
Passado mais de um ano que o office invadiu o home, fica claro que a indumentária é algo importante no local de trabalho. No caso, a casa. O mais interessante é que não só a pessoa que está trabalhando precisa se preocupar com suas roupas. Todos os habitantes da residência precisam estar atentos.
Esses dias de manhã bem cedo, eu estava atrapalhada. Não tinha tirado o pijama velho e surrado que amo. Ajudava minha filha mais velha a se organizar pra suas atividades quando ouvi que a minha filha mais moça havia driblado o esquema de segurança, invadido e fechado a porta do escritório onde meu marido começava uma reunião.
Cabia a mim resgatar a moça de lá, mas então me dei conta de que estava de pijama e roupão. O meu roupão é rosa, me deixa com aspecto de ursão carinhoso velho e, sejamos honestos, ele é quentinho, confortável, mas não me favorece. Já o meu pijama não é um pijama qualquer. É discreto, mas, em contrapartida, é de uma malha velha e surrada. Na bunda parece ter sido alvejado por um disparo de espingarda. Ou seja, se eu tirasse o roupão rosa à lá ursão carinhoso velho, ficava com um pijama discreto com cara de roupa, mas que foi alvejado na bunda. Pensei que trocar toda a roupa seria demasiado demorado.
Eu tinha duas opções, nenhuma delas incluía me expor como um grande e velho urso de pelúcia de humor duvidável. A primeira era entrar no escritório, resgatar a fujona e sair de ré pra que nenhuma das pessoas da reunião visse a minha contracapa pós-guerra pela câmera. A outra opção era tentar achar um moletom ou agasalho, na bagunça de uma casa recém-acordada, amarrar na cintura pra poder tapar a traseira e ter mais mobilidade pra fazer o resgate da pequena. Ainda assim, sobrariam os peitos balançantes do sem-sutiã matinal. Talvez fosse preciso dois agasalhos: um pra bunda, outro para os peitos, o que era quase impossível naquela hora e naquela bagunça.
Passados os 5 segundos de todas essas elucubrações, resolvi espiar pela fresta da porta e sussurrar: já começou a reunião? Por sorte, ainda não tinha começado. Pude entrar feliz, esfarrapada e com toda a minha intimidade ainda não invadida pra buscar a pequerrucha. E nesse dia aprendemos mais uma lição: em hora de reunião precisamos estar todos vestidos adequadamente pra evitar o constrangimento do trabalhador, da família e dos colegas de trabalho.

Malvina de Castro Rosa é de Porto Alegre. Escritora, relações públicas e mestra em design estratégico, publicou os livros As loucas aventuras da guria maluca (crônicas, 2013), Paralelos Cruzados (2021), seu primeiro romance, e Crônicas de um fim do mundo antecipado (2023), no qual reúne crônicas do blog semanal que mantém há mais de quatro anos, www.bomdiasociedademachista.blogspot.com. Em 2024, lançou a coletânea de contos Em nós. Atualmente, é editora assistente na Caravana Grupo Editorial, no Brasil, e editora-chefe da Caburé, na Argentina, além de conselheira da revista Vinca Literária.
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