Coluna Luís Palma Gomes: Atrás dos tempos, vêm tempos

Ilustração: Max Ernst


A vida muda. Até novos sinais aparecem no corpo, sobretudo no rosto, parecendo querer relembrar-nos, a toda a hora, o tempo a passar. Há, porém, algo que permanece como pano de fundo. Até para podermos perceber o movimento do mundo.

Talvez por isso venha para aqui escrever, defronte destas canas e silvas, onde as toutinegras vêm saltar, entoando os seus guturais cânticos.

Ainda muito jovem, grafitei na parede que ladeava o apartamento dos meus pais: “Lá vou eu para a guerra.”, aborrecido de me levantar cedo para ir às aulas. Era um blog a céu aberto, avant la lettre — pinturas rupestres, iguais às de Lascaux.

E já então havia essa vontade de dizer aos outros o que sentia. Havia muitas outras frases e desenhos nessas paredes: “Culube dos Tremendinhos”, onde mais tarde risquei o primeiro “u”, quando me apercebi do erro ortográfico; “A Mónica é estúpida”, libertando assim a minha vingança contra essa namorada que decidiu acabar comigo. Ou ainda um globo terrestre atravessado por um míssil, com a legenda “No Future” , escrito no auge da Guerra Fria, quando se pensava que as armas nucleares cairiam sobre nós.

Hoje haverá outras formas de grafitar as nossas mensagens para os demais, mas menos perenes, penso eu.
 

Lisboa, 12 de setembro de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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