Al-Shanfara: o poeta que matou cem homens, ensaio de Mateus Machado

Cesare Biseo, Beduíno com camelo, ca. 1870.

Al-Shanfara foi um poeta pré-islâmico, considerado semilendário. Autor do célebre poema Lāmiyyāt ‘al-Arab (Poema dos Árabes). Ele desfruta do status de figura de um anti-herói, fora da lei arquetípico (su’luk), criticando as hipocrisias de sua sociedade a partir de sua posição de forasteiro.
 
Antes, para entendermos o contexto sobre a vida do poeta Al-Shanfara, quero relembrar que todos os poetas que fazem parte do chamado Poemas Suspensos (Al-Muallaqat) demonstram um sentimento de lealdade profunda à sua tribo, e isso inclui vingar-se do sangue dos parentes, quando são assim derramados. Contudo, havia alguns indivíduos que, por algum motivo, maculassem a tribo, seja por um comportamento criminoso ou aviltante, eram desligados, expulsos da tribo, perdendo os vínculos familiares. Esses indivíduos passavam a viver à margem das sociedades tribais, pois já não compartilhavam os mesmos princípios da tribo. O poeta Shanfara era um desses homens, chamados de suluque, que traduzido significa mendigo; no entanto, essa tradução não é assertiva ao termo.
 
Os suluques eram homens que não tinham tribo, por isso vagavam pelo deserto na busca de hospitalidade de tribos estrangeiras, ou, em alguns casos, viviam de pilhagem, de roubo. Seja como for, homens como o poeta Shanfara podem ser considerados verdadeiros heróis, afinal, se viver protegido pela segurança da tribo já não era fácil, seja contra as tribos inimigas ou pela inospitalidade do ambiente natural, pelos desafios de se viver no deserto, para um indivíduo como o poeta Shanfara, viver sem a proteção da tribo, do seu clã familiar, e tendo que arcar sozinho com a ameaça de outras tribos, enfrentado a vingança dos seus inimigos, era algo quase que sobre humano; isso sem contar com os extremos desafios de sobreviver às intempéries do ambiente selvagem do deserto, de ter que disputar o escasso alimento com animais selvagens como o chacal, o leopardo e a hiena. Al-Shanfara sobreviveu a tudo isso porque ele se transformou na própria imagem do deserto; se mesclou com os animais selvagens, com o calor escaldante dos dias e com as noites frias.
 
Como o poeta Shanfara era um suluque, ele não poderia estar entre os dez maiores poetas que fazem parte do cânone árabe dos Poemas Suspensos. Ele pode ser visto como o arquétipo do fora da lei, o poeta marginal que se colocou como um crítico feroz das hipocrisias das sociedades tribais de seu tempo. Shanfara é mais conhecido pelo seu célebre poema Lãmiyyāt al-ʿArab (O Poema dos Árabes).
 
Seu nome completo, ao que consta, seria Thabit ibn Malik ou Thabit ibn Aws, no entanto, é mais conhecido pelo apelido de Shanfara, que significa “aquele que tem lábios grossos”. Pouco se sabe sobre ele, e o que se sabe é através dos seus poemas que, vindos de uma tradição oral, foram passados de geração em geração, para só algumas centenas de anos depois serem registrados na forma escrita.
 
Ao que parece, o poeta pertencia à tribo iemenita al-Azd, provavelmente pertencente ao clã Al-Khazrai. Às vezes considerado como um aghribat al-Arab (corvos árabes), termo usado para se referir aos árabes que nasceram de mães africanas, mas isso é contestado. Há uma interpretação teológica sobre a passagem (Reis 1-6) em que D’us enviou corvos para alimentar o profeta Elias, em um período de seca por toda a Israel; esses corvos que traziam alimento ao profeta seriam esses árabes:
 
E os corvos lhe traziam pão e carne pela manhã, como também pão e carne à noite; e bebia do ribeiro.
 
A sua expulsão da tribo, segundo a história mais difundida, é por causa de uma injustiça que ele sofreu. Tudo começou quando Shanfara, ainda criança, foi levado cativo, sequestrado, por alguns homens da tribo Fahm, que estava sempre em conflito com a tribo de Azd, à qual o poeta pertencia. Tempos depois, o clã dos Salaman ibn Mufrij, da tribo de Azd, capturou um indivíduo da tribo dos Fahm. Com isso aconteceu uma negociação de troca de reféns, e Shanfara estava no meio desses reféns. O problema é que, depois da troca, o poeta, ainda menino, não foi devolvido para o seu clã familiar de origem, mas ficou e cresceu com o clã familiar dos Salaman, acreditando ser parte desse grupo familiar. Até que, certo dia, se aproximou de uma moça, que ele acreditava ser a sua irmã, e pediu para que ela lavasse os seus cabelos. Em resposta, a moça deu-lhe uma bofetada e disse que ela não era a sua irmã. Diante disso, o poeta foi procurar explicações do homem que ele acreditava ser o seu pai. E foi assim que Shanfara ficou sabendo de toda a verdade. Sim, ele era da tribo de Azd, porém seu clã familiar de origem era outro; Shanfara era do clã dos al-Awás ibn al-Hajr. Diante dessa revelação, o poeta se revolta por não ter sido reintegrado ao seu verdadeiro clã; pelo contrário, foi tratado como servo em sua própria tribo, e decide se vingar matando cem homens da tribo de Azd.
 
Uma outra versão da história conta que um membro da tribo teria assassinado o seu pai e a tribo teria se recusado a aplicar a lei da vingança de sangue e fazer justiça. Embora muitos estudiosos considerem que essa história teria surgido posteriormente para explicar o ódio do poeta por sua tribo. Seja como for, o poeta coloca o seu plano de vingança em ação, às vezes com a ajuda da tribo de Fahm. Ao longo da sua jornada, ele mata 98 homens de Azd. O melhor amigo de Shanfara era o poeta-bandido Taábata Charran, que pertencia à tribo Fahm.
 
O poeta Shanfara morreu por volta do ano 525 d.C.; de acordo com a história oficial de sua morte, conta que ele foi morto em retaliação pelo assassinato de Haram ibn Jabir. Segundo o relato, o poeta foi emboscado à noite por Usayd, irmão de Haram, e seus dois sobrinhos, filhos de Haram, que o amarraram e o levaram para a tribo. No entanto, tentando resistir à emboscada, o poeta mata um dos homens, somando 99 homens que ele havia matado segundo o desejo da sua vingança. Ao chegar à tribo, houve uma discussão entre aqueles que desejavam a morte do poeta e aqueles que não concordavam, pois, apesar de tudo, ele era do mesmo sangue da tribo, e derramar o sangue da tribo era proibido. Em meio à discussão, o próprio Usayd decepou uma das mãos do poeta. Ao perceberem que ele morreria, perguntaram onde ele queria ser enterrado, ao que Shanfara respondeu:
 
Não me enterre, pois meu enterro é proibido a você, mas alegra-te, ó Hiena! Quando eles carregarem minha cabeça — e na minha cabeça está a maior parte de mim — e o resto de mim ficar abandonado no campo de batalha, então não terei desejo de uma vida para me alegrar nas noites estagnadas, excomungado por meus crimes.
 
Shanfara morreu em decorrência da mão decepada, pois acabou sofrendo uma intensa hemorragia e foi deixado ali mesmo para morrer. Certo dia, um dos homens de Azd, ao passar diante do cadáver do poeta, já em avançada decomposição, indignado e com nojo, dá uma cuspida e chuta-lhe no rosto, e uma farpa de osso, escondida entre os restos de carne, acaba penetrando no pé desse homem, gerando uma ferida que se agrava e inflama rapidamente, e o mortifica até matá-lo por infecção. Dessa forma, finalmente, o poeta, mesmo depois de morto, cumpre a sua promessa de matar os cem homens de Azd.
 
Assim como Shanfara, havia outros poetas marginalizados, os fora da lei, conhecidos como suluques, aqueles que viviam sem tribo. Entre eles, destacavam-se o poeta Sulaik Ibn Sulka, Amru ibn Barraq e Táabata Charran, este último amigo íntimo de Shanfara. Esses poetas habitavam as montanhas e os recantos mais isolados do deserto, lugares remotos e inóspitos. Em suas composições poéticas, manifestavam seu desprezo pelas tribos e pela vida comunitária, pois, segundo suas visões, a tribo, ao representar o coletivo, restringia a liberdade individual e promovia a corrupção moral. Para esses poetas, era preferível levar uma vida extremamente árdua e perigosa fora da tribo, preservando, contudo, sua liberdade pessoal, do que viver em segurança sob a proteção tribal, submetido às regras do coletivo, que nem sempre favoreciam ou eram justas ao indivíduo. Esse pensamento está claramente presente no Poema dos Árabes, de Shanfara. O poema indicava, de forma antecipada, a decadência do sistema tribal daquela época, fazendo alusão ao Islã, que se aproximava como uma nova proposta de organização social e uma solução para essa decadência. Inclusive, há uma lenda que diz que o Profeta Maomé teria elogiado o poema de Shanfara, afirmando: Ensinem o Poema dos Árabes aos seus filhos. Ele lhes transmitirá uma moral elevada.
 
A poesia árabe pré-islâmica, de modo geral, mas especialmente em Shanfara, é um reflexo do seu ambiente; poesia que, ao mesmo tempo, é rica em suas paisagens naturais, é brutal, árida, selvagem e rudimentar, mas que carrega em si a potência de nos mostrar as belezas mais inusitadas dentro desse ambiente. Afinal, o homem se confunde com as próprias feras; são todos irmãos. O homem torna-se um com o próprio ambiente. Shanfara tornou-se o próprio deserto.
 
Abaixo deixo um breve trecho, na bela tradução de Michel Sleiman, do Poema dos Árabes (Editora Tabla), deste que é, para mim, poeta fundamental:
 
Há na terra, ao honrado, um refúgio contra o mal
e a quem teme o ódio ela também guarda um lugar.
 
Não há limites na terra, eu lhes asseguro,
ao ciente que empreende a viagem noturna.
 
Tenho, além de vocês, outros que são meus:
o bruto chacal, o malhado reluzente, a hiena hirsuta.
 
São dos meus. Não revelam segredo confiado,
nem relegam um homem por um ato culpável.
 
Todos têm honra e, nisso, são bravos, e eu sou mais:
sou quem primeiro enfrenta o animal feroz.
 
E quando as mãos avançam à comida eu não sou
o mais rápido; é o mais ávido quem se adiantou.
 
Isso só é um pouco do meu vasto favor
com eles, o melhor é ser o mais generoso.
 
A mim é o que basta não espero recompensa
de gente com quem não se pode ter confiança —,
 
três companheiros: um, o ardente coração;
outro, a afiada nua; e outro, o esguio, cor de açafrão,
 
arco ululante, liso no toque e adornado
por incrustações pendentes e um talabarte.
 
Quando ele arqueia, a flecha passa e geme, como a
desesperada aos gritos que uiva pelo seu morto.
 
Não sou desses que à noite apascentam camelos
e crias mal nutridas, fêmeas que não aleitam.
 
E nem sou covarde que disfarça o mau hálito e
depende da mulher para todo e qualquer trato.
 
Nem sou desses néscios, avestruz que tem no peito
um pardal que sobe e desce em constante frêmito.
 
Nem sou desses tolos, caseiros, enrabichados,
que vão e vêm, óleos no corpo, olhos delineados.
 
Nem feito parvo, mutuca, mais nocivo que útil;
ameaçado, fica inerme, basta que o assustem.
 
Nem sou desses que encolhem nas trevas se a camela
inclina o passo num deserto sem referência.
 
Quando a pedra dura bate nas patas de minha
camela, lascas faíscam, eclodem chispas.
 
A fome eu a prolongo até que a elimine,
e ignoro pensar nela até que dela olvide.
 
Até sorvo o pó da terra, para que homem bom
nenhum queira à minha frente dar de generoso.
 
Não temesse o desprezo, todo poço eu faria
que fosse só meu, e assim também com a comida.
 
Mas uma alma amarga eu não sustentaria
diante o desprezo, e então eu sigo uma outra via.
 
Dobro as vísceras sobre a fome como se dobra
a lã crespa no novelo — se estica e se enrola.
 
De manhã pra comer saio à cata como o esquálido
animal zanza, a tez cinza, no horizonte, pálido.
 
Zarpa, sobre a fome dobrado, como vento
desce, disparado, a trilha dos desfiladeiros.

Mateus Machado é anti-poeta, escritor e ensaísta, formado em gestão ambiental pela Faculdade Prof. Luís Rosa (Jundiaí). Em 1997 foi cofundador e diretor de cultura da AEPTI (Associação dos Escritores, Poetas e Trovadores de Itatiba-SP). Participou em antologias e na revista literária Beatrizos (Argentina), vencedor de prêmios literários, entre eles, Ocho Venado (México), e um dos finalistas do Mapa Cultural Paulista (edição 2002). Entre 2017 e 2018, foi aluno de música clássica indiana com o citarista, escritor, tradutor e poeta Alberto Marsicano. Autor dos livros publicados Origami de metal (poemas, Editora Pontes, 2005), com prefácio do poeta Thiago de Mello; A mulher vestida de sol (poemas, Editora Íbis Líbris, 2007); A beleza de todas as coisas (poemas, Editora Íbis Líbris, 2013), com prefácio de Alberto Marsicano, onde finalizou sua primeira etapa como anti-poeta; As hienas de Rimbaud (romance, Editora Desconcertos, 2018); 17 de junho de 1904 — O Dia que não amanheceu (ensaio, Editora Caravana, 2022), sobre a obra do escritor irlandês James Joyce, e Nerval (poemas, Editora Caravana, 2022), um livro de transição. Em 2023, iniciando uma nova fase no seu trabalho, publicou o primeiro livro da trilogia Poiesis Religare, intitulado YHVH, pela UICLAP, através de autopublicação. Agora, em 2025, está publicando o novo livro de poemas O Evangelho segundo as HQs, pela Editora Mondru, iniciando a sua segunda trilogia poética. Atualmente está finalizando o livro Um bode para Adonai — outro para Azazel. É autor do canal de literatura Biblioteca D Babel no YouTube.

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E-mail mateusmachadoescritor@gmail.com

Instagram @poiesis_religare

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