
Três da tarde. Sala de espera da Cinemateca.
Alguns idosos aguardam a sessão. Entreolham-se o mínimo possível. O que haveriam de dizer uns aos outros: banalidades, lugares comuns, tristezas sinceras ou falsas alegrias. Esperam que o filme comece.
Na tela, ainda haverá esperança: um início outra vez, um amor pungente, um final inesperado ou mítico, se o filme for daqueles que se tornara um clássico. Sento-me entre eles, como se estivesse entre grandes gatos: quietos, sonolentos, atentos apenas ao que realmente é diferente, ou seja, quase nada. Já viram a vida toda, os filmes preferidos várias vezes.
Nunca tentei abordar nenhum deles. Quem ousaria roubar a palavra de um totem, de um altar?
Ouve-se um trecho musical, anunciando que o filme vai começar. Parecem sinos chamando os fiéis. Levantam-se dos ruços e consoladores sofás. Dirigem-se para os lugares habituais na plateia ou no balcão. Todos devem ter uma tese sólida para aquela escolha e dedicação a um lugar, a uma zona da sala.
O filme começa. Agora apenas contemplam, como folhas de árvore viradas para o Sol, ou como aqueles grandes afloramentos de granito que rasgam as planícies da Beira.
Tenho a certeza que muitos deles pensam ou murmuram mesmo entre dentes: “Projecionista, o filme nosso de cada dia nos dai hoje “.
Lisboa, 20 de junho de 2026

Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos. Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.