Luminescência de Ada, conto de G. Monteiro


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(…)

Com o olhar de alívio dando ao rosto um gesto mais claro, a mocinha avançava ao encontro do bairro onde morava com os tios. Uma parte do dinheiro das diárias amenizava as despesas com ela.
─ O pouco que dá é de gratidão, dissera conveniente o tio.

─ E depois é o que Adazinha pode fazer, dissera a tia irônica, com um pouco de piedade.

Os últimos raios do dia caíam fáceis, os pardais reunidos nas copas fechadas das árvores tramavam a noite. Os primeiros ventos do crepúsculo faziam-na lembrar o cabelo aloirado e a tolerância dos tios, tendo em vista não amá-la.

As primeiras nuvens escuras iam macias, abaixando o céu. A tranquila escuridão da noite não demoraria, os moradores iam abrir a zona suburbana. De uma janela, uma jovem penteava-se ao espelho. Somado a isso, o cheiro de perfume numa esquina vazia tornava faceiros os passos de Ada. Seguia com a força necessária ao modo de usar a periferia. As calçadas estavam largas e habitadas numa eventualidade de fim de sol. Sobre as calçadas, ela espiava sonhadora as flores baldias, os namorados ainda discretos. De longe, os casebres davam-lhe sentido à irregularidade do terreno, à casualidade geográfica do lugar: casas subindo e descendo por entre curvas em fuga. Tudo para ser olhado e depois não ser olhado mais. Aos poucos, pequenas pretensões formavam aglomerados e as vielas começavam a sufocar docemente a mocinha. Um rapaz apressado parecia o mesmo do ônibus. A mochila e os óculos eram idênticos. Pena não ser um militar, sonhava enamorada. A mochila e os óculos. Era quando os fios da rede elétrica não a faziam ter medo de incêndios. A vida além dos terrenos acidentados, dos girais, das carroças, dos córregos e dos cães nas vielas, da ignorância e exposição dos residentes – a vida além da própria expressão escapava-lhe em deslumbramento de um mundo vil, em amor como reserva. (…)





G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021), Gestos do nada (Litteralux, 2026) e O direito à imagem (no prelo).

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