
Foto criada por IA, sob prompt do autor
Um dia desses, fui surpreendido por um mimo que meu amigo Jorge Riso me presenteou e que provocou em mim uma nostalgia imensa, um desejo de que o tempo pudesse congelar algumas vezes e nos proporcionar mais alguns instantes. Mas, para tudo no mundo, o tempo é finito, embora passe sem parar.
Jorge me presenteou com um estojo Kern Swiss — um conjunto suíço de instrumentos de desenho técnico e artístico de precisão —, de couro marrom, com forração vermelha e o logotipo “Kern Swiss”. Guardava um compasso de precisão, um compasso de mola, um compasso de pontas, um divisor proporcional, uma caneta tira-linhas para tinta nanquim, ponta para grafite, ponta de tinta, haste de compasso e chave de ajuste para manutenção. Não era um estojo escolar, mas um item bastante profissional, já que a fabricante ficou conhecida justamente pelos instrumentos de alta precisão.
Esse foi exatamente o presente que ganhei. Nada o diferenciaria de outros estojos profissionais, não fosse por um detalhe: pertenceu ao artista gráfico Marcos Carocas, um dos maiores arte-finalistas que conheci na vida, desenhista de mão fina, que deu à arte piauiense inúmeras peças publicitárias e pinturas em óleo sobre tela. Carocas, como era conhecido, nos deixou uma saudade imensa quando faleceu aos 65 anos, no dia 11 de setembro de 2024.
Carocas e eu nos conhecemos na Árvore Comunicação, agência fundada pelo professor Marcos Riso e hoje sob a direção de seu filho, Jorge Riso. É uma agência de publicidade e comunicação, com um estúdio bem equipado para gravações em vídeo e ensaios fotográficos. Em uma de minhas visitas a Jorge, ele pegou o estojo, colocou em minhas mãos e disse: “Este estojo pertenceu a Marcos Carocas; é pra você.” Fiquei muito emocionado, mesmo que ele não tenha percebido. Tenho em casa um quadro pintado por Carocas, chamado “Ecocídio”, que mostra uma árvore em formato de mulher sendo abatida a machadadas por um madeireiro, enquanto a natureza chora sobre um rio de lágrimas. O estojo se juntará às minhas memórias, como um instrumento vivo de uma época que não volta mais.
Guardo o quadro “Ecocídio” com carinho desde que Carocas e eu trabalhamos juntos na Árvore, há 44 anos — época em que iniciamos uma parceria criativa, uma amizade dedicada e um apego que só os irmãos sentem um pelo outro. Lembro-me dele com saudade e um sentimento de impotência, por não poder congelar o tempo e reviver os momentos agradáveis que tive ao lado de um grande homem.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).