, semana passada, uns amigos e eu.
— Sushipeia?
— É. Eles fazem pratos bonitinhos com comida japonesa. Olha.
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Me mostrou a tela do celular, com o iFood aberto. Havia ali uma espécie de centopeia de sushis enfileirados. No que seria a cabeça, tinha anteninhas de enfeite.
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Achei aquilo muito esquisito.
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— Que negócio estranho, cara. O que de diferente e não sem noção tem por aqui?
— Tem joelho de porco.
— QUÊ???.
— É gostoso, mano.
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Joelho de porco tem carne?
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Porcos não estão tão longe evolutivamente da gente, estão?
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Eles não teriam mais cartilagem que carne no joelho? É cartilagem o que temos por ali, não? Ou sou um completo ignorante se tratando de anatomia joelhesca?
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— Não quero isso não, cara — falei.
— Hummmm….
— Pizza — eu disse, não querendo mais ideias excêntricas. — Vocês gostam de pizza aqui, não?
— Galera adora pizza aqui, cara. Eu especialmente.
— Pede uma pizza aí.
— Beleza! De quê você quer?
— Você escolhe. Deve conhecer vários sabores.
A campainha tocou quarenta e sete minutos depois e descobri que o desgraçado tinha pedido uma pizza de sushi.
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— Puta merda, cara! — eu falei pra ele, puto da vida.
Abri eu mesmo o iFood e pedi um cheese burguer. Só que capotei de cansado antes do entregador chegar.

Farrel Kautely é formado em Letras pela UFOP e profissional do livro desde 2018. Como escritor é tão versátil quanto como leitor. Dentre outros, escreveu MarsGo, O homem estrela (ficções científicas), Minúscula Pulga, Nostaulé (dramas), Suhipeia, Picas da galáxia, CyberSex 2090 (crônicas), Madu (romance), O mínimo que você precisa fazer para ser um completo idiota (ensaios), O fantasma da Biblioteca Raveliana (comédia) e Do ovo à omelete: um tratado sobre “o que é vida? e o aborto (divulgação científica). Fundador da Kautely Edições, Farrel tem na literatura um dos seus propósitos de vida.