
Créditos: thomas-lamadieu-skyface-paris-1-352×530
Todos as manhãs, quase à mesma hora, desço as escadas do prédio com o saco de lixo pendendo da mão como uma pequena oferenda ao desgaste inevitável das coisas. É um rito silencioso, mecânico, desses que o corpo aprende antes mesmo que a mente desperte. Caminho até a lixeira e, então, como se obedecessem a uma força invisível, meus olhos sobem até a mesma janela de um dos blocos.
Lá está ele.
Um velho senhor que observa da janela como quem vela o último farol de um continente submerso. Seu corpo parece ter sido lentamente consumido pelos dentes do tempo; resta nele apenas uma delicadeza frágil, quase translúcida, como papel antigo esquecido entre páginas de um livro. Há algo de estátua abandonada em sua figura — imóvel, silenciosa, resistente apenas porque já não sabe cair. Ele olha para fora com uma fixidez que não pertence inteiramente a este mundo. Não observa a rua, nem os carros, nem as pessoas que passam. Seu olhar atravessa o concreto, atravessa o presente, atravessa talvez a própria matéria das coisas. Tenho a impressão de que contempla um território invisível, um jardim enterrado dentro da memória, onde ainda caminham pessoas que já desapareceram.
Às vezes imagino que esteja conversando com fantasmas.
Outras vezes, penso que apenas escuta o eco distante da própria vida retornando pelos corredores do passado.
Há dias em que seus olhos parecem carregados de inverno — como se certas lembranças voltassem sem bater à porta, trazendo o peso de antigos naufrágios. Em outros, existe neles uma serenidade estranha, semelhante à de alguém que já atravessou tantas tempestades que aprendeu a conviver com os destroços.
Quando passo diante de seu bloco e ele percebe minha presença, algo se acende. Não chega a ser alegria; é mais parecido com a última brasa sobrevivendo sob as cinzas. Seus olhos ganham um brilho breve, cansado e humano, e um pequeno sorriso nasce em seu rosto — tímido como uma vela acesa contra o vento.
Eu sempre levanto a mão em cumprimento.
Ele responde com um lento movimento de cabeça, como um rei exilado saudando o último súdito de um reino perdido.
Nunca trocamos palavra alguma.
Nosso silêncio, porém, tornou-se uma espécie de idioma.
Pelo jeito, ele já não sai de casa. Talvez as pernas tenham desaprendido os caminhos do mundo. Talvez a solidão tenha criado raízes profundas demais ao redor dele. Sua presença naquela janela é tão constante que às vezes penso que aquele retângulo de vidro se tornou sua última fronteira entre existir e desaparecer.
De certa forma ele já parece pertencer mais ao tempo do que à vida.
Uma sombra.
Um espectro manso sentado diante das ruínas de si mesmo.
Enquanto volto pelo condomínio, imagino quantos oceanos invisíveis aquele homem já atravessou. Talvez tenha amado alguém ao ponto de transformar a ausência em morada. Talvez tenha conhecido dias luminosos, cheios de vozes, viagens e promessas. Ou talvez sua vida tenha sido apenas isso que a maioria das vidas é: um punhado de pequenos instantes tentando resistir ao esquecimento.
Não sei se foi feliz.
Não sei se carregou glórias ou fracassos.
Mas sei que, todas as manhãs, quando ergo os olhos para aquela janela, tenho a inquietante sensação de que ele não está olhando para a rua.
Está olhando para o tempo.
Como quem encara um rio interminável levando embora tudo aquilo que um dia chamou de seu.
E, talvez, aquele pequeno sorriso que me oferece seja apenas isso: maneira silenciosa que encontrou de dizer que ainda permanece ali, guardião de um mundo que só existe dentro dele — um arquivista solitário das memórias que o tempo ainda não conseguiu apagar.

Sydney de Castro Monteiro é formado em Letras/Inglês – UESPI; Especialista em Ensino da Língua Inglesa – ISEPRO; Professor de Língua Inglesa – SEDUC-PI. Coordenador do Polo UAB de Apoio Presencial Água Branca. Professor de conversão em Inglês. Cronista e contista.
Uma resposta
O cotidiano apresentado com a profundidade de olhos que recortam a cena comum e a humaniza para devolver ao leitor a riqueza que cerca quem sabe e pode enxergar além do engessamento que aprisiona o dia a dia.