Do livro “Apenas memórias, “O culto ao corpo”, crônica de Cunha de Silva Filho



 Pugilista da Antiguidade, imagem extraída do site Histórias & outras histórias a 05.08.2021




No tempo em que residi na Rua  Arlindo Nogueira, surgiu entre os adolescentes a moda de cuidar mais do corpo graças à prática do halterofilismo. Um sargento do Exército, moço muito corpulento, teve forte influência sobre alguns jovens da minha  época. Exemplo de corpo  esculpido pelos halteres e levantamento  de pesos com seus exercícios de  agachamentos, mas tudo de forma relativamente  metódica.

       Na verdade, a influência não foi só do sargento, porém do cinema americano,  dos filmes em que atuava Steve Reeves (1926-2000), sobretudo,  que encantava a nós todos com a sua bela  figura de homem musculoso, valente, uma figura de herói na imaginação dos adolescentes. Reeves foi Mr. Universo e Mr. America em competições de fisiculturismo e,  como ator,  interpretou o papel de Hércules, no filme “As façanhas  de Hércules” (1958),. assim como  atuou nos filmes “Os últimos dias de Pompeia” (1959) e  “La Bataglia di Maratona” (1959).

       Outro ator, de muito prestígio entre as crianças e adolescentes, foi Gordon Scott (1926-2007) que foi  um dos Tarzans bem  aplaudidos pela minha  geração. Johnny Weismuller (1904-1984), quiçá o mais famoso  Tarzan do cinema americano,  foi também um exemplo de ator corpulento,  outro grande herói nosso dos tempos de juventude. No entanto, Weismuller não possuía aquele corpo mais modelado de outros  atores. Era vigoroso,  espadaúdo mais em decorrência de ter sido um grande  nadador. Diríamos melhor,   era um forte de nascença.

       Winston, que era esguio, se interessou pela novidade de tornar-se forte e musculoso. Outros amigos também aderiram a ele. Começaram as sessões de halterofilismo em casa de amigos. Os mais  velhos, mas ainda moços, já eram vistos nas ruas  exibindo os potentes bíceps, para deslumbramento das meninas. 

       Eu também manifestei a vontade de ficar mais  robusto. Só que não fui levantar os halteres, fazer  os números  de agachamentos, seguir os princípios do  esporte. Decidi, no segundo quintal de casa,  aprimorar meus músculos,  braços, pernas,  peitoral. Não é que fiz isso levantando algumas pedras pesadas que havia espalhadas no quintal?! Claro que fiquei mais forte, mas o exercício físico mal feito  rendeu-me  uma escoliose só notada, pouco  tempo depois, pelo meu professor de educação  física do Liceu, se não me engano,  o professor  Benjamim. ”Menino, você está torto, está com escoliose e necessita de exercícios para correção.”

       Ninguém, em casa, havia notado, porém falei com meu pai. Transmiti o que meu professor de educação física me havia  falado. Papai, então,  me  levou  a um médico no Centro de Saúde, na Rua  Álvaro Mendes. O médico, muito solícito,  conhecido dele, conversou  comigo e me orientou.

       Precisava  mesmo  de fazer exercícios de ginástica recomendados pelo médico, o qual me ensinou no próprio consultório como devia  proceder. Lhe segui as recomendações por algum tempo. Depois, relaxei. Ao ser convocado para o serviço  militar obrigatório, no Quartel 25 BC, o médico militar, acredito, sem muita precisão,  na patente de  capitão,   me examinou, conforme havia feito com outros  convocados,  e logo me foi dando  o veredicto: “Você, rapaz, tem problemas de escoliose. Não pode ser militar.”

       Foi, assim, que me deram o certificado militar de isenção. Por outro lado,  uma vez que cursava o 3º ano do científico, havia uma portaria ou  regulamento que me permitiria  dispensa do serviço militar. A única coisa chata era a obrigação  de fazermos  o exame  médico completamente despidos. Entretanto,  o mundo dá muitas voltas. Muito tempo depois, quando já lecionava, por mero acaso, avistei, no Largo da Penha, bairro da Penha, subúrbio da Leopoldina, o médico que me havia  examinado  em Teresina. Era um senhor de cenho  fechado, moreno,  com manchas  de espinhas  no rosto. Ainda estava forte.

       O Winston  foi mais feliz do que eu, visto que praticava  o halterofilismo com mais  método junto aos seus jovens  amigos. Se tornou bem atlético embora seja  de estatura  média baixa. Adquiriu muita força muscular.  Na verdade,  a influência. daquele sargento e o cinema americano nos  ensinaram  a olharmos mais para os nosso  corpos e procurarmos ser bem atléticos ou, em linguagem de hoje,  sarados.




Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade (Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996); Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124); Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009); As ideias no tempo (Teresina: APL/Senado Federal, 2010); Apenas memórias (Rio de Janeiro: Quártica); Contos selecionados de José Ribamar Garcia (Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017). Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores (UBE, seção Piauí). Cunha, desde 2017, escreve sobre Literatura, especialmente brasileira, também para a Revista Orizont Literar Contemporan, (OLC), Revista romena sediada em Bucareste, Romênia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *