Tragam-me um espadachim!, resenha de Eneas Barros




Ilustração: Henrique VIII, por IA.




Um dos períodos mais fascinantes da história dos países que formam o Reino Unido, sem dúvida, foi a dinastia Tudor, que aconteceu entre 1485 e 1603. Os monarcas ingleses que governaram de Henrique VII a Elizabeth I exerceram forte atração entre os historiadores, por terem vivido a essência e o glamour das cortes sobre as quais tinham domínio.

De todos eles, Henrique VIII foi o que maior atenção chamou para si, não exatamente pelos seus feitos e atos políticos, mas por seus amores, que foram tantos. Além de seis esposas que confortaram sua cama, o rei teve várias amantes e filhos bastardos, poucos reconhecidos.

Mas Henrique VIII, além de seus casos de amor, soube condenar e matar impiedosamente muitos dos que ousaram contrariá-lo. A pena de morte, à época, era a decapitação pelo machado – uma execução cruel como foram tantas outras que levaram condenados à consciência dos últimos segundos de suas vidas. Estar diante de um carrasco prestes a decepar sua cabeça não é das melhores sensações, visto que muitas vezes os patíbulos exibiam o sangue ainda fresco de execuções anteriores.

Sabe-se que o rei era um artista, um desportista, um músico e um político hábil. Gostava de compor, de se sobressair em esportes de campo e de arquitetar o apoio de outros reinos ou confrontá-los, caso necessitasse. Mas sua crueldade não precisava de justificativa para ser posta em prática. Por se recusar a reconhecer o rei como chefe supremo da Igreja, o escritor, filósofo e diplomata Thomas More, autor de Utopia, foi condenado à morte por decapitação e teve sua cabeça exposta na ponte de Londres, durante trinta dias.

Cabeças rolavam pela simples convicção religiosa de reis que associavam os seus governos a dogmas católicos ou protestantes ou ainda pelas garras dos juízes inquisidores eclesiásticos, um período de caça às bruxas que durou do século XII ao XIX, trucidando os que desconsiderassem os preceitos cristãos ditados pelo Vaticano. A crueldade e a injustiça levaram alguns personagens ao machado, à fogueira, aos instrumentos de tortura ou ao degredo.

Outro período que tem fascinado a história é o do reerguimento de Lisboa, após o terremoto que destruiu a cidade e fez milhares de vítimas, em 1755. O pulso firme de Sebastião de Carvalho – justiça se lhe faça – foi essencial na recuperação da capital portuguesa. O futuro Marquês de Pombal soube tomar medidas drásticas para reerguer uma cidade destruída pela água, pelo fogo, pelos desabamentos e também pela ação de saqueadores e ladrões, que se aproveitavam da vulnerabilidade das vítimas e de seus bens.

Mas o poderoso secretário do rei Dom José I escondia uma face cruel, impiedosa, que a poucos foi dada conhecer. Sebastião de Carvalho não poupava esforços para condenar, muitas vezes inexplicavelmente, como fez com Isabel Juliana de Sousa Coutinho, a moça que se recusou a desposar seu filho, ou quando levou ao patíbulo uma família inteira e seus amigos mais próximos, aproveitando-se de um caso de tentativa de regicídio para eliminar os que lhe faziam oposição, como os Távora.

Correndo paralelo a essas aventuras do tempo, um livro encontrado em 2015, na biblioteca de Lanhydrock, na Cornualha, me chamou a atenção. Pesquisadores Tudor descobriram essa preciosidade de forma inesperada, ao verificarem que estavam diante do livro que continha os argumentos filosóficos estudados pela equipe de Henrique VIII, para consolidar a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão e para torná-lo chefe supremo da Igreja na Inglaterra.

Pouco se sabe, no entanto, sobre a trajetória que esse livro tomou ao longo de mais de quinhentos anos, sobrevivendo do século XV, quando foi impresso, ao século XXI. É um resumo das obras do frade franciscano William de Ockham, contendo anotações e grifos feitos pelos assessores do rei, como forma de chamar sua atenção para certos detalhes que validariam os argumentos para sua separação. Em essência, o rei pretendia casar-se com Ana Bolena, mas sua ligação católica com Catarina de Aragão impedia o ato. Ele estava esgotado pela espera de um filho varão e seu desejo era arriscar novas tentativas. Dramas e traições conduziram Ana Bolena ao patíbulo, para ser decapitada por ordem do rei. A rainha não aceitou se curvar a um carrasco, com o argumento de que uma rainha não se curva a ninguém, por isso exigiu um espadachim francês para lhe cortar o pescoço.

Curioso com essa história, pude perceber o tamanho da mudança que o livro de William provocou não apenas à religiosidade inglesa, mas também ao seu sistema civil. O livro se perpetuou, acabando por se acomodar em uma das prateleiras da biblioteca de Lanhydrock, onde permanece desde o século XVII.

Tenho observado que algumas pessoas exprimem a curiosidade em saber se os fatos narrados e seus personagens são verdadeiros, nos romances que escrevo. O escritor inglês Ken Follet, autor de “Os pilares da terra”, disse:
 
“Mesmo as forças econômicas que movem fatos históricos têm sua dimensão na vida íntima. Num livro de história, você sabe que o preço do pão ficou alto. No romance, você vê o desespero do homem para alimentar sua família”.
 
Essa é a essência das diferenças que repousam entre o real e o imaginário, que me levou a escrever o romance “Tragam-me um espadachim!” (Nova Aliança, 2018). Neste livro, episódios da história acima são contados pelos olhos da ficção. Os personagens frequentam a vida real e se misturam a ela, de tal forma que, para muitos, alguns podem parecer verdadeiros, pois os tornam próximos do entendimento e facilmente identificados no contexto dos fatos que correm paralelos à história. Sobre tudo isso, há uma responsabilidade com a informação, porque, de certa forma, o personagem exibe um ponto de vista bastante peculiar sobre sua visão do mundo que o rodeia, dentro de uma coerência espacial e temporal. Isso é o que acontece durante toda a narrativa.

“Tragam-me um espadachim!” é, portanto, uma obra em que a ficção se mistura à realidade, para compor a dinâmica da narrativa. Contém, ao final, um quadro cronológico que explica os fatos ao passar dos anos e a origem e o destino de cada personagem, para facilitar o entendimento das épocas em que viveram, além de um roteiro pitoresco pelos lugares em que a história se passa e um vasto rol de fontes consultadas. Desejo a todos uma boa leitura e deixo clara a minha admiração pelos historiadores, que nos facilitam a compreensão do passado que sempre me fascinou.






Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

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