Single Post

Single Post




Ilustração: IA sob prompt do autor




Essa é a verdade: vivemos a plenitude da ditadura do som. Não existe mais silêncio, nem nos vizinhos, nas ruas, nos sítios, nos bares e restaurantes, nos cinemas ou em qualquer lugar que a gente se proponha a frequentar.
 
Ao lado de um prédio onde morei tinha um lava-jato cujo proprietário e funcionários, diariamente, isso mesmo, diariamente ligavam o som às 7h30 e desligavam às 19h, ininterruptamente, sem dó e nem respeito à vizinhança. A rotina revezava entre os lavadores ouvindo o som dos carros dos clientes e o proprietário, que ligava o seu próprio som.
 
Outro dia, fui passar o domingo no sítio de um cunhado, a uns 14 km de Teresina, dentro das brenhas. Pensava eu que encontraria o silêncio em meio à frondosa e aprazível vegetação do lugar, quando, de repente, no sítio ao lado os netos do proprietário chegaram com seus carros de sons potentes e mandaram o silêncio para o quinto dos infernos. As músicas, sempre as mesmas, sustentavam aquela batida seca interminável, puxadas por um tal de Zé Vaqueiro.
 
Recentemente, fui a São Bernardo do Maranhão e, antes de chegar em Luzilândia, parei o carro em uma bifurcação no meio do nada, para me certificar sobre o caminho correto a seguir. Havia uma casinha simples, erma, com 2 rapazes jogando sinuca e um carro ao lado. Surpreendentemente, o silêncio foi arrastado pela mesma batida inconfundível, em uma altura insuportável até para quem acionou o botão. Acho que o rapaz, ao me ver, quis mostrar o quanto o som do seu carro era capaz de afugentar a fauna ao redor.
 
No cinema, não há a mínima preocupação e respeito a quem se propôs sentar a bunda numa cadeira por mais de uma hora e entender o que se passa na tela. Casais e grupinhos de amigos conversam como se estivessem na praça de alimentação.
 
Aniversários e casamentos em Teresina se transformaram em um martírio musical. O som é tão alto que os convidados se obrigam a passar o tempo se apreciando fisicamente, porque não é possível trocarem uma palavra um com o outro. Bares e restaurantes fazem isso: confundem música ambiente com show musical, e os grupos tocam para um parque de diversões.
 
Já percebi que sou voto vencido, nessa luta pelo silêncio. Não tenho como enfrentar essa ditadura da musicalidade. Até na madrugada, quando produzo meus escritos, ouço ao longe aquela batida intermitente, perturbando o sono de alguém. O teresinense adora música ao vivo. O problema é que estão cada vez mais difíceis lugares em que se encontre a evidência do silêncio. E não faço ideia de como isso vai terminar. A solução é fazer um isolamento acústico no meu escritório. Aí o mundo pode acabar em festa!





Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

Arquivos
Categorias