Miriam, Marjorie… – capítulos de minha história viva: Perce Polegatto

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior)


Ainda menino, gostava de escrever livros que não existiam, que não passariam a existir. Criava a história toda, mas não me animava a redigi-la. Adquiri o vício absurdo de associar livros às coisas que me pareciam importantes, referindo-me, por exemplo, ao amanhecer de um dia como ao início de uma página – o que, mesmo em minha imaginação viciada, não se pautava de muito sentido, já que o dia se processava de baixo para cima (da manhã para a noite), assim como eu o percebia, enquanto a página de um texto ocidental me conduzia de cima para baixo. Não importa, de fato isso não importava, porque sempre me senti livre para criar confusões. E me referia mentalmente à primeira amada como Capítulo 1.
 
Ninguém podia saber que eu a amava. Ninguém podia saber que era ela, especialmente ela, a Capítulo 1 de minha história viva. Registrada em foto coletiva da turma do catecismo, ao final do curso, perto de completarmos nossos dez anos de idade: lá estava ela, um degrau acima, à direita, tão longe de mim, que, com cara de pateta crédulo e submisso, me posicionava abaixo e à esquerda. Uma paixão devastadora, sob a égide e o surdo silêncio dos anjos que povoavam as Escrituras.
 
Eu não sabia ao certo o que era o sexo. Não sabia me masturbar. Era um anjo reprimido, potencialmente humano. O fato é que Capítulo 1 me encantava loucamente, e eu não procurava entender os motivos. Tempos mais tarde, revendo álbuns, foi meu irmão quem lembrou, identificando-a. Apontou seu rostinho com indicador objetivo, livre de sentimentos.
 
“Você gostava dessa menina aqui. (O quê? Como ele podia saber?) O nome dela era Miriam.”
 
“Miriam?”
 
“É, não lembra? Estudou mais um ano na mesma escola que nós, antes de a gente se mudar. Em outro horário, acho que era à tarde. Não lembra?”
 
“Ahn, sei…”
 
Só que eu não lembrava mesmo. Então, Capítulo 1 havia se estendido um pouco mais em minha vida, e eu nem soube mais sobre ela. Em que outras páginas poderia tê-la encontrado sem minha pesada incômoda paralisante timidez? Mas, claramente, nada disso tinha agora a menor importância. Porque estava prestes a ler-viver outro capítulo que me acontecia: a Marjorie.
 
Marjorie. Capítulo 8. Com subtítulos e desdobramentos, notas de pé de página, citações em outras línguas, termos sem tradução, uma ou outra palavra reinventificada. E eu entendia que a Josie era a minha Capítulo 9 – mas não que fosse a número 9, não isso. Ser a Capítulo 9 envolvia outros fatores, por exemplo, como eu via as mulheres então, diferentemente de como via as minhas Capítulo 3 ou 5, com outra maturidade, mas sempre com as minhas mesmas recicladas limitações. Cada uma se destacava em um ponto diverso de meu livro imaginário, que funcionava mais ou menos sempre.
 
Os primeiros dias do ano são como o frontispício desse livro; os últimos, como os dados da gráfica que o realizou. Uma frase ouvida e memorizada em certa idade continua lá, no passado, naquela tarde e luminosidade, como parte de um todo, acrescida das pessoas próximas, do local onde a ouvi, rente às margens da memória, que guardavam cartazes de cinema e canções de rádio, ela quase aparece escrita no ar, como em algum recurso de audiovisuais. Mas não, nunca chega a isso.
 
Por que, em minha instabilidade mental, emocional, sazonal, por que, enfim, recordo um ponto ou outro, mesmo não estando à procura de tal ou qual memória? Um personagem de Coetzee pensou em castrar-se para evitar novos casos com mulheres e para poder pensar melhor na morte. Pensar melhor na morte?! Não, não, mas eu sabia, eu o entendia: isso se traduz por considerar, filosofar, tentar compreender. À parte esse estúpido, drástico, ridículo pensamento, valeria a pena, mesmo metaforicamente, trocar uma coisa por outra?


Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agostoA seta de VerenaMarcas de gentis predadoresProjeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedraA conspiração dos felizesLisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).

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