
No Nó Nos Noz. Essas palavras apareceram escritas nas areias da praia. Isso foi em um tempo quando o homem ainda não contava o tempo. Os dias atravessavam o horizonte sem precisarem ser contados. Havia o mar, tão azul quanto algo pode ser. As areias brancas intocadas que terminavam em terra escura. O bosque de laranjeiras e os grandes paredões de pedra, de onde quem quisesse poderia avistar a serenidade das águas e o encontro delas com o céu. Fronteira que, em dias claros, confundia-se.
Era do alto dessa elevação que mulheres e homens, vestidos com suas túnicas brancas, faziam suas perguntas e nunca escutavam respostas. Estavam ali, sabiam que seus avós também tinham estado ali, então desejavam saber se a paisagem poderia oferecer alguma resposta. A primeira grande questão era: poderiam não estar ali, ou não estar mais, ou então voltarem a não estar? Caso isso acontecesse, para onde iriam? Para algum lugar, ou para o nada? Quando se cansavam de perguntar costumavam descer dos rochedos e passear pela praia. Sentir os pés caminhando sobre a areia molhada e o doce ruído das pequenas ondas se dissolvendo. O prazer costumava, pelo menos temporariamente, anestesiar as dúvidas. Mas elas voltavam no dia seguinte.
A vida transcorria suave, atrás do rochedo havia a pequena vila com duas dúzias de casas. Um pouco adiante uma horta coletiva e alguns animais de criação. Havia também aqueles que retiravam o sustento do mar, e nada, além daquelas dúvidas que a todos intrigavam, parecia perturbar a aldeia. De tempos em tempos, mesmo que eles desconhecessem esse tempo, um dos poucos habitantes parava de se mexer, então, segundo um hábito ancestral, era colocado sob a terra e esquecido. O contrário também acontecia, alguém brotava de dentro de uma mulher e passava a fazer parte da pequena comunidade. Era uma pessoa pequena, ainda sem a capacidade de perguntar, que apenas começaria a fazê-lo quando seu corpo aumentasse de tamanho.
Além de se ocupar da horta e da criação de animais, os habitantes também gostavam de usufruir de vários tipos de prazeres e brincadeiras. Enquanto jogavam ou se dedicavam ao prazer nascido de seus corpos, eles pareciam imunes às dúvidas, que só brotavam quando o divertimento terminava. Aí então, alguns deles, mesmo cansados, caminhavam até os rochedos e começavam a perguntar. E uma das questões mais recorrentes era justamente por que as perguntas, assim como as pessoas e todas as outras coisas, existiam durante um período, para depois deixarem de existir. Era claro que depois, até as pessoas, voltavam a existir, mesmo que não possuíssem o mesmo corpo, mas o nascimento, assim como a volta das dúvidas, poderia representar a volta daqueles que foram cobertos pela terra escura. Naquele tempo, era mais fácil acreditar na volta dos mesmos, do que na criação de outros. Isso porque além dos habitantes do minúsculo vilarejo, nem os mais velhos tinham visto alguém vindo de fora.
Aquilo parecia que sempre fora daquele jeito e ninguém se incomodava em mudar porque todas as necessidades do grupo eram atendidas. Havia um homem que se ocupava das dores, quando elas surgiam. Para isso contava com a ajuda das plantas, com as quais fazia poções, que costumava diluir em água e dar aos doentes. Alguns deles eram curados, outros não, e acabavam dando lugar a outras pessoas. O número de habitantes permanecia estável.
As discussões eram raras, mas aconteciam e, às vezes, terminavam em brigas. Mas cada um, sabendo que precisaria conviver com o rival, ponderava se as razões das disputas eram importantes ao ponto de gerar a divisão em uma comunidade tão pequena. Até hoje nenhum ódio floresceu e espalhou sementes. Todos acabaram como sementes que não são enterradas, secaram e desapareceram.
Nessa terra, as estações são bem marcadas e o mar azul não isenta ninguém do frio durante o inverno. Há uma grande fogueira acesa todas as noites na pequena praça que se formou entre as casas. Os habitantes se reúnem e conversam. Alguns perguntam aos outros sobre suas dúvidas, que por ficarem sem respostas, necessitam ser compartilhadas com outros, que costumam respondê-las com outras perguntas. O outono espalha folhas secas e lindas luzes, que se arrastam pelo chão transformando, durante o pôr do sol, os marrons em dourados. A primavera traz as cores de volta e salpica o bosque verde com gotas vermelhas, amarelas e roxas, flores que se escondem atrás de grandes cogumelos e tapetes de limo escuro. O verão é a descoberta do corpo, os banhos de lagoa e as noites são dormidas no penhasco, sob um céu cujas estrelas descem para participar dos sonhos.
Aos olhos daqueles homens, mulheres e crianças, a vida é tenra como uma flor coberta de orvalho, que amanhece inclinada com o peso da água, e aos poucos, conforme a manhã avança, vai se endireitando. Espera pelo meio-dia para exibir suas melhores cores. Usufrui da tarde para que os vários ângulos diferentes do sol projetem novas sombras e revelem outras tonalidades de suas pétalas. Depois mergulha na escuridão, que começa lentamente e espalha pela flor tonalidades prateadas, que talvez representem o ponto mais elevado de sua beleza, para depois retirar dela toda luz, fazendo desaparecerem as cores e depois a flor.
A pequena comunidade conhecia também algumas lendas, recebidas de antigas gerações. A mais conhecida delas dizia que qualquer pessoa que dormisse sob as laranjeiras do bosque receberia em sonho alguma revelação sobre o próprio futuro ou o do vilarejo. Durante os dias o laranjal era bastante frequentado por homens, mulheres e crianças em busca de sombra e dos frutos. Laranjas grandes, que quando abertas revelavam interiores vermelhos como sangue, mas muito saborosos. Nem todos acreditavam nessas lendas, e mesmo aqueles que o faziam, muitos, temiam descobertas. Preferiam que o futuro aparecesse aos poucos, dividido pelos dias.
Durante os verões, muitos jovens, por pura diversão, escolhiam o pomar de laranjas para dormir. Alguns deles eram ávidos em desmentir a lenda e outros, não se sabe se por convicção ou brincadeira, a confirmavam. Diziam que enxergaram o futuro da comunidade. Descreviam desastres, o mar varrendo tudo o que conheciam, ou a chegada inesperada de novos habitantes que iriam modificar a antiga vida do vilarejo. Ninguém nunca levou isso muito a sério, e a ausência de graves acontecimentos acabou transformando a lenda em chacota. O bosque continuava importante pelos frutos que produzia, servindo também de local de encontro para aqueles que se ocupavam de questões administrativas da comunidade. Uma delas tratava justamente das laranjas: cada morador poderia coletar quantas? A maioria dizia que poderia retirar dos pés apenas aquelas que fossem consumir. Outros afirmavam que também poderiam levar algumas para casa, pois a produção era mais do que suficiente para a comunidade e algumas laranjas chegavam a apodrecer no pé. Alguém sugeriu que uma pessoa poderia se encarregar de colher todas as laranjas, armazená-las e dividir entre os habitantes. Se alguém não quisesse a sua porção, ela poderia ser dada a outros, ou então haveria alguma forma de trocá-la por outros objetos.
Essa última hipótese foi veementemente recusada por uma grande maioria, que percebeu nessa possibilidade um acúmulo de poder e um desequilíbrio na ordem que reinava naquele lugar. Outro problema seria a equivalência e seu respectivo controle, a quanto equivaleria uma laranja, quem normatizaria essas trocas? O mundo passaria a ser muito mais complexo do que até então, e uma das características da comunidade era o amor à simplicidade.
Ficou decidido por unanimidade que cada um poderia colher apenas as laranjas que fosse consumir, e que estava proibido levá-las para casa ou trocá-las por outro alimento ou objeto. Essa era uma das poucas leis que existiam, pois elas nunca foram necessárias. Mas, à medida em que uma delas nasce, parece que abre-se a porta para que outras entrem. E era o que costumavam decidir os homens que se reuniam sob as laranjeiras. Em pouco tempo criaram mais dez leis e as respectivas punições para aqueles que não as cumprissem.
Em uma noite de verão, o homem mais velho da aldeia acordou inquieto, foi até o bosque e lá decidiu acender uma fogueira, ficou a noite toda alimentando o fogo e quando o sol nasceu ele ainda estava lá. Os outros, assim que acordaram, perceberam que havia algo de estranho. Ele disse que havia refletido durante toda a noite, e que as grandes chamas não eram suficientes para vencer a escuridão. Portanto, leis tinham a capacidade de apenas gerar outras leis para corrigi-las, e se prosseguissem por aquele caminho, elas se reproduziriam como laranjas. O conselho escutou as palavras do velho e no exato instante em que a fogueira se apagou, decidiram abolir todas as onze leis que existiam e suas respectivas punições.
Isso não significava que erros não fossem cometidos, mas diante de uma comunidade tão pequena, a maior punição passava a ser o olhar de reprovação do vizinho e, por vezes, o próprio infrator impunha-se alguma pena, como o trabalho voluntário em prol da comunidade, ou até um exílio temporário na mata que circundava o vilarejo.
Além dos rochedos, conhecidos por ser refúgio daqueles que questionavam os grandes mistérios, havia outro lugar onde se reuniam aqueles que duvidavam. Um pequeno campo em frente à grande mata fechada era refúgio daqueles que desejavam saber o que ela escondia e, principalmente, o que havia do outro lado. Esses eram em geral jovens cheios de espírito exploratório, suas dúvidas eram mais concretas, e até por isso, mais fáceis de serem saciadas. Frequentemente organizavam pequenas expedições para exploração da mata. Nunca tinham ido além de um dia de caminhada, e o que encontraram foram apenas mais árvores, animais e pedras parecidas com aquelas que conseguiam enxergar de suas casas. Entretanto isso não saciara suas curiosidades e estavam sempre planejando outras excursões mais longas, onde finalmente descobririam algo que nunca nenhum dos habitantes do vilarejo havia visto.
Um dos mais entusiasmados jovens dizia que descobririam animais com os quais ninguém sonhara, árvores e flores muito diferentes de tudo o que conheciam, frutos que ainda não tinham nome e, principalmente, outros vilarejos, muitos outros, com pessoas que jamais conheceriam se decidissem para sempre viver por ali. Pessoas com novas ideias, e com respostas para muitas de suas dúvidas. E além disso, poderia haver também pessoas diferentes deles, com aparências exóticas e que viviam outras vidas. E até cidades que poderiam ser perigosas, para isso precisavam estar preparados para se defenderem. Essas explicações acabavam derretendo o entusiasmo da maioria dos jovens, cuja curiosidade era menor do que a vontade de colocar em risco a vida que levavam. Sem companheiros para a grande aventura, o único jovem disposto a tudo arriscar olhava para a mata escura, escutava os ruídos que dela vinham e prometia que, um dia, nem que fosse sozinho, mergulharia naquela escuridão e só voltaria ao vilarejo quando algo de grande conseguisse descobrir.
Por vezes levava sua inquietação aos homens mais velhos, que costumavam frequentar o rochedo em busca de respostas para as questões menos visíveis. Eles o tinham em elevada conta, admiravam alguém em tenra idade preocupado em descobrir algo, mas no fundo, julgavam que suas dúvidas eram iniquidades, e que o mundo físico era feito de repetições, e que por mais que se esforçasse, eram apenas elas que encontraria. As verdadeiras respostas, julgavam eles, eram invisíveis, e talvez aquele jovem, depois de muito procurar, um dia se cansasse da mata e subisse ao rochedo para, assim como eles, procurar por aquilo que não poderia ser enxergado.
Os homens maduros do alto do rochedo mostravam ao jovem que a mata se estendia até onde os olhos alcançavam, formando um padrão repetitivo que não teria porque ser interrompido depois que os olhos perdessem seu poder. Quanto a outras civilizações, o grupo de observadores do rochedo se dividia. Alguns negavam a possibilidade, ali estava o único núcleo de homens e mulheres que existia. Outros diziam ser possível, em um mundo tão vasto, existirem outros vilarejos, talvez muito maiores e mais avançados do que aquele. Para eles a questão era outra, não acreditavam que um eventual contato com outra sociedade pudesse trazer algo de benéfico para o vilarejo. Ao contrário, poderia colocar em perigo a tranquilidade que lhes era tão cara. Por isso convidavam o jovem, que aos olhos deles possuía muitas qualidades, e enchiam-no de perguntas. Daquelas que acreditavam importantes.
Por outro lado, o jovem, que também os respeitava, discordava de seus métodos. Acreditava que a verdade precisava ser enxergada. Que por mais importantes que fossem os pensamentos e questionamentos teóricos, por mais honesta que fosse uma dúvida que se abria para as estrelas em busca de respostas, ainda assim, todos eles possuíam corpos que precisavam ser nutridos e aquecidos no inverno, portanto os olhos, o paladar e o tato precisariam ser saciados. Os riscos, de contato com outros grupos humanos existia, mas a natureza era repleta de movimento, uma noite estrelada nunca era igual à outra, o mar jamais repetia as mesmas ondas, as nuvens sempre desenhavam novas formas. Por que eles, sendo também natureza, julgavam-se imunes a mudanças?
Essa questão foi colocada pelo jovem em uma assembleia noturna no alto dos rochedos. Trouxe novamente divisão do grupo, que só foi unânime em identificar naquele jovem uma cabeça de grande valor. Alguns argumentaram que os riscos devem ser corridos quando há uma grande necessidade ou um imediato perigo. O que não era o caso daquela comunidade. As mudanças deveriam vir para melhorar o que estava ruim e, apesar de pequenos problemas aqui e ali, nada justificava os possíveis perigos que adviriam de um contato externo.
Por outro lado, um grupo argumentava que como eles jamais conheceram realidade diferente, a mudança, poderia sim melhorar a vida do vilarejo. Eles não possuíam parâmetros para julgar se, de fato, a vida que levavam era boa ou não. Como de costume, o conselho não terminava suas reuniões com veredictos. O jovem deveria fazer aquilo que escolhesse, apenas sugeriram que se decidisse por uma expedição, não deveria fazê-lo sozinho.
Depois da reunião, o jovem carregava mais dúvidas do que antes. Não se importava de colocar a própria vida em risco em favor da comunidade, mas talvez a colocasse em perigo, ou até a perdesse, e o resultado seria o oposto daquele que desejava. Não se sentia isento o suficiente para julgar se o que todos ali viviam, era bom ou mau. Aparentemente a vida era repleta de prazeres e não muito sofrimento. Mas logo percebeu que tudo precisava possuir um ponto de referência. O que não tinham. Precisou improvisar: as águas do mar e as da lagoa, umas calmas e as outras levemente agitadas pelo movimento das ondas. O que era melhor?
Não havia resposta. Ambos possuíam qualidades e defeitos que se adaptariam melhor ou pior a determinadas situações. As coisas pareciam bem mais complicadas do que suas aparências iniciais. O jovem então decidiu que enquanto não conseguisse enxergar pelo menos um pouco além da mais evidente aparência, não tomaria nenhuma decisão. O mundo que existia além da floresta poderia esperar.
Naquela mesma noite os outros homens, após a saída do jovem, continuaram a reunião. As estrelas estavam vivas, o céu era um mar cheio de cores e esconderijos. As ideias desciam de lá como peixes nadando contra a correnteza. Os braços eram levantados em busca delas. A maioria deles voltava vazio. Um homem perguntou se toda a aldeia não deveria, pelo menos temporariamente, se mudar para outro lugar. Abandonar as casas e, em conjunto, mergulhar na mata, até descobrir novo refúgio e, talvez, muito mais do que isso. Em grupo o perigo seria menor.
Os outros não pareciam interessados na pesca alheia, cada um desejava extrair do oceano seu próprio peixe. Ele permaneceu sem resposta, mas ouviu outras perguntas. Ao invés da mata, poderiam construir algo que os fizesse flutuar e navegar na direção do horizonte. O caminho para descobertas poderia não ter nada a ver com longas distâncias percorridas, a viagem poderia acontecer ali mesmo.
Essa última observação foi acompanhada pela história dos sonhos sob o laranjal. As experiências feitas ali foram muito incipientes, precisavam de mais sonhadores, durante muitas noites para chegarem a uma conclusão. Dois homens decidiram que iriam organizar esse projeto, o que acabou descontentando um pouco os outros, que detestavam conclusões, especialmente sob um céu como aquele.
As ideias transformaram-se em sensações, mas continuaram saltando em grande quantidade, antes da paz, que costumava encerrar as reuniões, com muitos deles dormindo por ali mesmo, vieram inquietações: o panorama que se oferecia a eles comunicava a imensidão de tudo o que havia sobre suas cabeças, e dizia, através de símbolos, que eles utilizavam muito pouco de seus potenciais, que muito dele era desperdiçado, e mesmo se nunca conseguissem atingir o céu, poderiam sim ir muito além de até onde estavam.
Então foi a vez de um dos mais calados participantes. Ele frequentava as reuniões do alto do rochedo, mas raramente abria a boca. Nesse dia, mesmo sem falar muito, parecia particularmente agitado. Pediu silêncio a todos e perguntou por que as mulheres nunca eram convidadas para aquelas reuniões. Alguém argumentou que não havia convidados, quem desejasse poderia vir. Eram elas que nunca demonstraram interesse. Então ele decidiu falar, disse que elas não vinham por não se sentirem à vontade. Era necessário um convite especial para que o hábito que as prendia à rotina fosse quebrado. Todos teriam muito a ganhar, pois ele disse desconfiar que as mulheres pensavam de um modo ligeiramente diferente, e foi além, elas eram animais parecidos, mas de outra espécie.
Essa afirmação causou estranheza aos outros, que iniciaram um burburinho. Então, o homem que normalmente permanecia calado, continuou: “Há muitos casos parecidos na natureza, objetos, plantas, situações, que se parecem muito, mas não guardam tanta semelhança assim. A água da lagoa serve para beber, a do mar não, e alguém a olho nu conseguiria distingui-las?”
A frase fez murchar completamente as conversas paralelas e o silêncio pesou sobre o rochedo. Mas o homem que pouco falava já havia terminado seu discurso, e outra pessoa precisou declarar o encontro encerrado.
Naquela noite muita gente continuou pensando sobre o assunto, e dois deles convidaram mulheres para o próximo encontro sobre o rochedo. Uma delas estranhou o convite e, embaraçada, disse que não se sentiria à vontade. A outra aceitou. Mas foi o jovem aventureiro quem não conseguiu dormir. Talvez, para sua expedição, o melhor seria contar com uma companhia feminina. Precisava de alguém que raciocinasse enquanto seu pensamento tomava fôlego. Outro homem seria mais um a resfolegar nos mesmos instantes em que o ar desaparecia. Sabia o que acontecia quando um homem costumava unir-se a uma mulher. Mas não era exatamente o que desejava, pelo menos por enquanto. Os filhos poderiam ficar para depois, ou então os deixaria para outros com mais vocação. Queria descobertas.
Os homens do alto do rochedo não lhe bastavam, a boa intenção e o método de investigação através do debate, eram interessantes. Apreciava também a profundidade dos temas e questionamentos. Mas sentia que algo faltava, uma ferocidade na busca por descobertas que não encontrava em ninguém, a não ser em si mesmo.
A vida tranquila do vilarejo, que há pouco tempo parecia perfeita, agora era como um mar sem ondas. Sentia que, sem saber, poderia estar engolindo migalhas, enquanto, não muito longe dali, o banquete era servido. Os dias transcorriam sem diferença, a noite era o único acontecimento digno de atenção, pois trazia as estrelas, que eram caminhos distantes escritos em luz, promessas vagas, que mesmo assim, tinham o poder de gelar sua espinha. Adormecia olhando para um céu que, com frequência avançava em seus sonhos. Eram momentos estranhos, receio, descobertas, encontros difíceis de descrever e que eram ariscos, e não caíam nas armadilhas da memória, mesmo assim eram instantes de muito prazer.
Ele percebeu que aquele era outro mundo, diferente da aldeia. Entretanto, não se sustentava, assim que abria os olhos, tudo derretia. Não era exatamente o que buscava, mas por enquanto, o que estava ao seu alcance. Via pessoas que não os habitantes da aldeia, e lembrava-se bem dos rostos de algumas delas, mesmo que o enredo do sonho virasse fumaça, alguns detalhes como a aparência de pessoas desconhecidas, permaneciam. Desejava saber se em algum lugar diferente do qual vivia, aquelas pessoas existiam. Não seria a aparição delas uma tentativa de comunicação?
Certa noite levou suas experiências para apreciação dos homens do rochedo. Aquela ocasião foi marcada pela primeira visita feminina. Uma jovem da sua idade, que apesar de ser muito bem tratada por todos, parecia pouco à vontade, e permaneceu a maior parte do tempo calada. O jovem lembrou a todos sobre a lenda do laranjal, e sobre a vontade de alguns de experimentarem algo a esse respeito. Então contou sobre suas noites ao relento e as estranhas experiências que não sabia definir como sonhadas ou vividas. Percebeu que metade da plateia julgava aquilo uma grande bobagem. Mas havia alguns interessados. Um dos homens, que anteriormente havia proposto uma experiência coletiva de sonhadores, era o mais entusiasmado. Depois que a reunião terminou, e os mais velhos foram embora, ele aproximou-se do jovem e propôs que arrumassem voluntários dispostos a dormirem sob o laranjal durante algumas noites. A mulher, pela primeira vez na noite, deixou sua voz ser ouvida. Aceitava, seria uma das voluntárias. O homem mais velho ficou de conseguir outras pessoas que aceitassem participar do experimento.
A lenda seria apenas um pretexto, futuro e passado não o interessavam, mas achava que talvez, várias pessoas dormindo ao relento, sob um céu estrelado e abertos para o novo, pudessem encontrar pontos em comum, caminhar por estradas parecidas e talvez, e esse parecia ser seu maior ponto de interesse, conseguissem, de alguma forma, se comunicarem enquanto dormiam.
O jovem nunca havia pensado sobre comunicação, seus interesses eram outros, mas a comunicação em outro plano não deixava de ser algo muito interessante e uma porta que poderia levá-los a lugares muito diferentes. Depois que o homem foi embora, os dois jovens ficaram sozinhos. A moça então, disse que apesar de não dormir ao relento como ele, costumava ter sonhos estranhos. Às vezes enxergava-se dormindo, abandonava seu corpo e saía passeando pela aldeia, conseguia atravessar paredes, voar, mergulhar fundo no mar, sem que o ar lhe faltasse. Descobria peixes, polvos, raias e muitos tipos de animais estranhos. E tudo parecia extremamente real. Atentava para pequenos detalhes, um pedaço de corda amarrada a um barco abandonado, o defeito na madeira de uma janela que não fechava. Na manhã seguinte verificava os detalhes e eles estavam todos lá, confirmando sua aventura noturna.
O rapaz ficou impressionado com sua experiência, que diante das suas pareciam um tesouro comparado a uma moeda de cobre. O que via eram rostos desconhecidos, afora isso tudo se nublava. Nada de detalhes que poderiam ser comprovados. Mas talvez, mesmo ela, estivesse apenas na superfície de um poço sem fundo. Dessa superfície, enxergava os reflexos do próprio rosto e daquilo que existia a sua volta.
Sob o luar ele viu que os olhos dela brilhavam, mas carregavam consigo restos da luz esbranquiçada que vinha do céu. Ele sorriu sem que ela percebesse e, por um instante, imaginou a ambos atravessando portas e mundos e descobrindo realidades sem matéria.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
