Coluna Luís Palma Gomes: Bloqueio existencial

Ilustração: Dariusz Klimczak


Às vezes, parece que tudo se concerta para nos silenciar a escrita: o cansaço, a desvalorização social do ofício de escrever — até os elogios nos podem esmorecer a vontade, ao confrontar-nos com a impossibilidade de fazer tão bem, ou melhor, do que da última vez.

Este bloqueio, externo ou interior, não é, felizmente, permanente. Segundo Heidegger, a consciência não é uma função moral contínua, mas sim um chamada ocasional, uma pergunta pela autenticidade do nosso Ser. Algo como: “O que faço aqui?” ou “Por que estou a concordar, ou a discordar, com esta posição?”

Somos atravessados pelos mais diversos estados de espírito, todos determinados pelo contexto da nossa existência, num determinado lugar e momento. É esta condição situada num espaço-tempo que o filósofo exprime no seu célebre conceito de Dasein — o Ser-Aí.

Apesar do cansaço, da vergonha de fazer pior do que antes, temos de continuar a escrever. Se não o fizermos, asfixiamos. Calamos a ejaculação das palavras antes do orgasmo, antes do último ponto final.

Não escrever o que a alma nos soletra é isso mesmo: um coito interrompido — ou pior ainda, nem sequer iniciado.


Brandoa, 01 de agosto de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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