
da Flip em sua homenagem, mas não será: apesar de não esgotada,
a edição não existe mais
A Flip 2026 tem como autora homenageada a poeta paulista Orides Fontela: “A curadora desta edição da Flip, Rita Palmeira, afirma que a homenagem à poeta parte do desejo de resgatar uma obra tão forte e relevante quanto breve”.(1) Dez anos antes desta Flip, o mesmo desejo me levou a iniciar seu resgate de um longo esquecimento editorial. Em 2015, organizei, apresentei e editei Orides Fontela – poesia completa (São Paulo, Hedra, 425 pp.). Suas edições originais estavam esgotadas, e a última edição de sua poesia quase completa fora há uma década, pela extinta Cosac & Naif (Poesia reunida, 2006). Meu título, porém, estava equivocado. Além de coligir seus cinco livros publicados em vida, o volume traz uma significativa (em mais de um sentido) coleção de 22 poemas inéditos (ou seja, póstumos). Não se trata, portanto, de sua poesia completa, mas de sua poesia completíssima.
Orides Fontela – poesia completa deveria, agora, ser o par editorial natural de uma Flip em sua homenagem. Mas não será. A edição não existe mais. Ela não está esgotada. Mas foi retirada do mercado e apagada do site da editora que detém os direitos de publicação da obra de Orides (em função dos meus esforços para contatar e convencer, à época, os herdeiros).
Este artigo tem uma dupla função. Ser uma notícia relevante de um fato muito relevante que, apesar disso, foi ignorado até aqui. Buscar compreender o fato, à falta de respostas convincentes dos envolvidos.
No dia 10 de fevereiro de 2026, a Folha de S. Paulo publicou a primeira matéria sobre o evento: “Flip resgata do silêncio a ‘proleta’ Orides Fontela, poeta e proletária da palavra”. Subtítulo:“‘Poeta mais pobre do Brasil’ foi aclamada pela crítica e pouco conhecida do público. Editora Hedra vai relançar biografia e seus cinco livros acrescidos da fortuna crítica”.[2] A matéria parecia razoavelmente completa para seu pouco tamanho. Fala algo da vida, um tanto da obra e ainda tem espaço para alguns comentários. Isto dito, a matéria e os comentários são perfeitamente incompletos. Não há referência a Poesia completa.
Fernanda Mena, a “repórter especial” que assina a matéria, parece desconhecer o livro; Jorge Sallum, o proprietário da editora Hedra, e Augusto Massi, o acadêmico dedicado à obra de Orides, pretendem ignorá-lo. Ninguém lhe fazia qualquer menção. Não fazia sentido. Se a “Flip resgata do silêncio a ‘proleta’ Orides Fontela”, e se Orides “foi aclamada pela crítica e [é] pouco conhecida do público”, como não referir, em tal texto e tal contexto, uma edição feita especialmente para tornar sua obra mais acessível do que jamais fora?
Em 22 de maio, o editor de livros da Folha de S. Paulo, Walter Porto, repetiria Fernanda Mena, em matéria cujo estranho título afirma: “Orides Fontela tem inéditos descobertos e lançados antes de sua homenagem na Flip”. O subtítulo: “Editora Hedra pretende reunir obra completa feita pela autora até 2027”.[3] O editor de livros da Folha de S. Paulo, portanto, desconhece que a editora Hedra já reuniu a obra completa de Orides em 2015, e também que seus inéditos já foram publicados: uma das seções de Poesia completa se intitula “Poemas inéditos [1997-1998]” (pp. 387-415).
Evitando especulações, embasarei minhas afirmações em evidências (prints de sites e de trocas de mensagens), antes de desenvolver hipóteses informadas sobre a situação anômala e suas possíveis razões, por não ter obtido, como referido, apesar das minhas tentativas, respostas consistentes/convincentes dos envolvidos. Também farei considerações necessárias sobre as consequências para o destino público da obra de Orides Fontela, a começar da própria Flip.
Reproduzo, a seguir, prints de páginas do site da editora Hedra, onde Poesia completa inexiste da maneira mais completa.[4]
1. O resultado da busca por “Orides Fontela Poesia Completa” (destacado).

As imagens das capas de seus outros títulos não são resultados da busca, mas destaques atuais do site.
2. A busca apenas por “Poesia completa” (sem “Orides Fontela”) dá o mesmo resultado: nenhum.

3. A busca, então, por “Orides Fontela”:

O resultado traz, agora, de forma ativa (não como destaques do site), em primeiro lugar, a reedição de O enigma Orides, de Gustavo Castro, pequena biografia que eu editara em 2015, junto com Poesia completa. Em seguida, os títulos de algumas das novas reedições de seus livros originais.
4. Os mesmos títulos reaparecem, por fim, na página “Orides” do site, ao lado da ausência de Poesia Completa:

Para efeito de comparação, outro livro de um importante poeta brasileiro contemporâneo, também editado por mim no mesmo ano, reforça a situação incompreensível de Poesia completa. Apesar de esgotado, Poesia vaginal, de Glauco Mattoso, aparece no site, assim devidamente registrado:

Entrei então em contato com Jorge Sallum, proprietário e editor da Hedra. No diálogo a seguir, começo referindo o fato de eu estar publicando um novo livro de poemas, a ser lançado em Paraty – e observando que isso terá relação com Poesia completa na divulgação, por minha condição de organizador. A data é 7 de abril.

A resposta começa com uma observação sobre uma reunião referida rapidamente em um curto telefonema intermediário:

“Rita” é Rita Palmeira, a curadora da Flip; Fábio Furtado é o responsável pela programação da Casa Orides, que iria concentrar em Paraty (sendo afinal substituída por vários locais) as atividades em torno da autora homenageada. Incluindo minha participação pessoal, “muito bem-vinda”. E depois confirmada.[5] Mas a presença de Orides Fontela, nem tanto: “A obra completa foi tirada do mercado”.
Motivo: “por sugestão do Massi”. Augusto Massi, o respeitado crítico literário e professor de literatura brasileira na USP, que não possui vínculo formal com a editora ou com a nova Coleção Orides (cuja organização, oficialmente, coube a Ieda Lebensztayn). Mas por que tal “sugestão” foi aceita? E por que, afinal, ela foi feita?
“[Massi preferiu] dar destaque para os volumes avulsos”. Mas por que o “destaque” de uns em detrimento de outro? E por que, para terem “destaque”, os novos volumes precisam do apagamento completo de Poesia completa? Em primeiro lugar: por que reeditar os cinco títulos originais de Orides Fontela havendo uma antologia da obra completa da mesma editora em uma edição não esgotada?
Um “novo estabelecimento de textos”. Isto soa grande e grandemente relevante – mas não tem, de fato, sentido. Há diferenças tais e tantas nas novas edições que a anterior tem de ser retirada do mercado? A pequena confissão final, “quando achamos” (manuscritos para cotejar), dá a real dimensão do que se trata. Orides Fontela não é uma autora da Antiguidade com a obra dispersa em fragmentos dialetais de uma língua extinta registrados em obscuros palimpsestos.
Não obstante, o nome de Augusto Massi de fato aparece na ficha técnica de todas as novas edições, entre o do editor e o da organizadora, sob a rubrica “estabelecimento de texto” – quando se achou o que cotejar, depreende-se. Quando não se achou, nem por isso ficou ausente, apesar de então presente sob a anódina rubrica ad hoc “agradecimentos”.
Talvez o problema não esteja em discrepâncias pontuais, afinal. Mas em erros tais e tantos, em Poesia completa, que não poderiam receber erratas. Edição inteiramente imprestável, não serviria de base sequer para uma reedição revista. Resta recolhê-la, retirá-la do mercado. Mas por que não manter seu registro no site, mesmo como edição esgotada?[6]
Há, enfim, ao menos uma imensa discrepância. Cada nova edição dos títulos originais traz, na penúltima página, uma mesma bibliografia concisa das obras de Orides Fontela:

Poesia completa existe aí. Não na Flip. Não na editora. Não nas livrarias. Não nas estantes. Não nas mesas de cabeceira. Não nas mesas de canto. Não nos braços das poltronas. Não nos gramados dos parques. Não nas mãos, nos olhos e nas mentes dos leitores de poesia. Mas nessa bibliografia. Porque sua ausência seria uma omissão. Uma falha. Uma des-informação. Um erro objetivo de registro editorial. Sua ausência na realidade objetiva será apenas um erro de julgamento.
Porque, enfim, tudo talvez se resuma a uma decisão comercial. Isso explicaria as novas reedições. Não se trataria, então, de qualquer “destaque” abstrato que exija a ausência ainda mais abstrata de Poesia completa, mas de um destaque bem concreto de vendas. Da possibilidade concreta de vendas maiores. Tentar vender cinco livros de Orides Fontela em vez de um, aproveitando o “momento Flip”. Mas por que isso exigiria tirar do mercado Poesia completa, ou seja, não tentar vender seis títulos de uma vez?
Porque são produtos concorrentes. E porque os cinco novos volumes perdem no preço. Ou seja, ganham. Custam mais caro – para o leitor, e oferecem maior possibilidade de retorno para a editora. Os cinco novos livros somam R$ 314,20 pelos valores do site da Hedra. Poesia completa, naturalmente, não tem ali um preço registrado. Tampouco na maioria das livrarias pesquisadas. Apenas duas exibem o valor de venda (apesar de o livro não estar à venda): Livraria Simples e Armazém do Livro.[7] Ele custaria R$ 129,00 na primeira e R$ 88,90 no segundo. O preço médio, portanto, seria de R$ 108,95. Subtraindo 108,95 de 314,20, a nova Coleção Orides custa R$ 205,25 a mais que a antologia, onde se encontram os mesmos poemas – acrescidos dos inéditos. Não faz sentido comercial. Ou editorial: os novos textos críticos que acompanham as reedições, apesar de todos os seus muitos méritos, resultam, para o conjunto da obra, em uma soma zero, levando-se em conta (sic) que tais reedições não trazem os poemas póstumos: + novos textos – novos poemas.
O público leitor de poesia não costuma adquirir cinco volumes reeditados da obra de um poeta pouco popular, a não ser que haja uma boa e rara razão para isso (tão rara, que a desconheço). Porém, mais que eventualmente compra uma antologia em um volume. A difusão e a possível popularização da obra de Orides Fontela ficam, assim, comprometidas – comprometendo diretamente a razão de ser da Flip 2026, segundo as palavras de sua curadora. Também se fica sem resposta nem explicação.
Quais os possíveis motivos reais dessa estranha ação contra a obra de Orides Fontela?
Descartados o incongruente “destaque” das reedições cotejadas (quando havia o que cotejar), uma ilógica iniciativa comercial comercialmente não atrativa (a despeito da anunciada pretensão de remonetizar o nome de Orides com uma “obra completa” pós-Flip prevista para 2027) e um ganho real de fortuna crítica ao custo da perda também real na reprodução de parte importante da obra (alguns dos últimos poemas estão entre os melhores), as causas podem/devem ser buscadas em Orides Fontela ou em mim.
Refiro-me, quanto a ela, à trajetória incomum de sua obra. Como se sabe, em 1965, quando ainda em sua cidade natal, São João da Boa Vista, a jovem poeta foi descoberta para o mundo, ou, ao menos, para o mundo lítero-acadêmico de São Paulo, pelo então estudante de letras David Arrigucci Jr, que junto a Antonio Candido apoiaria e divulgaria sua obra a partir de então. A própria Orides deixaria a cidade natal para estudar filosofia na USP. Se Orides Fontela jamais se tornou uma poeta popular, mesmo para os parâmetros mínimos de popularidade dos poetas em geral e de seus pares geracionais em particular, como Adélia Prado e Hilda Hilst, para não falar de Paulo Leminski, em compensação, desde o início se tornou uma poeta “acadêmica”. A poeta brasileira contemporânea “acadêmica” por excelência. Não no sentido de qualquer academicismo de sua poesia, mas de ter sido adotada como filha dileta e predileta da academia, particularmente da USP. Augusto Massi é hoje um dos principais expoentes (se não o principal) do que se pode chamar de “círculo oridiano” – além de ter sido amigo pessoal de Orides e haver publicado a coletânea Trevo.[8] Isso talvez explique, afinal, ainda que não justifique, a aceitação da Hedra de sua “sugestão”. Mas não explica a “sugestão” em si.[9]
Atendo-me, então, aos fatos, e tentando tirar dos fatos o que os fatos, quiçá, de fato contenham: esgotadas as edições originais, e acessível somente Poesia completa, a cada citação de um livro, de um poema, de um verso de Orides Fontela, a remissão bibliográfica levaria ao meu nome. Com a reedição dos cinco livros originais, somada ao (subtraída do) desaparecimento de Poesia completa, muda a remissão.
Nos dois primeiros resultados acadêmicos (USP e UFMG) de uma pesquisa no Google com meu nome e o de Orides, antes do lançamento das anunciadas novas reedições (20/05/2026), a surpresa não foi encontrar meu nome (que aparece duas vezes em cada um), mas a ausência de nomes do “círculo oridiano” em conexão com o de Orides (à exceção de Antonio Candido).


As referências bibliográficas a Orides Fontela devem vir do “círculo oridiano” (que, natural e felizmente, não se limita à USP). Isso jamais ocuparia ou preocuparia o comum dos mortais. Mas não há preocupação maior para a maioria dos acadêmicos. Poesia completa deve se tornar indisponível.

Não terá se tratado, de modo consciente, de um deliberado exercício do conhecido “espírito de corpo” que, notoriamente, assola a academia desde sempre em todo o mundo e não é, portanto, apanágio da academia brasileira, muito menos da USP. Trata-se, como se diz, de um fato da vida (acadêmica).[10]
As novas edições dos títulos de Orides Fontela trazem textos de Davi Arrigucci Jr., Nathaly Ferreira Alves, Alcides Villaça, Marília Garcia, Antonio Candido , Viviana Bosi , Edimilson de Almeida Pereira, Patrícia Lavelle, Verônica Stigger, Ivan Marques , Marilena Chauí e Augusto Massi, todos devidamente acadêmicos (ao menos por formação). A crítica vinda da academia tem seu mais que devido lugar (em meu novo livro, O fim do mundo ocidental, tal lugar é o próprio prefácio de Alcir Pécora, o melhor leitor de poesia hoje no país). Isto dito, esse lugar não pode ser todo lugar, ou o lugar todo.[11]
A segunda hipótese causal, que não anula a primeira, em toda esta prosa pouco poética, se assenta na minha “Introdução” a Poesia completa.[12] Se o livro se torna uma referência, meu texto se tornará outra (como nos casos acima). Mas meu texto não só não segue nenhuma “etiqueta” acadêmica, em termos analítico-textuais (e de “etiquetas” a academia está mais repleta do que uma grande loja de, bem, departamentos), como levanta hipóteses histórico-interpretativas nada acadêmicas sobre a obra de Orides.
Toda uma mitologia envolve a obra de Orides Fontela. Em parte, alimentada por ela própria, ao se declarar uma adepta da “inspiração”, isto é, do espontaneísmo ou da espontaneidade (portanto, não da concepção, da elaboração, da construção do poema), em parte por sua biografia intelectual, que tem dois marcos principais: o curso de filosofia na USP, o que a tornaria uma “poeta filósofa”, de uma poesia filosofante ou “filosófica”, e certa dedicação ao budismo, o que daria à sua obra um viés metafísico-oriental. Nada disso, porém, resiste minimamente aos fatos – ou seja, aos fatos de linguagem de sua poesia.[13]
A crítica acadêmica se concentra e se estende, como regra – e como confirmam os textos das novas reedições –, em seus aspectos semânticos, em detrimento dos morfossemânticos. Para ficar em apenas um exemplo: as muitas conotações mais ou menos metafísico-existenciais das palavras transposição, rosácea ou pássaro. Em minha leitura, Orides Fontela representou um revigorar dos modernismos em seu final (dos modernismos, senso lato), no contexto dos embates das poéticas visualistas, concretismo à frente, contra o “verso”. Na prática, contra o verso brasileiro moderno, que emergira dos modernismos e informaria, de um modo ou de outro, a poesia brasileira do século XX até então.[14]
Trata-se, enfim, de outra taxonomia. De outro de animal poético, nada etéreo:
um
gato tenso
tocaiando o silêncio
Para além do modernismo brasileiro, a obra de Orides também se reporta ao alto modernismo internacional, de que William Carlos Williams é um dos nomes mais fortes. Ao se ler seu “Da poesia”, é inevitável pensar em “Poem”: “as the cat / climbed over / the top of // the jamcloset / first the right / forefoot // carefully / then the hind / stepped down // into the pit of / the empty / flower pot”. O gato da poesia, para Williams, é altamente articulado, e aciona uma trama complexa de ressonâncias formais e semânticas em seu silêncio factual. A palavra jamcloset, que abre a segunda estrofe, ecoa os vários tt finais mudos dos versos (a partir da própria palavra-tema, cat), para então re-ecoar na tripla aliteração final, pit-empty-pot. Ao mesmo tempo, a estrutura e o ritmo do poema, definidos por seus cortes, são também definidos por essas recorrências sonoras, que os cortes dos versos expõem. O gato poético de Orides é mais denso, mais contido […]. Poucos poemas metalinguísticos poderiam ser mais (poderosamente) sintéticos. Muito poucos trariam em tão parca matéria vocabular (seis palavras, incluindo artigos) tal matéria poética adensadamente moderna – isto é, construtivista. A trama sonora não é menos cerrada que a de Williams [sem perder a fluidez frasal]: além da tripla aliteração em tt, gATO está em anagrama em TOcAiando, e Tenso é uma assonância forte de silêncio [enquanto se insere outra aliteração tripla (EN/AN/EN)]. Orides diz muito com muito pouco, ou seja, depura as lições do alto modernismo. Verdade que este atingiu eventualmente os limites máximos (ou mínimos) da síntese (como nos poemas de palavras desmontadas de cummings), assim como o próprio modernismo brasileiro (como no famoso “Amor // humor” de Oswald). Mas, em primeiro lugar, a síntese de Orides não fica nada a dever à máxima tensão sintética dos modernismos; em segundo lugar, ela usa tal tensão/contenção em uma poesia cuja matéria formal informa e conforma densamente o material semântico: Orides se apropria das lições mais radicais dos modernismos e com elas cria uma poesia cuja ambiência não é mais a da iconoclastia antiburguesa (apesar das simpatias pela técnica) do início do século XX, mas a do amargo e duro ceticismo do final desse mesmo século, cujo centro fora dominado pela catástrofe (Auschwitz, via Adorno/Primo Levi). “Teologia II”:
Deus existir
ou não: o mesmo
escândalo.
Notar a polissemia do corte motivado em mesmo: a pausa evoca a frase “[dá no] mesmo” (Deus existir ou não), antes de a palavra resultar em adjetivo de “escândalo” [substantivo também enfatizado pelo isolamento afirmativo: “escândalo!”].[15]
Encerrada, a partir de Poesia completa, com “Teologia II” (entre os poemas póstumos com título e integridade),[16] sua obra, em seus momentos mais altos, tem importante dimensão histórico-estética, que adquire evidência ante o dilúvio da diluição da linguagem poética que se seguiria, e também na comparação com a obra de seus pares geracionais, como ali afirmo:
Adélia Prado é uma espécie de palatável Drummond de saias, ou uma “drummondiana” feminina-levemente-feminista, e tanto o ser uma coisa como a outra é um tanto quanto simpático para parte do público e da crítica; Hilda Hilst construiu, malgrado ela mesma, certo mito de poeta incompreendida, mas não necessariamente incompreensível, ao contrário, pois afinal se reportava ao tardorromantismo, com sua mistura de poemas de amor, misticismo & “mistério”, e o tardorromantismo, para parte importante do público, é, de certa forma, a “verdadeira” poesia, a mais “genuína”, porque mais próxima da “alma” do poeta – portanto, da “essência” da poesia; Roberto Piva é um caso de certo modo semelhante, ainda que em chave militantemente contracultural (e também por isso). Paulo Leminski é um caso à parte e, de alguma maneira, o mais antitético (e o mais antiteticamente esclarecedor) ao de Orides Fontela. Há muitas semelhanças entre as duas obras, como a grande presença do poema curto ou curtíssimo e da metalinguagem, as influências orientais, a frase lapidar. Mas as diferenças são ainda maiores, a ponto de torná-los, de fato, antípodas. Para citar um aspecto fundamental: se uma enunciava a dificuldade, o outro cultuava, ao final das contas, certa facilidade “pop”. Leminski: “inverno / primavera / poeta / é quem se considera”. Orides: “tudo / será difícil de dizer: / a palavra real / nunca é suave”.[17]
“Adélia Prado é ‘uma Drummond de saias’”: e isso é quase misógino. Mas não é. Adélia, desde sempre, foi incensada como “drummondiana”. Ao mesmo tempo, também sempre se incensou certa “delicadeza” de seu “lirismo”. Na minha avaliação crítica (seguindo Pound), ela é uma diluidora de Drummond (inventor [idem] da própria linguagem). De resto, minha expressão sintetiza as principais características que lhe são atribuídas. Sim, é irônico. Mas a ironia também é deste mundo – à exceção do mundo militante em que a ironia é uma ofensa mortal.
Também há de desagradar aos desagradáveis minhas considerações à poesia de Hilda Hilst, que, como Adélia, é um “ícone” da poesia feminina brasileira, com o acréscimo “progressista” (Adélia é católica) de Hilda ter sido “maldita”. Só mesmo um misógino careta de extrema direita ousaria não louvar irrestritamente sua obra. Apesar de fazê-lo no contexto do elogio crítico-analítico de outra poeta, Orides Fontela, que por acaso era mulher, pobre etc.
Quanto a Paulo Leminski, tornou-se o “ícone” maior da poesia brasileira contemporânea – e parte importante da academia, com as exceções de praxe, é hoje “companheira de viagem” dos consensos culturais-ideológicos “corretos”. Verdade que era homem e heterossexual, mas compensava tais incorreções sendo de esquerda, “contracultural” (“kamiquase”, “cachorro louco”, trotskista), pretensamente meio (ou um quarto) mulato e outras mitologias. Leminski é um “darling” do “progressismo” – entre aspas, pois se trata de um progressismo decaído e apequenado. Tal “progressismo”, de que o identitarismo (wokismo) é a doença senil, apesar de uma relativa regressão recente no mundo extramuros, domina, gramscianamente, a academia e também o meio literário.
Voltando aos fatos, apesar de tudo sou o único poeta brasileiro contemporâneo a ter um livro apresentado por Leminski.[18] Gostava bastante do homem, e respeitava o literato, mas nunca incensei sua poesia. Entre o “capricho” e o “relaxo” que o próprio Leminski reivindicava, oximoricamente, para sua obra a um só tempo construtivista e pop-contracultural, o relaxo venceu por ippon: “amar é um elo / entre o azul / e o amarelo”. A poesia e, particularmente, a poesia contemporânea exigem muito mais no trato com a linguagem poética, como bem sabia Orides Fontela (“não há perguntas. selvagem / o silêncio cresce, difícil” [portanto, tampouco respostas]). Assim como, na poesia subsequente, Régis Bonvicino (“não há saídas / só ruas viadutos / avenidas”).[19]
Daí referi-lo aqui – mas não citar, neste texto ou na minha “Introdução”, outros nomes contemporâneos a Orides (e também a Bonvicino), nascidos nos anos 1940 (como a primeira, ou nos anos 1950, como o segundo), notadamente os da “poesia marginal”, da “geração mimeógrafo”, da “poesia confessional”. Variações de uma mesma linguagem, que pode e deve ser sintetizada em uma mesma expressão: poesia fácil (revista agora, revela-se um prenúncio da poesia atual). E nada é mais fácil que fazer um poema fácil. O contrário também é verdadeiro. Não por acaso, quanto mais fácil a poesia, pior envelhece. Minha omissão é uma afirmação.
Orides Fontela, apesar do preciso alerta de Rita Palmeira (“a homenagem [da Flip] parte do desejo de resgatar uma obra tão forte e relevante quanto breve e deslocar o foco da vida turbulenta de Orides para suas palavras”), e malgrado ela própria, é um prato cheio e cheiíssimo para as abordagens mais militantes: mulher, pobre, periférica (do interior de São Paulo), antissocial (antissistema?), “orientalizada” (antiocidental?). É identitariamente corretíssima (para quem assim o queira). Régis Bonvicino parece ser o oposto: homem, hétero, branco, paulistano, “empoderado” (advogado de profissão) e, se não bastasse, asperamente avesso ao provincianismo satisfeito de nosso meio literário. Não parece ter nenhuma das “credenciais” pessoais corretas em tempos essencialistas (apesar mesmo de ter sido sempre manifestamente progressista). Ocorre que sua poesia tem todas as credenciais propriamente poéticas.
Nesse contexto, uma futura Flip com Régis Bonvicino como autor homenageado não aumentaria a importância incontornável de sua obra, mas sua ausência diminuiria a relevância da festa. Assim como a ausência de Poesia completa em relação a Orides Fontela.
______________________________________
[1] Cf. <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/02/Flip-regata-do-silencio-a-proleta-orides-fontela-poeta-e-proletaria-da-palavra.shtml
[2] Ibidem.
[3] Cf. <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/walter-porto/2026/05/orides-fontela-tem-ineditos-descobertos-e-lancados-antes-de-sua-homenagem-na-flip.shtml>.
[4] Obtidos e confirmados em maio/junho/julho de 2026.
[5] Estarei na Flip participando de uma mesa sobre a poesia de Orides e para o lançamento, em seguida, de O fim do mundo ocidental (prefácio de Alcir Pécora; São Paulo, Quatro Cantos). Livraria das Marés, rua Ten. Francisco Antonio, 52, Centro Histórico, Paraty. Dia 24 de julho, a partir das 13 h.
[6] Se, a partir da publicação deste artigo, Poesia completa reaparecer no site da editora, nada deste texto se altera. Seria apenas uma tentativa de reverter a situação descrita e documentada.
[7] Cf. <https://www.armazemdolivro.com.br/orides-fontela-poesia-completa-novo> e <https://l1nq.com/7babbkz>.
[8] São Paulo, Duas Cidades, 1988.
[9] Não tenho motivos para duvidar das informações que recebi, confirmadas por mais de uma fonte, além dos próprios dados; nem teria sentido procurar Augusto Massi para questioná-lo.
[10] Apesar de, incidentalmente, eu próprio ser egresso do antigo curso de Letras Clássicas e Vernáculas da mesma FFLCH-USP, sou um “forasteiro”, um “invasor” no “círculo oridiano”.
[11] Onde está Mário de Andrade? Onde está a escassa mas incontornável ensaística de João Cabral? Onde está José Guilherme Merquior? Onde está a reflexão crítica, ou qualquer reflexão, dos muitos e mudos poetas brasileiros atuais sobre a poesia brasileira contemporânea?
[12] “A áspera beleza da poesia que renovou o modernismo brasileiro”. Opus cit., pp. 7-17.
[13] Ibidem, p. 9.
[14] A tese adotada pela “Introdução”, apesar de tudo, vem encontrando alguma ressonância, como o atesta a página oficial da Flip: “Orides Fontela […] é dona de uma obra conhecida […] pela atualização que faz do Modernismo. […] ‘Recebeu atenção extraordinária da crítica literária, que via nela uma renovadora do Modernismo’ [Rita Palmeira]”. Ao menos, certa crítica (cf. <https://Flip.org.br/noticias/autor-homenageado-24a-Flip/>).
[15] “A áspera beleza…”, pp. 12-13.
[16] Opus cit., p. 410.
[17] “A áspera beleza…”, pp. 16-17.
[18] Paulo Leminski. “Entusiasmos pãnicos”. In Luis Dolhnikoff. Pãnico. São Paulo, Timbre/Expressão, 1987, s.n.p.
[19] “Esfinge”, Poesia completa, p. 280, e “Não há saídas”, Até agora, São Paulo, Imprensa oficial, 2010, p. 450.

Luis Dolhnikoff publicou os livros de poemas Pãnico (apresentação Paulo Leminski; São Paulo, Expressão, 1986), Impressões digitais (São Paulo, Olavobrás, 1990), Lodo (São Paulo, Ateliê, 2009), As rugosidades do caos (apresentação Aurora Bernardini; São Paulo, Quatro Cantos, 2015 – finalista do Prêmio Jabuti 2016), Impressões do pântano (São Paulo, Quatro Cantos, 2023) e O fim do mundo ocidental (apresentação Alcir Pécora; São Paulo, Quatro Cantos, 2026). Traduziu Arquíloco (Fragmentos; São Paulo, Expressão, 1987, ed. bilíngue), James Joyce (Poemas: Chamber music; São Paulo, Olavobrás, 1992, ed. bliíngue), Allen Ginsberg (Uivo; São Paulo, Globo, 2012, texto integral) e A Torá (São Paulo, União do Judaísmo Reformista, 2021, texto integral). Entre 1990 e 1994, coorganizou, ao lado de Haroldo de Campos, o Bloomsday SP, homenagem anual a James Joyce. Organizou, apresentou e editou a Poesia Completa de Orides Fontela (São Paulo, Hedra, 2015), autora homenageada da FLIP 2026.