
Sonhou como um inseto e descobriu que cores e sons, aqui, são mais importantes do que enredos, distinguiu muitas tonalidades de verde, percebeu tessituras sonoras que desconhecia quando ainda era humano, então experimentou uma paz, muito rara entre os homens, e que talvez fosse mais comum entre insetos. Dentro dela a sutil alternância de tons de verde e ruídos de outros insetos e do vento na vegetação. Uma falta de responsabilidades, nada precisava ser pensado, no máximo sentido, e mesmo essa necessidade, parecia não obedecer a nenhuma ordem individual, a vida era coletiva. Ele era todos os outros de sua espécie, e ela, a espécie, era uma maneira que a vida descobriu para enxergar pelo menos parte de seu retrato. E aqui os sentidos se misturam, tudo parece um denso sentir pontuado por imagens e sons. Não há emoções ou tempo. Ocorre o viver, que não tem fronteira com o sonhar. Até que tudo se transforma, a alma do louva-a-deus encontra um par de olhos e mergulha.
Mas aqui a situação é interessante e exige uma explicação mais apurada. Assim que voltou a ser humano, o personagem dividiu-se em três. O sonho transferiu-se para três sonhadores, além desse narrador que deve fazer parte de algum dos três, ou talvez represente uma quarta figura que permanece incógnita. Mas por enquanto vamos nos esquecer do narrador e nos ater aos três sonhadores. São três pessoas, um homem e duas mulheres, que vivem em tempos bastante distintos. Cresus habita a península da Anatólia, no desmoronar no Império Romano, século 4 D.C., Sarah é uma enfermeira inglesa que durante os sonhos vive na Londres bombardeada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, e Utica é uma europeia do leste, que habita os grandes campos de coexistir, e se ocupa da manipulação genética dos alimentos que lá são produzidos, e naquela noite em que dormiu e compartilhou o grande sonho, faltavam apenas alguns dias para o início do século 23.
Disse que Utica compartilhou o sonho, mas talvez esse não seja o termo exato. O sonho uniu os três personagens sem que eles percebessem. Cada um deles só conviveu com referências que lhes eram familiares, mas a grande voz, que cantava a realidade era a mesma. Apesar de soar para cada um em um ritmo diferente. Mas não era só isso, aliás, isso não passa do primeiro dia em uma longa vida. Ao mesmo tempo cada um deles experimentou sensações vividas pelos outros, que eram inéditas para si mesmos. Descobriram detalhes que jamais perceberam, e que somados formavam parte importante de suas vidas.
Vamos com calma, a descrição de algo assim tão estranho precisa de uma tomada de fôlego, de reflexão e adequação do que deve ser narrado à limitação lexical a qual estamos sujeitos. O mundo dos sonhos não cabe em palavras, por isso o que vou dizer pode parecer com algum texto mal traduzido, onde grande parte da gema do ovo escorreu por vãos da panela e o que chega ao prato é menos do que devia, menos sabor e quantidade. Feita essa justificativa, continuemos: a voz a que me referi, e que cantou melodias que, apesar de serem ouvidas de maneira particular por cada um, continham o mesmo conjunto de notas musicais, essa voz, também era a de cada uma das três pessoas. Sim, individual e coletivo aconteciam ao mesmo tempo, e apesar de isso parecer um paradoxo, eles, os paradoxos, representam apenas as águas mais rasas do universo dos sonhos. Cada um dos três cantava sua história que também não era sua, era dos outros dois, sendo que as vozes eram e não eram suas.
Sei que está ficando complicado, mas o problema não é de quem lê, e sim de quem descreve aquilo que, talvez, não possa ser descrito. De qualquer forma não posso voltar atrás, preciso prosseguir. Se me perder e arrastar junto alguns leitores, pelo menos eles conhecerão um pouco de uma mata escura cheia de ruídos que nunca ouviram.
As memórias, elas se misturaram. Sim, isso mesmo, cada um recordava-se de sua vida e também de trechos, relembrados sob a névoa da falta de certezas das vidas dos outros dois sonhadores. Utica olhava para os campos do oeste da Europa e de alguma forma, no lugar das grandes lebres que corriam por aquelas pradarias sentia a presença ofegante dos bárbaros, que quase 20 séculos antes transformaram o velho mundo em uma imensa mancha de sangue. Ela sentia a agonia da presença inimiga, da falta de controle social e da vulnerabilidade da mulher. Ao mesmo tempo, Cresus, enquanto sonhava, experimentava recordações não vividas, lembrava-se de uma solidão característica da sociedade pós-industrial e que se tornou o grande mal do mundo em que Utica vivia. Ele, um homem prático, vivendo em tempos em que aquilo que não fosse prático deveria ser religioso, não compreendia o que significava e de onde vinha aquela solidão. Lembrava-se de campos de batalhas vazios, de lebres fugitivas, e elas carregavam consigo esse sentimento, desapareciam na bruma e transformavam suas certezas em dores.
Com Sarah não era diferente, destroços dos séculos 4 e 23 também a influenciaram durante o sonho. Os aviões alemães, que derramavam bombas sobre sua Londres, representavam o peso que sentia sobre os ombros e a falta de ar que parecia furar seus dois pulmões. Mas ela, assim como os outros dois, também tinha seus momentos de aconchego, quando os medos são esquecidos e o calor que se espalha pelo rosto parece indicar que, durante aqueles instantes, que enquanto são vividos parecem eternos, nada poderá feri-la ou perturbá-la, tudo o que existe conspira a seu favor, e o universo segue pelo único caminho que existe.
Feitas essas apresentações agora é hora de descermos um degrau, o primeiro de muitos. Durante esse sonho, Cresus, Sarah e Utica, não misturaram apenas suas histórias e se influenciaram mutuamente. A mistura foi infinitamente maior, muitos outros séculos fizeram parte dela, talvez milhares deles. E o tempo foi apenas um dos muitos ingredientes dessa mistura. Um ingrediente importante, é fato, principalmente como meio de transporte, foi através do tempo que os três conseguiram entrar em contato e serem influenciados por pessoas que viveram muito antes de seus nascimentos ou muito após suas mortes. Foi ele que possibilitou o conhecimento de ideias e descobertas, de expressões artísticas e filosóficas que não ocorreram durante seus curtos períodos de vida. Mas, o tempo, e tudo o que pode conter em seu estômago, não representou a única influência. Nem a maior.
A essa altura a curiosidade deve estar cutucando os leitores. As influências foram muitas, já compreendemos, mas Influenciaram o quê? Qual o enredo desse sonho? Ele teve um? A resposta para essa última questão é complexa. Sim e não. Ainda se lembram do louva-a-deus e daquilo que foi descrito como seu sonho? Pois então, as coisas passam por aí. A contemplação e paz do inseto elevaram-se a maior potência que os números podem simbolizar, e ganharam caldo, densidade. O complexo transformou-se em infinito, o imenso em eterno, mas tudo poderia ser contido em pequenos frascos e simbolizado por acontecimentos cotidianos. Podemos chamar isso de enredo? Talvez.
A dúvida, nesse caso, passa a ser a substância mais sólida, os tijolos de nossa construção. Mas não foram apenas insetos que emprestaram seus pontos de vista para a grande composição, de leões a macacos, de dinossauros a vírus, de inteligências sem corpo físico a grandes constelações de ideias, da grande mente coletiva nascida através de milhões de anos de evolução tecnológica, até a pouca consciência diluída e que está contida em pedras, mares e planetas. Tudo estava ali. Mas aquele que sonhava, o gestor de toda essa festa sem hora para acabar, foi o mesmo jovem cheio de dúvidas que dormia sob o laranjal e não sabia que rumo dar a sua vida. Seu sonho compreendia até essa narração e a figura do narrador.
Pronto. Descemos mais dois degraus, as coisas começam a perder a luminosidade, mas a escada prossegue até que percamos seu fim de vista. É para lá que vamos, ou pelo menos, é naquela direção que devemos descer. Quem nos obriga além da força da gravidade? Não sei. Para isso talvez não haja respostas, ou então, ela seja tão complexa que, na prática, não serve a ninguém.
Continuemos. O sonho se desenrolou, como um diploma envolvido por um anel de papel que se rompe, e aos poucos vai abrindo seu conteúdo, usando das forças aprisionadas na compressão, para que seu corpo floresça e seu conteúdo seja exposto ao mundo. As pessoas, Cresus, Sarah, Utica e muitas outras, milhares, milhões, bilhões delas, misturaram suas vidas, mancharam o universo e, por conseguinte, o sonho com todas suas consequências, que se emendaram para depois serem rasgadas novamente e se unirem a outros retalhos. E depois, como acontece com qualquer um, todas essas pessoas morreram.
Mas, assim como tudo o que havia antes do nascimento de cada um desses seres humanos, e também o processo que os levou a existir, da mesma forma, o processo que os levou a morrer e tudo o que existiu após cada morte individual, além de todas suas consequências e a falta delas, também participou do imenso sonho que continuava se desenrolando. E muito do que é mistério enquanto estamos acordados revelou-se nesse sonho. As transições, por exemplo, deixar de não existir para existir, da mesma maneira que o caminho contrário, são acontecimentos que se parecem para aqueles que os estão experimentando. Gotas d’água idênticas, que sob uma perspectiva universalista, tem o mesmo sentido e importância. Se mergulharmos mais fundo nessa análise, nascer e morrer, para o universo, são exatamente o mesmo acontecimento.
Os gargalos, onde ocorre a transição, além de instantes de angústia, servem de aprendizado. Mas também essa angústia e esse aprendizado são espumas de ondas que chegam à praia e se dissolvem sob o calor do sol. O que não significa falta de importância. Tudo possui a mesma importância, que, conforme o ângulo e os desejos de quem enxerga, pode ser grande, pequena ou nula. Mas quando não há olhos, e tudo apenas acontece porque se cansou de não existir, então desaparecem as diferenças. Os objetos são também as sombras de si mesmos. O coração congela dentro de um mar de labaredas, e isso é perfeitamente aceitável.
O sonho continuava a se desenrolar, e o fazia em todos os sentidos possíveis, tanto físicos, invadindo dimensões desconhecidas, quanto ideológicos, molhando apreciações de alguém ou algum animal, memórias vividas e outras imaginadas, sentidos aprisionados em busca de corpos e consciências que os pudessem libertar. Tudo explodia como uma chuva de cores contida dentro de nuvens preguiçosas. As gotas eram liberadas aos poucos e de maneira aleatória. O sonho formava poças no chão e refletiam as nuvens que pareciam as grandes forças criadoras. A mente, ou o útero de onde saía tudo o que se espalhava pela superfície daquele planeta sonhado.
Era um planeta estranho, nada parecido com o nosso. A paisagem era desolada, pouca vegetação e muitas pedras enormes desenhando esculturas que tentavam representar a figura humana em diversas atitudes dramáticas, principalmente olhando para o céu, abrindo os braços e tentando gritar alguma coisa na direção das estrelas. Mas a diferença fundamental não se referia à paisagem. No planeta sonhado tudo acontecia de maneira diferente. O tempo era outro. As coisas não se sucediam e, aparentemente, não geravam consequências como acontece em nosso mundo. E se o fizessem, talvez conseguissem escondê-las perfeitamente. Mas, aparentemente, nada deixava rastros, após brotar, a flor desaparecia. Não havia memória, o que torna a descrição do que existiu naquele sonho, uma peça de ficção.
Mas, no fundo, não será tudo ficcional? Não seria a verdade apenas uma faceta perecível da existência destinada a perder suas pétalas? Os rastros de tudo o que é humano rasgavam o horizonte daquele planeta sonhado. Luzes verdes que manchavam os céus, auroras boreais feitas de cinco dimensões, escorrendo sobre oceanos de pedra para depois silenciarem por milhares de milênios. As emoções e dores, a felicidade e as grandes ideias escorriam do céu em uma chuva ácida e empoçavam um chão sem capacidade para engolir aquele líquido viscoso. O homem, mesmo lá, estava condenado a permanecer sobre aquele solo. A luz fluía sobre o mundo. Mas os escuros derretiam tudo o que ela construía. O homem e toda sua carga de existir, continuava desaparecendo, sem certezas ou consequências. Sobre suas vontades passeavam réstias de um céu, que também poderia ser mar, e que era tão lilás quanto a palavra nos quer fazer crer.
Esse oceano de raios, moléculas e calor, era amarrado por um tempo de uma qualidade rara. Os grãos de areia da ampulheta escorriam, mas ela não possuía a parte de baixo. O tempo, aparentemente, não se acumulava ou gerava consequências. Era, talvez, um tempo infantil, que ainda não havia aprendido todas suas funções, e não exigia de seus vizinhos as obrigações que começaria a exigir assim que se tornasse adulto. Portanto, os raios e moléculas poderiam continuar suas vidas alternadas e aleatórias, sem medos, apreciariam com encanto a infância daquele animal, que quando plenamente desenvolvido, se transformaria no rei das selvas.
Mas se não havia consequências, e nada se acumulava, como poderiam Cresus, Sarah e Utica e suas respectivas histórias, consequências e sombras, existirem dentro de um mundo que não suporta esses pesos? Outro paradoxo. Eles existiram. E não existiram. E as duas coisas aconteceram. E não foram só elas, muitas outras também, coisas, pessoas e acontecimentos que vinham acompanhados de seus exatos opostos e acabavam sendo aniquilados, e outros e outras que destruíam-se parcialmente e as sobras do que não era aniquilado, manchavam a superfície do planeta e riscavam a existência do sonho.
E esse foi apenas o princípio do imenso sonho. Depois disso tudo se complicou. Uma imensa luz desceu sobre o mundo, anulando tudo o que existia (pelo menos suas respectivas imagens e sombras). O mundo e seus eventos prosseguiram, mas já não possuíam uma referência imagética. E isso não se devia à falta de luz, mas ao excesso dela, o que acaba sendo igual. Então o sonho misturou trechos dessa luz, mas eram todos tão iguais, que era como se nada existisse ou se movesse.
Vocês ainda se lembram daquela longa reflexão sobre livros do capítulo anterior? Então surgiu uma imensa semelhança entre sonhos e livros. Ambos não podem existir, se nada existir para ser contado. É impossível encher duzentas páginas com uma luz que brilha e transforma o mundo em uma grande escuridão. O mesmo vale para os sonhos. Então, pensando em sua própria sobrevivência (abro aqui esse parênteses para adicionar uma frase que me surgiu quando mencionei o risco de vida que o sonho corria: A morte de um sonho é o nascimento de um novo dia). Encerrada essa minha curta e frágil carreira poética, voltemos aos livros e ao sonho, assim como acontece com os livros que podem ser salvos pelo próprio autor, podemos também salvar um sonho que está prestes a terminar, a chocar-se contra um muro de concreto. Não sei se nesse caso o responsável pelo salvamento foi o próprio sonhador ou alguma figura oculta em sua sombra, mas a imensa luz que tudo inundava começou a perder o seu vigor.
Logo, os olhos puderam distinguir as primeiras formas e as sombras fugiram de seus mausoléus. O mundo renascia. Mas antes desse renascimento ele, de fato, não havia nascido. As cores agora se espalhavam pelos lugares e nas tonalidades em que costumavam ocupar quando se está acordado. O mundo feito de efeitos e consequências parecia estar de volta. Parecia, pois não há nada tão diferente quanto aquilo que possui uma aparência que se assemelha, mas difere na raiz, no coração e comporta-se de maneira radicalmente diferente. E era esse novo velho mundo que estendia seus tentáculos sobre esse novo planeta-sonho.
O cenário, uma vasta planície verde rodeada por montanhas de altura média com os topos cobertos por neve. Um homem caminha, está vestido com roupas que não identificam a época do acontecimento. A variação pode ser de um milênio, mas aqui o tempo, apesar de estar presente, não parece ter muita importância. O que conta é o ritmo do caminhante, mesmo que o ritmo possua uma ligação intrínseca com o tempo, nesse caso, bastante estranho, ele, o ritmo, existe de maneira independente, e comanda o sentido daquilo que está acontecendo. Aí poderia morar mais um paradoxo, mas logo percebi que, se começasse a contá-los, deixaria de perceber coisas muito mais interessantes que acontecem ao redor. Eles existem, estão por todos os lados e isso é suficiente. Vamos deixá-los em paz.
O homem caminhava na direção das montanhas. Parecia descansado e sem pressa de chegar a seu destino. Seus passos eram sólidos, os pés pareciam não ter dúvidas da direção. Aquele ritmo era decidido e enfadonho. Mas algo aconteceu: a indeterminação. O homem parou de caminhar e seus pés apontaram para direções diferentes. Os dedos moviam-se dentro do sapato, o suor molhava suas meias. O ritmo, que naquele caso era tudo o que importava, estava suspenso, ou então vivia em dimensão desconhecida. Outros podem afirmar que, assim que ele recomeçasse a andar, o ritmo apenas se sofisticaria, e deixaria de ser enfadonho. Então seus dedos dos pés esqueceram o nervosismo e escolheram uma direção. Os primeiros passos ainda foram dados sem certezas, mas ela, a certeza, que parecia atrasada, logo alcançou o caminhante, imprimindo sobre a terra passadas vigorosas.
A interrupção na caminhada agora parecia aquela pausa que constrói a música e não permite que ela seja apenas um acumulado de notas musicais. Talvez outras pausas fossem necessárias, ou talvez apenas um aumento ou diminuição na velocidade de caminhada. Tudo parecia acontecer da maneira correta. Essa ideia invadiu seu pensamento assim que ele olhou para o céu e não viu nada além de azul. Depois muitas nuvens cobririam seu caminho, mas também elas seriam parte do caminho. Inexorável, tudo parecia ter essa qualidade.
As paisagens foram mudando, as montanhas nevadas ficaram para trás. O homem descobriu que seu corpo precisava de descanso e não poderia caminhar indefinidamente. O céu azul escureceu e amanheceu rasgado por relâmpagos. Ele continuou a caminhada. Estava encharcado, seus pés enfiavam-se no lamaçal e a velocidade diminuiu à medida que o cansaço aumentava. A planície, aos poucos, foi ganhando árvores e gradualmente se transformou em floresta. O ritmo adquiria uma complexidade difícil de ser compreendida, talvez não fosse feita para isso. Deveria apenas ser sentida. Dentro dela morava um coração, que pulsava forte mesmo nos momentos em que os pés fraquejavam. Era ele o motor do ritmo, o criador da sinfonia, o resumo das vontades. E ele prosseguia, alheio às mudanças de cenário, aos humores do caminhante e às cores estranhas que desciam dos céus.
Seus pés já não tinham o mesmo entusiasmo do início da caminhada, mas outro, também ritmado. As certezas não precisavam mais existir, mas esse fato não era suficiente para espantar sua determinação. Uma vontade que não dependia de prazos e parecia saber que, tudo, a seu tempo, acabaria acontecendo. As árvores foram crescendo e cobrindo todo seu campo de visão, os céus eram um retalho que eventualmente aparecia entre as densas copas. O calor aumentou e seu suor atraiu insetos que circundavam sua cabeça zumbindo. Foi preciso uma pausa e muitos movimentos para perceber que eles seriam inúteis e que precisaria se conformar com a presença dos insetos. Faziam parte do ritmo, assim como todo o resto.
Na floresta, enquanto caminhava, e apesar dos insetos, conseguia escutar, mesmo sem ver, animais que pareciam se manifestar com sua passagem. Aquilo talvez fosse uma saudação, estava sendo reconhecido e cumprimentado. Agradeceu com um movimento de corpo e continuou caminhando. A mata mudou de cores, as árvores diminuíram de tamanho e aumentaram em densidade. O céu mostrou mais vigor, e alguns galhos espinhosos deixaram marcas em sua pele. O vermelho foi examinado entre os dedos e depois ignorado. Havia também espinhos espalhados pelo chão, e eram fortes o suficiente para atravessarem as solas de seus sapatos. Com essas dores precisou prestar mais atenção. Antes de caminhar examinava onde pisava, aprendeu a desviar dos espinhos. Foi justamente enquanto olhava para o chão que percebeu uma luz diferente, que não parecia vir do alto das copas.
Encontrou um lago de águas cristalinas onde lavou seus ferimentos, o que diminuiu o número de insetos que o seguiam. Descansou à beira das águas. Olhando para cima reencontrou nuvens, que se moviam com velocidade, parecendo indicar que alguma mudança brusca na estrutura do ritmo estava prestes a acontecer. Mesmo assim, a dança das nuvens trouxe uma paz que fez com que, momentaneamente, perdesse a consciência. Acordou sem recordações e custou a reconhecer o lugar onde estava e mesmo a lembrar-se quem era.
Retomados os fios do raciocínio, ficou de pé, pois sabia que precisava prosseguir. Logo se deu conta de que isso era tudo o que sabia. Então, foi surpreendido por um barulho. Uma jovem enchia um jarro no lago. Ela não o viu. Ele decidiu que iria segui-la. Permitiu que se afastasse, e durante esses curtos instantes percebeu que as coisas haviam mudado. Sim, seu mundo ritmado, doravante conheceria novas tonalidades e profundidades. Os insetos foram embora e precisou correr para não perder a moça de vista. Percebeu que logo após o lago, a vegetação diminuía ainda mais. Havia caminhos demarcados no chão e não demorou para que enxergasse a primeira casa construída de madeira.
Um pouco adiante, encontrou outras casas e várias pessoas. Havia uma espécie de praça central com alguns homens que conversavam e onde um relógio de sol mostrava que o dia estava em sua exata metade. Estranhou não despertar a atenção de nenhum dos moradores que agiam como se ele não existisse. Continuou o passeio pela aldeia que terminava de frente para o mar. Antes disso havia um grande rochedo que se erguia, uma espécie de desafio de pedra à grandeza das águas, e onde pôde ver duas pessoas que estavam no cume e que pareciam conversar tranquilamente.
Pensou em escalar o rochedo, mas as areias brancas da praia chamaram mais a sua atenção. Passeou sem rumo, não sabia se sua sequência de descobertas estava encerrada ou se ainda lhe restavam novos caminhos. Um barco de pescadores dormindo silencioso sobre as areias era uma possibilidade. Mas desde que iniciara seu percurso, nunca tivera tão poucas certezas. Deixou que seus pés fluíssem sem destino, até que seu peito começou a pesar. Perguntas borbulhavam como bolhas em água fervente, nenhuma delas havia estourado, mas muitas estavam prestes.
Voltou para a relva para descobrir o resto daquela pequena civilização. Um bosque repleto de laranjeiras espalhava-se à sua frente. Sob as árvores um jovem dormia. Nesse instante suas dúvidas cessaram. Os barcos e oceanos precisariam ser esquecidos pois seu caminho era na direção daquele jovem. Enquanto caminhava em sua direção, pela primeira vez desde que iniciara seu percurso, percebeu que se possuía uma certeza, também carregava uma grande dúvida. E, talvez, esses poucos instantes que o separavam de seu destino, devessem ser usados para tentar saciá-la.
Não sabia quem era. Desconhecia suas origens e a história pregressa do instante anterior àquele em que decidira iniciar a caminhada. Desconhecia também um sentido para sua missão, e se, de fato, existia um. Não sabia se obedecia a ordens ou seria o completo senhor de seu destino. E sabia que cada uma dessas questões poderia se ramificar em muitas outras.
Respirou fundo, pois suas pernas o aproximaram do homem que dormia e sua mão pousou sobre o ombro dele. Os olhos se encontraram, e depois disso, ambos olharam para o alto das laranjeiras. Os dois tiveram dificuldades para distinguir entre um mar de folhas verdes, os grandes e pesados frutos, que inclinavam galhos e tinham a mesma cor das folhas.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
