Coluna Guido Viaro: Os dois arremessos   

Ilustração: Tommy Ingberg


O filósofo alemão Martin Heidegger dizia que o ser humano é arremessado para dentro da vida. De fato, sem nosso consentimento, somos transferidos da inconsciência para um estado de consciência. Não nos cabe julgar se essa consciência é muito ou pouco desenvolvida, ou se o período em que estaremos conscientes será longo ou infinitamente curto se comparado às grandezas universais. Esses julgamentos precisariam de parâmetros mais definidos, precisaríamos conhecer consciências mais evoluídas dos que as nossas para sabermos nos colocar na escala de consciência, e descobrirmos em que degrau estamos. Também conhecemos muito pouco sobre o tempo, para afirmarmos que nossas consciências duram muito ou muito pouco, assim como um átomo é um universo tão sem fim quanto as profundezas das mais longínquas galáxias, o segundo pode ser dividido tantas vezes, e abrigar tantas possibilidades, quanto os milênios que se acumulam sem que os céus mudem de figura. 
                                                                                                                                
Então, sem questionarmos os méritos e grandezas dessa consciência e, apenas a aceitando como algo inquestionável, chegamos a uma conclusão: o mais importante evento de nossas vidas, o surgimento de nossas consciências, não depende de nossos esforços. Não há nada que possamos fazer para existirmos. A partir do instante em que tomamos consciência de que existimos, abre-se um leque de possibilidades. Possibilidades essas que nem sempre, ou muito raramente, são exploradas pelo indivíduo. A primeira delas se refere à própria existência, talvez o porquê fosse a primeira pergunta, mas como para ela não possuímos respostas, a segunda pergunta, e talvez mais útil para a nossa condição de seres temporários seria: A vida faz ou não sentido? 
                                                                                                                                         
Não há uma resposta para essa questão, há duas, e ambas podem ser defendidas com argumentos consistentes. Talvez haja dois tipos de homens e mulheres, e cada um deles escolha viver a vida de uma maneira, optando se ela possui ou não, um sentido. Ambas as escolhas podem resultar em vidas ricas e bem- sucedidas, da mesma forma que em vidas vazias, doloridas e nocivas. As estradas em si são feitas das mesmas pedras, possuem a mesma quantidade de curvas, subidas, descidas, há os mesmos penhascos pontudos e a exata mesma quantidade de flores aparecem quando menos se espera. A grande diferença ocorre no momento da escolha, quando a pessoa pesa argumentos, avalia prós e contras, para então julgar e sentenciar. É nesse instante que o homem torna-se grande, à medida em que empilha a maior quantidade possível de argumentos, depois deixa que tudo desmorone, e na confusão dolorida que se segue, toma seu caminho consciente e sem arrependimentos.  
                                                                                                                            
Depois que o primeiro passo é dado na estrada que foi escolhida, a pergunta que tanto atormentou aquele que caminha, perde importância, derrete, o sentido ou a falta dele não faz diferença, o que conta são os passos, as pedras pisadas, as curvas, e as flores. O que importa são as chuvas escultoras de rugas, é a dureza do chão atravessando o esqueleto a cada passo, é o sol rasgando as noites, e ele o homem, e ela a mulher, no meio de tudo, de escuridões feitas de breu e de luzes.  
                                       
Essa é a grande pergunta, a presença ou a ausência de um sentido para a vida, transforma todas as outras questões em secundárias e é nossa grande (e única) resposta para o fato de havermos sido arremessados dentro da vida.  
                                          
Mas há um segundo arremesso, isso mesmo, mal nos recuperamos da surpresa do primeiro, e muito antes de conseguirmos decidir se a vida possui ou não um sentido, somos novamente arremessados. Dessa vez jogados para dentro do conjunto construído por aquelas consciências também arremessadas para dentro da vida, e que é conhecido com o nome de sociedade. A ela somos amarrados por muitas cordas de várias espessuras e comprimentos. A nós é atribuída uma identidade, somos numerados, etiquetados, arquivados, de nossas asas são retiradas algumas plumas-chave, que facilitariam voos mais audaciosos. Contra ela nada podemos fazer, as rebeldias serão punidas com penas ou prêmios. E no final sempre acabamos cercados, e para não deixarmos que nossa condição primeira (a existência), nos seja retirada à força, precisamos levantar as mãos e nos entregar. 
                                                                               
Alguém já disse que não podemos servir a dois senhores, e é isso o que, de fato, acontece. O segundo arremesso, o social, por se tratar de uma ação mais prática e menos ideológica, ou seja, agrupar humanos para que juntos consigam se proteger como raça e se reproduzirem, necessita um comprometimento maior do indivíduo. Se no primeiro arremesso quem trabalhava era o espírito, questionando sobre sentido e existência, no segundo, a sociedade necessita fundamentalmente do corpo do indivíduo. O corpo é a ferramenta que proverá seu próprio sustento, é ele quem criará e manterá em pé os alicerces do tecido social. Por isso a ele será dada maior importância do que ao espírito e ao intelecto. Por outro lado, é ele, o corpo, que sofrerá as punições por desobediência.  
                                                                                   
Corpos que melhor se integram ao sistema social são recompensados. A riqueza é uma das formas de recompensa, e quem a recebe, costuma reinvesti-la em grande parte no bem-estar do próprio corpo. Não há regras proibindo os indivíduos de continuarem se relacionando com o primeiro arremesso, mas o fato é que pouca energia sobra depois da satisfação de todas as necessidades do segundo arremesso. Há também o espírito corporativo aplicado em grande escala: como ninguém se preocupa com aquilo, é que não deve servir para nada mesmo.
                                                
Mas qual será o nosso futuro? O futuro de uma casa cujo interior, que em muitos casos está impecável, uma casa bem decorada, com piso em madeiras nobres, com iluminação pensada sob medida e cheia de móveis e eletrodomésticos para facilitar o dia a dia. Uma casa com quartos arejados e camas confortáveis, mas que foi construída sobre alicerces que nunca receberam manutenção e que aos poucos perderam a solidez. Alicerces que a cada dia perdem um pouco de sua massa sólida e permitem que uma barra de ferro enferrujada se desprenda da coluna.  
                                           
A resposta é simples. O futuro é a destruição de tudo o que existe sobre aqueles alicerces. Nada sobreviverá, nem as facilidades inventadas para satisfazerem aos corpos, nem eles, os corpos. O homem precisa atentar-se mais para os alicerces, ou seja, para o primeiro arremesso. É nele que mora o mistério profundo que pincela de beleza os instantes prosaicos, é ali que brotam os lagos das substâncias com a quais são feitos os homens, essa mistura de mistério e poesia, é ali que nasce o oceano de dores, alegrias, suspiros e sorrisos que chamamos de Ser Humano.   



      

Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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