
Imagem gerada por IA
O corpo dorme, amor.
Não responde.
E, aos olhos,
orgulho amarga agora,
massacra esse que se amofina
e que o câncer eu devora.
Após uma vida, meus olhos acordam para o céu. Hoje o viram – telhado perfurado do absurdo, do indizível -. Tocável apenas pelos sentidos e eu, que nunca derramei lágrima ou deixei um instante de pensar em mim mesmo para sentir algo de, ou por outro, acho-me aqui. Contemplativo ante o que sempre esteve aí, perto para quem quisesse e se importasse mais do que consigo.
Percebido agora da necessidade de se saber a respeito do teto maior, de saber do que não ousamos duvidar, acordo de mim. Não o compreendo e o tenho às vistas. Tocamo-lo sonhando. Sentimo-lo por sermos parte do próprio, ainda daqui. Percebemos nele, ainda que sem saber explicar, o senhor de nossas dúvidas.
Pano de fundo de meus delírios, permanecem tranquilas e silenciosas atrás da copa das árvores, as estrelas, imponentes e contemplativas alheias a minha descoberta. Elas dormem o sono inocente e brilhante depois da falha nas palhas de minha senhoria, a casa. Essa que abafa os suspiros derradeiros desse nada, eu, que despertou como se escondido, e ainda o mesmo de todos os dias, de todas as vidas, de todas as dúvidas, o mesmo.
Num canto, uma esteira, única companheira nas horas de enfado, longo enfado de já há tempos. O rabo fino ajeita-se no borralho – flagrante da noite perdida, das noites rompidas pelos gemidos de instante em instante e raros alívios desse coisa alguma.
O papeiro acomoda moscas em um caldo ralo. Em meu redor, o único cômodo e, eu, o incômodo, acomodo-me de cócoras esperando a hora, sentindo-a à porta – breve vem beijar-me a face –, embora leve-me aos poucos todos os dias.
Lembrei-me que um dia vivi, hoje sou o que fui, pois não sei se o “sou” me cabe – melhor seria “restou” -. Vivo o jaz, vislumbrando a marcação na terra onde terei, enfim, sossego de mim. Sou, assim, mesmo que não queira, mesmo que não saiba, sou, a sombra dos sonhos do que um dia foi alguém. E serei, quem sabe eu, um dia – se me restasse algum.
Verei, sei que vou, o romper desse obstáculo que me separa de mim. O fim desse hífen que me separa do eu oblíquo que pareço ser, e que, na verdade, imitava ser.
Juntar-me-ei as partes, a aparência do principal e o eu enviesado separados por esse entrave que me impus para satisfazer ao eu superficial social. Juntarei minhas partes de mim e, então, só então, serei digno do fim.
Por ter querido tanto ser algo é que prefiro não mais ser, por isso me velo; não me importo; aprovo; é o que convém. No fim das contas, essa busca por ser impediu-me de ver o que eu era e em que me tornava.
Relampeja em lembranças o tempo dos tempos em que eu era o que quisesse ser, ou o que queria que fosse. Os tempos em que os dias eram vivos e efervescentes; o tempo em que sorria e fazia sofrer, amontoando amores sem ninguém amar. Os momentos em que vi lágrimas sem nunca haver chorado por ninguém nem me importado – fora a cena -. Se chorei, não senti. Não foi verdadeira a lágrima que caíra, se caiu.
No corpo, agora, trago a dor, vez por outra a de ter sido a própria. Hoje é, e há muito tem sido, a dor em mim, dor de quem um dia a causou. E vem o ardor de não lembrar a cor de seus olhos, cabelos ou cheiro. Queria essas lembranças. Lembrança todas, doces pobres criaturas tão dispostas ao afeto que sempre maltratei. Queria poder lembrar-me de um sorriso. Queria ter podido ter feito realmente alguém feliz. Queria ter podido amar.
A velha cachorra levanta-se. Sacode as cinzas. Olha-me com olhar comprido e úmido e sai. Deixa as sobras de seu dono – nem essa terei como testemunha –. Ela, que sempre alimentei com restos – não seria diferente – sai de cena como eu de quem nunca amei, e que tanto me deram atenção – atenção da qual beberia alento agora.
Sinto um abraço. Um frio invadir-me parte a parte. A hora vem. Impiedosa vem. Aliviar-me. Travo as gengivas desdentadas, tento suportar a agonia derradeira e, nesse instante em que me entrego a algo, ninguém me vê, enfim, chorar.

P3N4 – Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. É autor do livro de contos “Trechos de livros que eu nunca escrevi” (M.inimalismos, 2026). Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.