
LIBERDADE
O poema não nasce urgente.
Ele tem espantos e rumina imaturo
entre as portas do inferno e a vontade de galgar
qualquer muro de credo.
Depois cheio de insulto, pranto, ele desce
como se fosse possível deflorar-se
ou penetrar mais fundo que o verme.
O poema que era para ser unicórnio
dormindo sobre verdes pastagens
é apenas este leão possuído, devorado.
MERCADO DE TRABALHO
Quando o insuportável começa a virar maré cheia,
me pergunto:
por que não me tornei alpinista de empresa
escalando os prédios mais altos da Avenida Rio Branco?
Quatro anos de Letras,
mais dois de Pós em Literatura Portuguesa,
o curso completo de inglês no IBEU,
não permitem que a mesa do café seja invadida
de iogurtes, queijo branco, uvas, kiwi, pêssegos, mamão com mel.
Por que não me especializei em alturas?
Uma estrofe de cor dos Lusíadas
não é suficiente para o trabalho de Call Center
na empresa Silva Lins.
Era preciso ter um diferencial na voz.
Mas eu disse um verso de Camões.
E a menina ao meu lado,
estudante de Propaganda e Marketing na Estácio,
saia justa, corpo bronzeado de Ipanema,
um quê de rouquidão forçado no final das frases,
sai com carteira assinada e um salário mínimo por mês.
A LUA CHEGA ATRASADA
O que ainda resiste é esta fera,
a meia taça de um cristal partido,
outro dia de algum azul impossível.
PAI
Abrimos a janela como se bastasse.
A certeza doída nos roubamos tanto.
Você querendo iluminar o túnel inteiro.
Eu queimando velas como se soprasse.
DANAÇÃO
Estou presa ao meu corpo
feito o poema, desorientado.
O caminho das palavras
é um pé bailarino, leve, vago, indo.
No momento, a palavra nasce
de uma ranhura no peito
e há qualquer coisa de barro
porque deuses e demônios têm fala.
ONDE BEBO PALAVRAS
Das minhas águias sou presa fácil.
Garras, delírios, encostam a cabeça na mesa
não se moldaram aos gestos mais antigos.
Poema nenhum suaviza esta dor.
Com a fome encapelada peço um copo de vitamina
e um hambúrguer com cara de tarde.
O garçom me olha com ares de quem sabe:
toda noite é aqui onde bebo palavras, silêncios,
desejos abissais me habitam.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.