Sob o fascínio de impressões intensas

Imagem: manipulações digitais como pinturas de Emilie Leger



Três mulheres, ao longo de minha vida e durante meu mundo, tornaram real minha capacidade de amar. Eu não sabia que podia amar. E hoje entendo também que só a elas eu amei, mais a ninguém nunca – nunca jamais, em tempo algum, nenhuma outra, nenhumas outras.
 
De uma delas, nunca tive certeza do nome: ouvira por acaso uma palavra-ela, arriscava três ou quatro variações, na bruma. Brilhava discreta em uma livraria, confundia-se com os livros, eu a confundia com um livro, uma aventura quieta, contida em código. Olhos quase cinzentos, lábios que nunca se fechavam completamente – personagem forte, à procura de um autor.
 
Outra, essa colega de trabalho: acidental, ocasional, avulsa e quase ausente, seu departamento era outro, toda a sua vida era outra, distante, tristante, quadristante de meu alcance. Sua figura especialmente singular (para mim, pelo menos) fazia-se intensa e devastadora a cada vez que eu a reencontrava entre os pátios e corredores da universidade, por sorte, por artes, por nada. Era baixa, pequena, não se destacava em nenhum ponto propriamente. Mas ela toda roubava-me o foco, trazia-me o fogo. Sorria, e eu sorria menos, cauteloso.
 
“Você, sempre linda, não é?”
 
“Imagina, querido: gentileza sua.”
 
Eu me arrepiava com sua voz, absolutamente única. Se alguma vez ela suspeitou de meu amor absurdo deve ter sido por causa de meus olhos molhados de fascínio, sem disfarces, sem defesa. Queria cair ali mesmo, à sua frente: enfermo, enfraquecido, enfeitiçado… Abatido por seu domínio.
 
A outra mulher (não a terceira, não estão em ordem, eu não estou em ordem), não sei ao certo se existe. Mas acho que existe. Porque ela conversou comigo em um sonho marcante, surpreendente arrebatador, no qual nada, praticamente nada, aconteceu. Essa, que não existe, tem a pele clara, um rosto comum, simétrico, belo, cabelos castanho-escuros até a altura dos ombros, caídos na testa, arranjados de um lado e outro, muito sutilmente (penso em presilhas minúsculas), mas desarranjados no geral, com pontas escapando das orelhas e ao redor do pescoço. Eu a encontrei por duas vezes, no mínimo, e agora não sei se conversamos de fato ou se ela apenas esteve comigo nas profundezas suaves de uma noite mágica.
 
O fato, já que estamos falando de fatos, é que ela existe sim: nós nos vimos e nos falamos um dia, antes que ela se transformasse nessa ilustre iluminada presença em um de meus sonhos mais nítidos. Ela fala comigo sem que eu ouça sua voz. Nunca a vi sorrindo. Percebo que se mostra um pouco preocupada, naturalmente, sendo assim como é, um tanto inquieta, mas sem alarde. Deve carregar coisas difíceis. Alguma claridade parece estreitar-lhe os olhos, e ela olha para mim como se mirasse um horizonte longínquo, sob o sol.
 
Teria sido assim quando nos conhecemos em carne e sangue? O que sei, com toda certeza, é que eu a amo nebulosa e imensamente. Procuro, com grande esforço, recordar de quando estivemos juntos, se em outra cidade, se vinda ela de outra cidade alguma vez, nós a meio passo um do outro: o que teríamos dito, que não me ocorre claramente nem mesmo em fragmentos? (Esse esforço para encontrá-la em meu passado é semelhante à obsessão inofensiva que motivou minha busca por um trecho musical de aproximadamente 18 segundos, vivo em minha memória aguçada, mas sem identificação, até quando o reconheci no finale de um concerto para piano de Prokofiev.) Talvez, se mil vezes eu revisitar seu rosto falando a mim sem palavras, reencontre o momento real em que ela existiu tão próxima, fora de meu sonho.



Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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