5 poemas de José Eduardo Degrazia




AS CIDADES ABANDONADAS
 
As cidades despedem-se de si mesmas
afundando na lama dos rios nas enchentes,
ou na areia do deserto que inexoravelmente
vai cobrindo as muralhas e as ameias.
As cidades vão desaparecendo
desde a fundação às cumeeiras,
cobertas pelas lianas e trepadeiras,
penetradas pelas raízes das árvores lindeiras.
Desabam os muros do castelo sobre o vale
que o olhava de cima, a atalaia sobranceira.
As cidades despem-se do orgulho no terremoto,
na guerra, tijolo a tijolo, pedra a pedra,
virando pó no tempo que as envolve e sustenta.
Despem-se as catedrais de sua santidade plena,
abandonadas pelos fiéis nos tempos de cólera –
os sinos chamando os fantasmas para a última missa.
As cidades abandonadas exalam a dor do povo extinto,
aqui pousou a águia, tombou o último guerreiro.
As cidades embriagam-se na solidão do outono,
sob o peso dos oráculos e da aparência de poder eterno –
as cidades desaparecem desabando sobre si mesmas,
sepultando no esquecimento o rei, o sacerdote, o servo.
Muitos ciclos passaram sobre os templos carcomidos pelo musgo,
a chama votiva já não brilha, a fé já não os habita,
só o vento ensaia, inutilmente, algum lamento,
através das janelas sem vidros e sem vida,
só o vento.
 
 
OS CORPOS FINITOS
  
O adventício do vento,
o ausente no tempo
da cidade esquecida
corroída pelo mar
do esquecimento.
 
Os parques entregues
na faina dos insetos,
as estátuas carcomidas
pela ferrugem dos dias
imóveis.
 
As pedras sob o sol,
o pó da estrada
incendiada de sons,
passos de pessoas
desencontradas.
 
Um pássaro revoa
no azul distante,
um barco se afasta
na névoa,
uma mulher canta.
 
Por esta cidade andei
quando a juventude
transmigrava tons,
o amor morava
ao lado.
 
A cidade se desfaz
no sonho, na chuva,
nas portas fechadas
de madeira apodrecida,
assim, desconhecida.
 
A cidade que um dia
viveu comigo,
hoje é reflexo,
pôr de sol
antes da treva.
 
A cidade ainda me leva,
ainda me acompanha,
enquanto os sinos da catedral
dobram os tempos findos,
sobre nossos corpos finitos.


OS REFUGIADOS
 
Coluna de refugiados caminha
sem saber quem o destino domina
ao longo de uma terra devastada.
 
Vem de distantes terras destruídas,
vem de ilusões que ficaram atrás,
vem do calor de terras mais antigas
 
para encontrar aqui o frio, no limite,
a fronteira cada um leva no peito;
pisam o barro, não veem o defeito.
 
Os velhos deuses os abandonaram
nas cidades antigas bombardeadas,
sobrevivendo na faca e à metralha.
 
Ficando nos campos de refugiados,
homens, mulheres, crianças, os fados,
são toda a humanidade abandonada.
 
Assim vai sendo feita a história deles,
um povo que abandona terra e pátria,
para encontrar no longe uma miragem.
 
Atravessam o mar em barcos podres,
e desovam os corpos nesta praia
onde os antigos navios aportaram.
 
Um tempo bárbaro lança na estrada
este povo inteiro sem esperança,
aqui se perde toda a semelhança
 
com o poema de Dante e de Virgílio,
aquele era um inferno para os mortos,
este agora é o inferno para os vivos.
 
Uma criança é encontrada morta
na areia acolhedora da Turquia,
a humanidade nela se esvazia.
 
Uma criança morta sem teoria,
abandonada pelos deuses sírios,
criança morta, e nada mais é sério.
 
Humanidade que prefere a dor,
como abandonas assim os teus filhos?
Quem pode sustar da guerra os demônios?
 
Uma coluna de exilados anda
em busca de um ideal que não se encontra
no mundo indiferente que se dana.
 
Anda menino, atravessa o oceano,
talvez só morto encontrarás descanso
na Europa que levou teus pais ao porto.   
 
 
O EQUILÍBRIO PRECÁRIO DOS CASTELOS
 
Sempre desconfiei da força dos castelos,
de suas altas torres, suas pontes levadiças,
das ameias infiltradas em densos muros,
dos fossos, dos calabouços, das caldeiras;
havia neles algo suspenso desde o alto,
instável equilíbrio sustentando o medo,
o poder que habitava nele, o enredo
do desabar sobre os seus fundamentos,
o receio de ser desmascarado, ruindo
desde dentro, desde os desvãos que em vão
tentavam manter a formidável opressão
de suas cadeias, seus dentes, suas correias.
Imaginavam-se para sempre levantados
sobre a sólida montanha, e foram caindo,
despencando, pouco a pouco, em suas ruínas,
o tempo mostrando sua perícia no desfazer
pedra a pedra a estrutura, a broca, a cárie,
a umidade infiltrando a mortal indiferença,
mesmo antes dos invasores e suas bombardas
terem posto abaixo a última muralha.
Hoje, ainda o castelo se mantém no topo,
mas já não assombra com o seu corpo,
já não pesa, parece leve, solto, um sopro.
 
 
NUMA CIDADE MAIS AO SUL
 
No inverno, depois do almoço,
ficávamos na calçada apoiados na parede
do velho casarão do século XIX, na esquina,
sentindo o bom calor do sol nas nossas mãos,
aquecendo os corpos sólidos e gelados,
jovens estudantes das repúblicas e pensões
numa cidade mais ao sul.
 
Eram momentos de uma felicidade simples –
alguns de nós até cochilavam em pé,
outros cochichavam palavras maduras
como frutas ao pé de uma árvore.
 
O tempo parecia estacionar sobre a cidade,
as madeiras apodrecidas das casas antigas
exalavam resinas sobre as nossas cabeças,
nenhum de nós sabia de seu futuro e sina,
nenhum de nós estará ali para contar a história
dia depois ou após uma década da formatura,
quando os edifícios estiverem desabitados
e as calçadas ficarem definitivas e vazias –
nem nossas sombras para nos fazer companhia,
nem nossas sombras lembrarão daquele dia.

Poemas de As cidades abandonadas (Bestiário).



José Eduardo Degrazia (Porto Alegre, 1951) é médico, poeta, contista, novelista, autor infantojuvenil e tradutor. Publicou dezenas de obras e recebeu vários prêmios, entre os quais: Prêmio Internacional de Poesia da Macedônia do Norte (2022), Prêmios Livro do Ano e Narrativa Curta da Associação Gaúcha de Escritores (2021), Prêmio Internacional de Poesia de Trieste (2013), Prêmio de prosa da Academia Mahi Eminescu — Romênia (2012), Prêmio livro do ano da Associação Gaúcha de Escritores/Novela (2006), Prêmio do I Concurso Universitário de Literatura da UFRGS (1976). Foi finalista, com o livro As Cidades Conquistadas, do Prêmio Oceanos (2025). Ocupa a cadeira n.º 1 da Academia Rio-Grandense de Letras.

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