Coluna Lila Maia: Inesgotável + 3 poemas

Ilustração: Vince D.


INESGOTÁVEL
  
Já fui tão antiga querendo ser feliz.
Mas ele chega louco demais para o meu corpo.
Me arrasta, porque sabe que serei magma
neste doce deslumbramento das marés altas.
E feito um guerreiro suas mãos tocam
onde só existe falta.
Este homem me habita com fúria e pássaros.


ACONTECE
 
Não tenho o coração no lugar certo,
mas não movo montanhas para ser amada.
É à mão livre que meus desejos se espalham no teu corpo.
Se sou feliz à beira do abismo
— eu me debruço,
sou feita de músculos, gestos.
Cada gemido é só mais um galope
e meu coração voa.
Ele é o grande senhor das tormentas,
que crepita na noite,
que vai de um lugar a outro
de uma rua a outra
como se de repente tivesse a posse:
sem remédio a vida se entrega.

 
POEMA QUASE FELIZ
 
Era um elefante o amor por aquele homem.
E havia desejos de possuir um céu azul sem fim.
Tantas horas puras tivemos
que quase acreditamos naquela perfeição
plena de Deus, do diabo.
Agora que uma África nos separa,
compreendo por que minha vida
é só exaltação de terra e estas mortes súbitas.


CALMA E MÚLTIPLA
 
Chamem a ambulância cotidiana
a vida escapa em grandes doses.
Essa febre no último andar se curva, avança
entre a espessura da felicidade iminente
e as paredes da alma.
O que transborda não me deixa fugir a nado:
há um vazar de raízes me ocupando inteira
o ponto de partida voltando sempre
(uma parte de mim com a mesma sede).
 
A ressurreição de cada dia não tem registro
nem um toque de arte-final.




LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS  MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.  

Uma resposta

  1. Parece que o erótico é o cotidiano, o dia comum, aquela fila, o sinal que vai abrir, os intervalos dos empreendimentos, as palavras sem meios termos. A poesia incômoda para não se esconder na gourmetezação. A poesia comovente com razão e sem razão.
    Construir um erotismo dos amantes e seus abismos sexuais. Mas também, e talvez primordialmente, as coisas da vida ( leituras Freudeanas?) , é um autenticidade corajosa e espontâneo. Já que “viver é perigoso” e “as aparências não enganam não”.

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